Entrevistas

A transformação do Rio de Janeiro e dos corpos em “Mormaço”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 13/05/19 às 16h42

A cineasta e roteirista Marina Meliande não imaginava que, no segundo dia de filmagens na Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, em março de 2016, a casa de uma das moradoras seria posta abaixo pela prefeitura diante da câmera. No entanto, apesar de impressionante, não foi uma surpresa, até por ser um dos temas do longa que estava filmando, Mormaço, que retrata as transformações da cidade para as Olimpíadas. “Filmamos tudo, e a cena acabou entrando no filme. É a parte documental”, conta em entrevista ao Cineweb.
 
Alguns anos atrás, quando o Rio de Janeiro era uma das cidades que disputavam ser a sede dos Jogos de 2016, a diretora percebeu que tudo ali estava se transformando – e não era para melhor. “Era algo radical e repentino. Eu comecei a me sentir pouco à vontade ali. Mesmo os outros cariocas com quem eu conversava, todo mundo tinha essa sensação de estar sendo expulso”. Esse foi o ponto de partida para o longa, que traz como protagonista uma defensora pública, interpretada por Marina Provenzzano, que defende os moradores e moradoras da Vila Autódromo, uma comunidade no bairro de Jacarepaguá.
 
A protagonista encorpara esse mal-estar de uma maneira que toma rumos de fantasia. Ela desenvolve uma doença misteriosa na pele. Começa com uma pequena coceira, que aos poucos toma conta de seu corpo, durante o verão (fictício) mais quente da história. “A ideia da doença é uma forma de mostrar o acúmulo da tensão, o sufocamento e o processo da transformação da cidade. É uma maneira de mostrar como os corpos eram tocados social e fisicamente”.
 
Da esquerda para direita, Sandra Souza, Marina Meliande e Marina Provenzzano, no set de Mormaço, na Vila Autódromo

Marina Provenzzano conta que passava por longas sessões de maquiagem – que é impressionante, assinada por Mari Figueiredo – e isso tudo ajudou muito na composição da personagem. “O desconforto dela é físico, e era algo concreto para mim. Eu via meu corpo sendo coberto por aquilo e trazia para a cena depois”. A atriz também estava presente no dia em que a casa de uma das moradoras da Vila Autódromo foi desocupada, e conta que a equipe toda ficou muito tocada com aquilo. “Acho que naquele momento nós vimos como Mormaço é um filme importante. Ver de perto o horror da desocupação ajudou a unir a equipe. Virou uma espécie de cinema de guerrilha.”
 
Outra pessoa presente naquele momento era Sandra Souza, moradora da Vila Autódromo, que Meliande descobriu ser ex-atriz, colocando-a em seu filme. Ela interpreta Domingas, moradora local que se nega a deixar sua casa e se torna líder de um movimento de resistência. “O filme registra esse momento e vai ficar para a história. Nós tentávamos proteger o espaço e as pessoas. Se a remoção era inevitável, precisava ser tão violenta e desrespeitosa?”.
 
Ela explica também que a presença de uma equipe de filmagem lhes deu uma certa segurança. “Como tudo estava sendo registrado, a prefeitura era mais cautelosa no trato com as pessoas”, relembra. Ela conta que tudo foi destruído em 2 anos, e, em suas palavras, “o poder público usava uma tática de tortura deixando casas em pé ao redor de escombros para pressionar aqueles que se recusavam a deixar suas propriedades”.
 
Isso tudo fica bem claro em Mormaço, que foi filmado até bem próximo do início das Olimpíadas. “Todos tinham direito de estar ali. “Todos tinham título de concessão de uso da terra”, sustenta a diretora. O longa se torna, então, uma espécie de crônica da destruição de uma comunidade pelo poder público. “Minha ideia ao escrever o filme era dar conta dessa modificação da cidade, dessa transformação que atingiu tanta gente.”















Alysson Oliveira

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