Entrevistas

Karim Aïnouz discute a condição feminina no Brasil dos anos 1950

Por Neusa Barbosa

Publicado em 07/11/19 às 11h57

Consagrado em Cannes com o prêmio de melhor filme na seção Un Certain Regard em 2019, além da indicação para representar o Brasil na disputa de uma vaga no Oscar de filme estrangeiro 2020, o drama A Vida Invisível, sétimo longa de Karim Aïnouz, vem fazendo uma trajetória brilhante. Adaptando livro da escritora Martha Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, o cineasta cearense toma, no entanto, diversas liberdades para contar a história de duas irmãs, Guida (Júlia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte), filhas de uma família portuguesa no Rio de Janeiro, sofrendo os efeitos do machismo nos anos 1950. 
 
Nesta entrevista exclusiva, concedida em Cannes a Neusa Barbosa, Karim detalha o processo de adaptação e menciona seus principais objetivos para contar a história, na qual pretende colocar em evidência não só a crueldade do patriarcado como peculiaridades da vida de imigrantes no Brasil - ele que é filho de um argelino com uma cearense e que está finalizando um filme sobre a Argélia, que ele visitou recentemente pela primeira vez.  (Atenção - o texto abaixo contém spoilers).
 
O que o atraiu para adaptar este livro?
O que me pegou no livro foram os personagens e acho que por uma coisa muito pessoal. Me lembrou muito minha mãe e minha tia - ela tem uma irmã só.
 
Você foi criado por elas?
Fui criado pela minha mãe e minha avó. Minha avó viveu a mesma coisa que minha mãe, o marido a deixou quando tinha 23 anos, com dois filhos para criar, e ela virou costureira. Então, logo que pôde, minha mãe começou a trabalhar para ajudar minha avó. Ela fez faculdade, mas na faculdade já trabalhava. E tinha a minha tia, cujo grande sonho era casar, ter uma família. E a minha mãe casou, separou, me criou sozinha. Minha tia casou e seu casamento foi um desastre, assim como vários casamentos foram desastres. Você não tem muita escolha. Então isto foi muito próximo do livro. 
Outra coisa que me interessava no livro era um recorte, que foi a década de 50. Que é uma década importante para se jogar luz nela porque é imediatamente anterior à revolução sexual, à pílula, ao divórcio (naquela época, o desquite). Então pra mim foi muito importante olhar para aquele lugar, como se eu estivesse olhando para algumas mulheres que ainda estão vivas hoje, que é uma última geração, e que a gente pudesse entrevistá-las sobre aquele momento, Acho que é um momento de guerra, no final das contas, para a condição feminina, um momento de afogamento, de sufocamento. 
 
Mas antes disso ainda era pior.
Claro que era muito pior antes. Provavelmente nos anos 50 era muito melhor do que a década de 10, ou 30 anos antes. Mas era muito importante pra mim fazer uma crônica desse tempo. Era importante o fato de que são duas irmãs, acho que no livro é muito bonito. Agora, a trama do filme é muito diferente. Porque não tem como justificar que a Eurídice era tão louca pela Guida e não foi atrás da Guida. Porque no livro ela casa com um cara de Botafogo e desaparece. A Martha (Batalha, autora do livro) resolve isso em um parágrafo e diz que Eurídice passou 20 anos procurando sua irmã, que havia saído de casa, e um dia se encontram por acaso. E elas voltam a ter um relacionamento. Eu passei muito tempo me debatendo sobre isso - encontra, não encontra...A gente decidiu por um encontro enviesado, mais um desencontro. No livro, eu acho que as cicatrizes se resolvem de uma maneira muito suave. Acho que são cicatrizes que jamais serão cicatrizáveis. Isso para mim era muito importante.
 
Pensando no filme que eu vi, eu acho que a separação ficou muito melhor. A intensidade que isso traz…
Claro, a falta, né? A gente criou uma trama de investigação policial quase, para dar conta da matéria que tinha no livro. Acho que isso faz parte do processo de adaptação. Tem que entender que há coisas que funcionam na literatura que nunca funcionarão no cinema e vice-versa. E acho que eu entendi alguma coisa do cinema, porque a gente está sempre aprendendo, o cinema é muito sobre objeto, fato concreto. 
 
Como assim?
Você tem que criar imagens para as coisas, por exemplo, como é que você mostra para as pessoas que aquelas irmãs se gostam tanto. Você tem que passar aquela intimidade de pele
Esse foi outro desafio. Porque na verdade o filme começa quando a Guida (Julia Stockler) vai embora, esse é o fato dramático. E tinha uma outra coisa que eu imaginei que ia fazer. A gente filmou as duas pequenas. A gente tem todo um núcleo do filme em que são elas pequenininhas, 8, 10 anos, mas que na montagem me pareceu um corpo estranho.
 
Sobrou.
Era um corpo estranho. Já tem uma troca de ator no final, quando a Fernanda Montenegro entra. Mas aí é uma troca muito abrupta, 50 anos depois. Então, trazê-las pequenas não fez muito sentido. Mas a gente tinha um desafio: como é que você cria o laço? Porque, para criar a falta, você tem que criar o laço. Esse foi outro desafio grande. Porque no livro você volta para trás, faz um monte de flashbacks. Mas no cinema você muda de ator. Então, a decisão era muito concreta. Quando você muda de ator, lógico que você quebra o fluxo. Se eu vou quebrar o fluxo, que eu quebre de uma vez, de uma maneira muito brutal. Não dá para a gente ficar nessa troca de ator quando tem 10 anos, quando tem 20, quando tem 40…
 
Essas trocas criam uma dificuldade.
É. Então, para criar uma relação emocional, eu também não queria muito entrar naquela coisa da maquiagem. 
 
Criaria um artificialismo
É, eu acho que você sai do filme. Eu me lembro que eu fiquei vendo um filme de que eu nem gosto muito, o Moonlight, que troca de ator três vezes e pra mim cada vez eu tenho que recomeçar o filme. Eu vou perdendo ali o fluxo, a conexão emocional é rompida. Então, essas foram coisas que foram muito evidentes na hora de fazer a adaptação. Outra coisa na adaptação é que, no livro, Eurídice vai ficando gorda, pra rejeitar o marido, e era impossível. Como é que eu vou fazer, vou fazer efeito especial para a pessoa ficar gorda?  O piano também é um elemento que não está no livro.
 
No livro, o instrumento da Eurídice é a flauta.
Flauta, culinária, educando os filhos, para tudo ela tem um talento, tudo ela faz bem. Mas no momento em que ela vira profissional, o marido coloca de lado. Então, a gente decidiu escolher uma coisa só porque também é mais claro para o espectador entender um sonho do que vários sonhos do personagem. Então, teve essa mudança. E acho que o piano, de alguma maneira, dá uma dimensão concreta, do objeto na cena, que é muito importante. Então, são sempre decisões com relação a coisas muito concretas, o que é que você filma, como é que você filma. 
 
Mesmo a figura do marido, que no livro é odioso, acho que o Gregório Duvivier o humanizou no filme.
Acho isso muito importante.Acho que ele tem uma coisa um pouco gauche, tem um senso de humor. A gente leu muito o roteiro antes de ter escolhido o Gregório. Foi de propósito trazer um humorista fazendo drama. Era um papel dificílimo e muito perigoso. Porque na hora que você vilaniza, você também autoriza homens assim. Mas os homens não eram tão maus assim. Acho que não é sobre o homem ser mau, é sobre o homem ocupar aquele lugar de poder em que ele claramente vai ser cruel com o outro, porque ele ocupa um lugar de poder de que às vezes nem ele tem consciência. Isso para mim era muito importante. Acho que o ator português (António Fonseca) também me ajudou muito nisso.
 
Em que sentido?
Eu queria tanto falar dessa camada de imigração portuguesa, Acho que a gente fala tão pouco dela. A gente fez muita pesquisa sobre a comunidade portuguesa no Rio. E tinha uma outra coisa pra mim. Também tem essa camada no filme, que talvez ninguém vá ver, é que eu sou filho de imigrante. Meu pai é argelino e eu olho pra ele às vezes, ele é um cara que tem 80 anos, é um cara que gostaria de ser mais moderno do que ele é mas não pode, não dá, ele está ali representando uma cultura, está numa terra nova. Então ele tem que ser o tempo inteiro estoico. E tem uma outra coisa, que é uma loucura, é que tem que dar muito certo. Então na hora em que não dá muito certo, isso vai virando um problema. E eu tinha acabado de fazer um filme sobre imigração (o documentário THF: Aeroporto Central), então era importante olhar para o Brasil. 
 
Você fez também um documentário sobre os argelinos não?
Estou fazendo agora (o filme está em processo de montagem e deve ser transformado em dois). Nunca tinha ido ao vilarejo em que meu pai nasceu na Argélia, foi uma loucura. Porque não é um pedaço seu e é...Sei lá, fui no cemitério e todo mundo tem meu nome. Então, eu queria falar disso. A Martha (Batalha, autora do livro), na verdade, ela faz essa arqueologia da presença portuguesa na Tijuca e na zona norte do Rio. E eu fiquei muito encantado com isso, com a possibilidade dessa crônica. A gente é um país de imigrantes, entendeu? A gente não nasceu brasileiro, a gente vem de um monte de lugares. Quem nasceu brasileiro são os autóctones brasileiros, mas que também são completamente invisibilizados. 
E voltando ao comportamento do pai português, ele não age assim só porque é um homem, mas porque é um imigrante que tem coisas a provar. E era importante para mim falar da classe operária. Esse cara era um padeiro.
 
Imagina o que ele passou para chegar aí.
Isso, trazer a mulher, criar as filhas. A gente fez muitas entrevistas com imigrantes portugueses para poder compor o personagem do pai. O problema dele não é só que a filha saiu de casa e voltou grávida. Era um plano de vida inteiro que ele tinha para aquelas filhas, que é a vida nova da primeira geração. 
 
Ele queria que ela subisse um degrau a mais. E, para ele, ela quebrou isso.
É, eu conheço isso, é a primeira geração de imigração.
 
No final, as tuas heroínas são feministas sem a teoria, na prática, na vida.
Antes da questão feminina, acho que tem a questão da solidariedade. É muito importante falar através do personagem da Guida, principalmente. Mas mesmo com a Eurídice (Carol Duarte). Era muito importante falar da crueldade do patriarcado mas da resistência a ele. Não uma resistência planejada mas, enfim, são laços de resistência que vão se formando para sobreviver. Era muito importante falar disso.















Neusa Barbosa

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