Entrevistas

Paulo Sacramento e os desafios de filmar em tempos e espaços perigosos

Por Alysson Oliveira

Publicado em 26/06/19 às 15h03

Rodrigo Lombardi, Esther Góes e o diretor Paulo Sacramento no set de "O olho e a faca" (Crédito: Victor Alexis/Divulgação)

 
Em seu segundo longa de ficção, O olho e a faca, o premiado documentarista e montador Paulo Sacramento (O prisioneiro da grade de ferro, Riocorrente) escolheu um grande desafio: um filme que se passa em boa parte numa plataforma de petróleo. “É um ambiente incrível e misterioso. Sabemos muito pouco da vida das pessoas lá, e fiquei fascinado com a ideia de ambientar um longa-metragem de ficção em um espaço tão rico visualmente e também simbolicamente”, disse em entrevista ao Cineweb. Para conseguir entrar numa delas, o diretor e Eduardo Benaim, com quem escreveu o longa, precisaram “de dois anos de tratativas, e um esboço do roteiro já escrito.”
 
Rodar O olho e a faca nesse ambiente não foi apenas um desafio, mas também um risco de vida. “Filmamos numa plataforma localizada na Bacia de Campos que estava em pleno funcionamento. Havia muitas regras rígidas de segurança. Por exemplo, havia sempre um técnico nos acompanhando com um aparelho medidor de gases, pois dependendo da sua concentração eventuais faíscas de nosso equipamento poderiam causar uma explosão. Estávamos sempre vestidos (elenco e equipe técnica) com os macacões laranjas de petroleiro, que são roupas à prova de fogo. Todos os atores e membros da equipe tiveram que fazer um curso de uma semana sobre segurança em plataforma, curso que incluiu até exercícios de fuga de incêndio ou como sair de um helicóptero que tenha caído no mar.”
 
Mas, para ele e sua equipe, o esforço foi recompensante. “Tem uma aproximação com a realidade que gosto, filmar em locações reais, incluir trabalhadores de verdade como figurantes por exemplo. Mas é um filme de ficção, a plataforma e o ambiente petrolífero são um pano de fundo para uma história que inclusive poderia se passar em outros lugares.”
 
O olho e a faca é protagonizado por Rodrigo Lombardi, que vive um petroleiro em crise – tanto profissional quanto pessoal. Roteirizado pelo diretor, o filme acompanha esse protagonista o tempo todo, seja na plataforma ou em terra firme, onde o casamento com a mulher (Maria Luisa Mendonça) começa a ruir, seu pai, com quem não fala há anos está com a saúde debilitada, e seu caso com a amante (Débora Nascimento) também não vai tão bem como parecia.
 
As personagens femininas não são muitas, mas importantes, e foi um desafio concebê-las. “Elas efetivamente ocupam pouco espaço na vida do protagonista, elas se definem pela ausência em sua vida. Por isso, quis atrizes fortes para interpretá-las, para que essa ausência ficasse ainda mais sentida: Maria Luisa Mendonça, Esther Góes [como a mãe] e Debora Nascimento. Elas foram extremamente generosas, contribuindo com papéis relativamente pequenos, mas que causam no espectador a angústia de sua ausência. O personagem relaciona-se com elas de modo bastante superficial, e isso o define de certa forma. Sentimos que algo falta em sua vida, que algo está fora de lugar.”
 
Sacramento define Lombardi como um ator extremamente dedicado, vivendo seu primeiro protagonista no cinema. “Era muito importante que ele tivesse uma imersão no personagem e também tempo para se dedicar a uma outra linguagem, que não a televisiva. A coesão entre o grupo de petroleiros era muito importante. Fizemos um trabalho com a Fátima Toledo em cima disso, foi muito enriquecedor para todos.”
 
Quanto aos novos projetos como diretor, Sacramento afirma que tem várias ideias, “mas não acho que seja o momento de iniciar nada, preciso entender melhor ainda esse mercado em transformação e mesmo entender melhor em que nos transformamos. Assim como repensar o sentido mesmo de nossa atividade. O cinema brasileiro está passando por uma fase muito difícil, convulsionada, assim como o país inteiro. Acho que é hora de muita reflexão. Fazer um filme leva anos, e precisamos estar muito convictos dele.”















Alysson Oliveira

Outras notícias