Entrevistas

Dos curtas ao longa, a volta para casa de Rodrigo Grota

Por Alysson Oliveira

Publicado em 07/08/19 às 16h38

Rodrigo Grota é um premiado curta-metragista que estreia na direção de longas de ficção com Leste Oeste. No filme, um piloto de corridas (Felipe Kannenberg) volta à sua cidade natal, onde reencontra um antigo amor (Simone Iliescu), e seu pai (José Maschio) com quem tem pouco contato. Nessa entrevista, o cineasta fala da transição para longas, das dificuldades de fazer um filme de baixo orçamento e como combinar atores profissionais e não atores num filme.
 
 
Você tem uma carreira como curta-metragista, como foi o processo para fazer o seu primeiro longa?
O processo para o primeiro longa foi o mais demorado - a ideia inicial surgiu ainda em 2010, quando eu estava circulando com o curta Haruo Ohara. O primeiro roteiro ficou pronto em 2011, até que em 2013, após alguns tratamentos, conseguimos o primeiro incentivo financeiro. O filme foi rodado em condições bem modestas: em apenas 15 dias, de novembro a dezembro de 2014, por uma equipe bem reduzida - cerca de 15 pessoas. Tínhamos um orçamento de curta para fazer um longa - cerca de R$ 80 mil. Para efeito de comparação, o curta Satori Uso, que lançamos em 2007, tinha custado R$ 100 mil.
 
Por outro lado, essa limitação de orçamento traz outras coisas fantásticas, como o engajamento da equipe não só pelo lado profissional, mas emocionalmente também. Estávamos rodando um longa em uma cidade do interior, em um estado (Paraná) que não tem tradição em apoiar a cultura nem o cinema. Então, conseguir fazer o filme, concluí-lo e agora estreá-lo já é uma conquista!
 
O que você notou de semelhanças e diferenças nos dois formatos?
Há a questão do tempo e do ponto de vista narrativo. Nos curtas, geralmente eu adotava um ponto de vista apenas, até porque a narrativa era muito abreviada. Já no Leste Oeste temos inicialmente o personagem Ezequiel (Kannenberg) como condutor; aos poucos, quem assume essa posição é a personagem da Stela (Iliescu).
 
O longa também me exigiu um trabalho mais denso em relação àquilo que o Billy Wilder chamava de segundo ato - no início há sempre a apresentação daquele universo ficcional, as paisagens, as personagens. Então, é natural o interesse do espectador. No final, ocorre algo similar - a trama está para ser concluída, todos se concentram. Já nessa espécie de segundo ato é sempre algo um tanto mais complexo.,pelo menos para mim. O que há de semelhante é que, no fundo, as questões estéticas principais permanecem - como compor determinado quadro; como expressar aquilo que está no universo interior das personagens; o que será expresso e o que será expresso pelo subtexto.
 
Como foi feita a escolha do elenco?
O Felipe Kannenberg eu havia conhecido no Festival de Gramado e já tinha visto alguns filmes dele. Fizemos um teste por áudio - eu enviei textos literários que escrevi pensando no Ezequiel e pedi para que ele gravasse e enviasse de volta. A ideia era avaliar se ele tinha sintonia com a personagem. Esses textos, aliás, serão publicados agora em um pequeno livro de bolso que estamos lançando como peça promocional do filme, Anotações para o Leste. A Simone eu também conheci em Gramado - só agora notei a coincidência. E depois nos encontramos algumas vezes. Mas eu já visto o curta Cynthia, do Marcelo Toledo, e tinha gostado muito da atuação dela. Os demais atores são de Londrina - uma mescla entre não-atores, caso de Bruno Silva, José Maschio e Edu Reginato, e atores jovens iniciantes: Filipe Garcia e Letícia Conde.
 
Como foi equilibrar as interpretações de atores e atrizes mais experientes com os estreantes?
Para equilibrar essas interpretações, eu conversava com cada intérprete de forma diferente. Você precisa compreender como contribuir para que o ator dê o melhor de si mesmo. Neste sentido, o diretor faz um trabalho muito mais de observação e aprendizado do que de condução. Gosto de observar como eles se movem, falam, olham, ficam em silêncio. Converso sobre a vida com eles - sobre coisas importantes e coisas banais. No fundo, é uma aproximação sempre afetiva.
 
          Rodrigo Grota dirige as atrizes Simone Iliescu e Letícia Conde, em cena de Leste Oeste (Crédito: Divulgação)
 
 
Como surgiu a ideia para o filme?
Foi quando comecei a voltar para a minha cidade natal - Marília, no interior de São Paulo –, para visitar mais a minha mãe, que havia ficado doente. Nessas viagens, comecei a encontrar amigos de infância - e daí surgem naturalmente conversas sobre aqueles que partiram e aqueles que ficaram. Comecei a imaginar um personagem que viajou por muitos países, correu riscos e, após 15 anos, voltou para sua cidade natal. Esse era o ponto de partida - é possível voltar para casa? Conseguimos retornar ao nosso ponto de origem afetivo? Após essas questões iniciais, criei a personagem de uma Mulher que Canta, que mais tarde se tornaria a Stela. Trabalhei no roteiro por três anos e meio. Ele só ficou pronto em julho de 2014 após sete tratamentos. 
 
Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou nas filmagens?
A maior dificuldade foi trabalhar com tão poucos recursos - não tínhamos muitas lentes, nem equipamento de iluminação, além de uma equipe bem reduzida. O cronograma também foi bem apertado - houve uma diária, por exemplo, que se iniciou às 14h e só foi terminar às 7h da manhã do dia seguinte. Isso ocorreu, pois só tínhamos acesso e agenda dos atores para um determinado dia – então, as cenas precisavam ser rodadas de forma muito rápida.
 
Como foram feitas as cenas de corrida ?
Para essas cenas, pude retomar a minha experiência de documentarista. A nossa abordagem, na maior parte delas, foi documental - misturamos nossas personagens em meio aos personagens reais da prova. Foi uma adrenalina incrível: as pessoas preocupadas em vencer a corrida, enquanto estávamos focados em como construir a cena. Mas, de certa forma, gosto muito de estar diante desse caos incontrolável - ele exige que você se concentre no que é essencial.
 
E quais são seus próximos projetos?
No momento, estou finalizando a montagem de um longa chamado Passagem Secreta, que rodamos no começo deste ano com recursos do antigo edital de BO do antigo Minc. É uma ficção científica voltada ao público infantil. Dois projetos que dirigi devem estrear neste segundo semestre: a série de TV infantil Super Família (26 episódios de 13 minutos cada), e o curta-metragem Pequenos Delitos. Desde o ano passado, estou escrevendo o roteiro do filme Isto é um Assalto, sobre o maior episódio da história criminal de Londrina: em 10 de dezembro de 1987, sete homens armados mantiveram 300 pessoas como reféns por 7 horas no centro de Londrina. Eles queriam 30 milhões de cruzados e começaram a protestar contra o governo Sarney, o que fez parte da população ficar do lado deles. Por último, estamos filmando a série Cientistas Brasileiros (5 episódios de 60 minutos cada), que deve estrear em 2020 no Canal Curta. Acabamos de filmar dois episódios nos EUA - em Los Angeles e Pasadena, na Nasa; e também na região de Boston, na Costa Leste. As filmagens devem se estender até o início do ano que vem.
 
Você pensa em retomar algum curta seu e transformá-lo em longa?
Às vezes me estimulam nesse sentido e eu não sei como reagir... Sempre fiquei com medo de estar me repetindo. De uns tempos pra cá, pensei que no caso do Haruo Ohara (1909-1999) [fotógrafo e agricultor japonês radicado no Brasil tema de seu curta homônimo de 2010] poderia haver muito a ser criado, imaginado, pois a trajetória dele é riquíssima: há a infância no Japão, a chegada ao Brasil, a descoberta da fotografia. São momentos preciosos que não tivemos tempo narrativo hábil no caso do curta. Então, de certa forma, comecei a esboçar um projeto que por enquanto se chama Pausa para a Neblina, e que deve ser esse mergulho mais extenso sobre o Haruo.















Alysson Oliveira

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