Entrevistas

“Foro íntimo” e o retrato de um sistema judiciário doente

Por Alysson Oliveira

Publicado em 25/09/19 às 15h09

Gustavo Werneck, em cena de "Foro íntimo", como um juiz obrigado a viver no Fórum onde trabalha (Crédito: Divulgação)

Montador experiente, o mineiro Ricardo Mehedff fez algumas descobertas interessantes sobre o sistema judiciário brasileiro enquanto preparava e filmava sua estreia na direção de longas, Foro íntimo. A principal delas é que “o sistema judiciário brasileiro está doente e é incapaz de uma imparcialidade básica”, disse em entrevista ao Cineweb.
 
Para investigar esse sistema em crise, ele coloca em cena um juiz – interpretado por Gustavo Werneck – que não pode deixar o fórum onde trabalha porque está sendo ameaçado de morte por julgar um caso envolvendo um político poderoso. “Em 2012, eu li uma história sobre um juiz do Mato Grosso, que estava nessa situação e foi forçado a ficar assim por seis meses, e comecei a pensar no potencial dramático disso: o juiz ‘preso’, enquanto o criminoso está solto”. A partir daí, Mehedff começou a pesquisar e descobriu que a situação não é tão atípica; vários magistrados no país passaram por algo parecido.
 
Quando ganhou um edital promovido pela prefeitura de Belo Horizonte, o diretor se viu obrigado a filmar logo, mesmo com o baixo orçamento. Com isso, fez algumas mudanças no roteiro, que ele assina com Guilherme Lessa. “Havia outras histórias, não apenas do juiz, mas do caso como um todo, e o filme mostraria o trabalho da promotoria e da polícia.” Mas Mehedff acaba concluindo que a necessidade o obrigou a fazer um filme mais enxuto – 74 minutos – num único cenário, o Fórum Lafayette, em Belo Horizonte, e o resultado é mais pungente do que o imaginado. “Isso ajudou a criar uma tensão e uma claustrofobia, além de uma proximidade com esse personagem. A gente acompanha um dia na vida desse juiz que não pode sair dali. A pessoa mais próxima dele é o seu segurança.”
 

A equipe recebeu permissão de filmar no fórum mineiro durante o recesso entre 2015 e 2016, e Mehedff (à esquerda, na foto ao lado, no set com o diretor de fotografia do longa, Dudu Miranda) usou tudo o que pode para construir a narrativa. “Os corredores, as mesas e prateleiras atoladas de papel, as câmeras de segurança, tudo contribuiu para criar a vida desse personagem dentro daquele lugar. Ele não pode sair de lá, apesar do desejo cada vez maior de estar do lado de fora.”
 
 O longa foi rodado em preto e branco, com o formato de tela quadrado, o que o diretor admite que foi planejado desde o começo. “Isso tudo ajuda a dar uma sensação atemporal”, mas a localização é bem específica: o Brasil de hoje. No filme, o juiz pratica atos eticamente condenáveis, como sua proximidade com o promotor do caso ou quando manda vazar para a imprensa informações sigilosas. Mehedff mostrou o filme no fórum, numa sessão da qual participaram juízes e outros profissionais, e as reações foram díspares. “O filme é muito aberto a interpretações, especialmente por conta das atitudes do protagonista.”
 
Para dar veracidade à trama,Mehedff fez uma pesquisa, conversando com juízes, promotores e funcionários do fórum. “Eu queria saber detalhes do dia-a-dia. Por exemplo, quando alguém passa mal lá dentro, como faz? Descobri que existe uma equipe médica no próprio fórum para atender emergências, e saber isso era importante para uma cena do filme.” Outra descoberta importante: a relação de um juiz com o seu segurança. “O juiz tem que acatar as decisões do segurança, e assina um termo aceitando isso. Aí vi nessa relação um potencial dramático do juiz não aceitando as imposições do policial que o protege.”
 
O ator Gustavo Werneck, que também é médico e trabalha com políticas de saúde pública, também pode acompanhar o cotidiano de um juiz. “Era importante para ele saber como é um dia típico na vida desse profissional, para que no filme possamos mostrar um dia atípico.”
 
O diretor afirma que pretende fazer a sua “Trilogia do Poder”. Após Foro íntimo, prepara Foro privilegiado, que deve trazer como protagonista um senador; o terceiro filme deve abordar a esfera do executivo, tendo ao centro um prefeito de uma cidade fictícia no interior de Minas.















Alysson Oliveira

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