Entrevistas

Gabriela Amaral Almeida e o cinema como método de elaborar as sombras

Por Alysson Oliveira

Publicado em 01/05/19 às 15h29

 
Nem de longe o jeito alegre e jovial da roteirista e cineasta Gabriela Amaral Almeida entrega que sua cabeça imagina histórias tão sombrias como se vê em seus filmes, seu primeiro longa, Animal cordial, e no novo trabalho, A sombra do pai.  Para ela, realismo e fantasia são um único universo. “Nos filmes, está a maneira como enxergo as coisas. É como renarrar o que vejo”, contou em entrevista ao Cineweb.
 
A sombra do pai não começou muito diferente de seus outros trabalhos, embora ela tenha ficado quase uma década (“entre idas e vindas”) trabalhando no roteiro, que foi selecionado para o laboratório de Sundance e teve até consultoria de Quentin Tarantino. “É uma oportunidade única de trabalhar mais o filme, de lapidar o roteiro, fazer testes com o material, filmar algumas cenas. Não teria chegado ao longa como está, se não fossem essas oficinas.” Gabriela conta que seu processo criativo geralmente começa a partir de coisas que ela viu, imagens e sensações fortes. “Quando estou chateada, pensar numa história é minha maneira de elaborar minhas sombras.”
 
O novo filme, como o anterior, começa num registro bastante realista, acompanhando o cotidiano difícil de um jovem pai viúvo (Júlio Machado), na periferia de São Paulo, tentando cuidar de sua filha pequena (Nina Medeiros) com a ajuda da irmã solteira dele (Luciana Paes). É um arranjo que funciona na família, até que a irmã consegue se casar e as coisas se transformam. Nesse momento, a fantasia que estava à espreita começa a tomar conta do longa, que fez sua estreia no Festival de Brasília do ano passado. “Eu nunca penso meus filmes na chave de gênero cinematográfico. São narrativas que mudam de tom, se transformam.”
 
 
Para construir essas narrativas, em especial esta de A sombra do pai, a cineasta explica que a sintonia com o elenco e a equipe técnica é primordial – como a fotografia da uruguaia Bárbara Álvarez (Que horas ela volta?, Whisky), e a direção de arte de Valdy Lopes Jr., que, nas palavras da diretora, “consistia em subtrair objetos”. “Tudo isso é trabalhado na construção do estranhamento que eu busco com o filme. É a criação da atmosfera de que algo vai dar errado ali, mas aos poucos”.
 
Se os elementos técnicos do filme servem na construção do estranhamento, talvez esteja nas personagens e elenco a identificação do público com o filme que, embora, caminhe para a fantasia, até o fantasmagórico, o que se vê na tela são pessoas com uma alta carga de humanidade. Muito se dá graças ao trabalho da diretora com seus atores e atrizes. “Se você não começa pelo elenco, você não tem um filme. Se você não constrói as motivações para que fique de pé, é como construir uma casa sem fundação.”
 
E uma dessas fundações mais fortes de A sombra do pai está em Nina Medeiros, que interpreta a garota Dalva, num processo de luto pela perda da mãe, cuidada pela tia e recebendo pouca atenção do pai, que tem dificuldade para lidar com seus próprios sentimentos. “Testamos 300 crianças para selecionar duas que interpretariam essa personagem e a melhor amiguinha dela. O que me chamou a atenção na Nina foi sua resistência. Fazíamos dinâmicas, exercícios, e ela sempre estava atenta e propositiva. É uma personagem complexa a dela”. É da garota que vem o elemento de fantasia – para alguns, terror – do longa.
 
A sombra do pai teve sua primeira sessão internacional no Festival de Tóquio de 2018. “Foi surpreendente, porque na cultura japonesa, a relação com a morte, com os mortos é muito diferente daquela que nós temos. Está muito mais ligada à memória, e, para eles, esse filme é muito mais um drama espiritual do que de terror ou fantasia.”















Alysson Oliveira

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