Entrevistas

Marco Tullio Giordana: o cineasta como intérprete do seu tempo

Por Alysson Oliveira

Publicado em 09/08/19 às 12h40

Marco Tullio Giordana na abertura do 8 1/2 Festa de Cinema Italiano em São Paulo (Crédito: Luís Simione/Divulgação)

Quando jovem, no começo dos anos de 1970, o cineasta italiano Marco Tullio Giordana pensava em ser pintor, mas uma viagem à França, onde visitou uma exposição de Francis Bacon, seu ídolo, desistiu. Ele conta que saiu do museu tão deprimido que ficou procurando uma ponte para se jogar dela. Passou por várias, até que em uma estava uma equipe de cinema fazendo uma filmagem. Como eles falavam em sua língua se aproximou, e começou a observar. Tratavam-se de Marlon Brando e Bernardo Bertolucci filmando O último tango em Paris. “Eu fiquei impressionado de ver todas aquelas pessoas juntas, porque no cinema nunca estamos sozinhos. Pintar é muito solitário. Fazer um filme não é. Bertolucci acabou me salvando”, diverte-se lembrando da história algumas décadas depois.
 
Giordana entrou para o cinema e fez vários filmes, mas sem dúvida sua obra-prima é o épico dramático O melhor da juventude. Divido em duas partes de quase três horas cada, o longa acompanha a vida de uma dupla de irmãos – interpretados por uigi Lo Cascio e Alessio Boni – fazendo uma crônica de sua família e da história da Itália desde os anos de 1960 até os primeiros do século XXI. No Brasil, o longa foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 2003, e num canal a cabo. Agora, além de integrar a programação do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, chegará às salas de cinema no próximo dia 5 de setembro. “Fico muito feliz do filme voltar aos cinemas brasileiros, poderia voltar aos da Itália também, porque, mesmo sendo uma história do passado, fala muito sobre o nosso presente. Temos uma nova geração que precisa lutar contra um sistema tradicional e fechado”, conta em entrevista ao Cineweb.
 
O cineasta conta que sua geração é posterior à dos protagonista de seu filme, mas ainda assim, aquele é “o seu tempo”. “A economia da Itália dos anos de 1960 estava no auge, dava-nos a impressão de que tudo estava bem, mas aí vinha um monte de filme crítico, mostrando que não era bem assim. Acho que a função do cinema é mostrar as crises. Em O melhor da juventude, mostrar a desilusão de 68, a impossibilidade de se fazer a Revolução.” Mas não é apenas isso, ele acrescenta: “acho que a função do cineasta é ser interprete do seu tempo, e é isso que tento fazer no filme, falar do passado para refletir o presente”.
 
Giordana destaca como a única revolução de verdade ocorrida na Itália foi com o psiquiatra Franco Basaglia que transformou o tratamento das patologias mentais ao propor um sistema menos cruel, sem eletrochoques e afins. “Os manicômios continuaram existindo depois do trabalho dele, mas eram fora da lei. Foi uma verdadeira revolução humanista”. Um dos personagens no filme se torna psiquiatra e segue os tratamentos propostos por Basaglia, cuidando de uma paciente de um manicômio abusivo, Giorgia (Jasmine Trinca).
 
Para explorar as relações familiares, pessoais e profissionais entre os personagens, o diretor conta que as quase seis horas de filme foram fundamentais. “O cinema é uma arte da síntese, mas aqui tínhamos a possibilidade de ser expansivos”. O roteiro assinado pela dupla Sandro Petraglia e Stefano Rulli levou duas décadas para ser escrito, e segundo Giordanna, traz figuras maravilhosas, “mas eles não são a maioria, infelizmente.”
 
 Jasmine Trinca, Luigi Lo Cascio e Alessio Boni em cena de "O melhor da juventude"  

 
Giordana confessa que aceitou o convite para dirigir o filme porque o roteiro lembrava-o muito de seus amigos, mas tinha receio por ser, originalmente, uma produção para a televisão. “Achava que iam me impor elenco, a narrativa, publicidade. Estava receoso, mas tive a liberdade de fazer exatamente como eu queria, e com a longa duração.” Mas também sabe que o caso foi praticamente uma exceção, e raramente consegue se produzir para a televisão dessa maneira. “Os canais não são gerenciados por artistas, mas por pessoas de negócio, daí os filmes vão tendo a obrigatoriedade de ter alguns elementos que claramente irão atrair mais público, como cenas de sexo e reviravoltas”.
 
Ele também sabe que O melhor da juventude é um filme único, cujo sucesso não deveria servir como parâmetro em sua carreira. “Algumas vezes nem acredito que fui eu quem o fez. Quando o revejo fico impressionado e comovido com algumas cenas.” Ele confessa também que já lhe propuseram fazer remakes – até produtores chineses o convidaram para refilmar na China – mas ele se nega: “eu não saberia por onde começar. Não acho que dê para refazer ou criar uma continuação. É algo muito único”.
 
Para mais informações sobre o 8 ½ Festa do Cinema Italiano e a programação completa do festival, acesse http://www.festadocinemaitaliano.com.br/















Alysson Oliveira

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