Entrevistas

“Deslembro” e a memória como resistência ao apagamento da história

Por Alysson Oliveira

Publicado em 19/06/19 às 15h04

Sara Antunes e Jeanne Boudier, como mãe e filha, em cena de Deslembro  

Em seu premiado documentário Diário de uma busca, a diretora e roteirista Flávia Castro (foto abaixo) reconstruiu a trajetória de seu pai, o ex-jornalista e militante político Celso Gay de Castro, a partir da morte misteriosa dele. É um filme de teor extremamente político, revisitando o passado do país e momentos da vida da cineasta. Em seu novo longa, Deslembro, novamente, ela se volta ao seu passado e ao do Brasil, agora pelas lentes da ficção. “O filme nasceu na época da montagem do Diário... Percebi que queria ir mais longe, particularmente na questão da memória”, diz em entrevista ao Cineweb.
 
A cineasta conta que, no começo, sentiu um pouco de pânico por trabalhar com uma ficção longa pela primeira vez. “A gente olha aquele set enorme, tão diferente do documentário, no qual eu trabalhava com uma equipe de umas três pessoas, e tudo era muito livre. Aqui, é preciso mais planejamento, mais organização. Não dá para chegar num dia de filmagem e ‘ver o que acontece’, como no documental. Depois que o susto passou, tudo foi mais prazeroso, especialmente a troca com a equipe, formada, majoritariamente, por mulheres.”
 
Premiado no Festival do Rio e Biarritz, Deslembro é um longa no qual a cineasta não traz exatamente sua biografia, mas “sensações bem próximas de suas experiências quando era adolescente morando na França”. No filme, Joana (a estreante Jeanne Boudier) viveu a maior parte de sua vida em Paris, com sua mãe (Sara Antunes), o padrasto chileno (Julián Marras) e os irmãos pequenos (Hugo Abranches e Arthur Raynaud), num ambiente trilíngue, em que falavam português, francês e espanhol. No começo da década de 1980, a família, que vivia no exílio, resolve voltar ao Brasil, e a protagonista precisará encarar de frente alguns fantasmas de seu jovem passado – como o desaparecimento do pai, um guerrilheiro (Jesuíta Barbosa).
 
 
Encontrar a atriz principal foi um desafio para a diretora, que precisava de uma adolescente que falasse bem português e francês. “Começamos procurando nas escolas bilíngues e acabamos encontrando-a muito rapidamente.” Depois de escolhido o elenco principal, a diretora colocou todos juntos para passar um fim de semana num apartamento no Flamengo. “Foi como construir mesmo uma família, fomos criando laços nesse momento”, relembra Jeanne.
 
Um dos elementos mais importantes em Deslembro são as línguas que as personagens se comunicam. Numa das cenas com alta voltagem emocional do filme, logo depois que Joana rasga seu passaporte porque não quer voltar para o Brasil, a mãe e filha brigam, a primeira fala em português e a outra responde em francês. “Cada uma das duas personagens está falando na língua na qual se sente mais confortável. Eu tinha escrito todo o bate-boca em português, mas a Jeanne me alertou: a Joana não ia brigar em português, não é a língua que ela domina. E isso faz todo sentido.” Evitar o português é também uma forma de resistência e rebeldia da adolescente, que não quer voltar ao país onde nasceu.
 
Jeanne conta que a diretora pediu para que não fizessem muita pesquisa sobre a época, para que a situação do Brasil fosse uma espécie de descoberta tanto para ela quanto para Joana. “Eu tinha 15 anos quando filmamos, e meus pais são franceses. Eu sabia pouco sobre como as coisas estavam por aqui no começo dos anos de 1980.” Já Sara tem experiências mais pessoais com esse período da história, seus pais foram guerrilheiros antes do nascimento dela. “Meu pai ficou exilado durante 9 anos na França.”
 
Sara aponta que, para ela, o filme também contribui na criação de um novo imaginário sobre a resistência contra a ditadura militar. “A ideia que a gente tem é de pessoas fora do comum. Mas minha mãe foi guerrilheira e ela também era mãe, cuidava dos filhos, da casa. Para mim, o filme também tenta mostrar isso: são pessoas que têm uma vida também.”
 
No que as duas atrizes e a diretora também concordam é sobre a importância de Deslembro num momento histórico como este atual, em que há uma tentativa de apagamento da memória histórica do país. “Quando comecei a pensar no filme, em 2009, nunca imaginei que esse tipo de coisa ia acontecer, que a ditadura militar passasse por uma espécie de revisionismo histórico. Por isso, acho muito importante que o filme seja descoberto pelo público, especialmente jovem, que não viveu aquela época.”
 
Fotos: Divulgação 















Alysson Oliveira

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