Entrevistas

“Inferninho” e o refúgio para os excluídos

Por Alysson Oliveira

Publicado em 22/05/19 às 16h55

Demick Lopes e Yuri Yamamoto, em cena de "Inferninho" (Divulgação)
 
Pedro Diógenes, um dos diretores de Inferninho, define o longa com “o encontro que tenta potencializar o teatro e o cinema, sem que um sufocasse o outro.” É isso que se vê na tela, um constante diálogo entre o cinema e o teatro, explorando as peculiaridades de cada um, seja no campo narrativo ou na estética. O projeto começou em 2013, quando a produtora de cinema Alumbramento uniu-se ao Grupo de Teatro Bagaceira – ambos de Fortaleza. “Era uma paquera longa, a gente queria fazer algo juntos, mas nunca tinha acontecido”.
 
Um laboratório foi o pontapé inicial da parceria, em que o grupo de teatro desenvolveu um projeto de peça que nunca chegou a ser montada, apresentando ideias de personagens e ambiente, e o pessoal do cinema começou a trabalhar nessa base. Foi um processo longo, e só em 2016, durante 12 dias, os dois grupos se isolaram numa fazenda no interior do Ceará e filmaram num galpão, o único cenário de Inferninho. O longa, protagonizado por Yuri Yamamoto, passa-se quase inteiramente no bar que dá nome ao filme. “Tínhamos ganhado um edital estadual, mas a verba era para um curta. Tivemos de pensar o orçamento nesse molde. Ajudou o fato de ter apenas um cenário, ser uma equipe reduzida.”
 
O baixo orçamento, no entanto, não foi nenhum empecilho para a turma da Alumbramento e do Grupo Bagaceira. “A ideia foi transformar a precariedade em potência. Usar algo tão simples como chroma key para representar uma viagem, usando imagens do Youtube. Dentro da estética do filme, a gente apostava que não precisava ser algo perfeito, queríamos trabalhar com os 'defeitos', o malfeito da coisa, com a estética que estava sendo desenvolvida pelo filme.”
 
Guto Parente e Pedro Diógenes, no Festival de Roterdã/2018 (Divulgação)
 
Yamamoto interpreta Deusimar, dona do local, uma mulher solitária que nunca saiu dali, mas sua vida se transforma com a chegada de um marinheiro (Demick Lopes). É uma referência clara a Querelle, do alemão Rainer Werner Fassbinder, que Diógenes (que dirigiu o filme com Guto Parente) não nega, acrescentando que foi mesmo uma inspiração, mas ele vai além. “O filme flerta com melodrama, com Douglas Sirk, com Pedro Almodóvar. Falar de amor através do melodrama não é algo muito explorado no cinema brasileiro, talvez porque seja mais ligado às telenovelas e de certa forma meio caricato”.
 
O longa, que estreou no Festival de Roterdã, em janeiro do ano passado, já viajou por diversos países, como Inglaterra, Uruguai, Argentina, Espanha, Portugal e Grécia, e, conforme conta Diógenes, é sempre muito bem recebido. “Acho que por falar de amor, vida, sentimentos universais, consegue ultrapassar barreiras, fronteiras, e consegue se comunicar com qualquer espectador.”
 
Talvez o segredo de Inferninho esteja exatamente aí, na sua sinceridade ao falar de sentimentos e personagens que desconhecem fronteiras. Diógenes, autor do roteiro com Parente e Rafael Martins (que interpreta um garçom que fica o tempo todo vestido de coelho), explica que a ideia é “fazer um refúgio para esses personagens mais marginais que o mundo exterior não aceita direito. O inferninho [o bar] é um refúgio para viver as fantasias, desejo, delírios, amores. É um universo bem particular, esses personagens só podem viver ali dentro. Fora dali, são outras pessoas, outros personagens.” Mas esta também é uma definição que pode muito bem se aplicar ao filme – seu olhar sobre essas pessoas e suas vidas é bastante generoso e raro. 















Alysson Oliveira

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