Entrevistas

Jorge Furtado e a “comédia triste” de “Rasga Coração”

Publicado em 05/12/18 às 13h01

Chay Suede e Marco Ricca, em cena de Rasga Coração - Foto: Fábio Rabelo/Divulgação
 
Por Alysson Oliveira
 
Dez anos atrás, o roteirista e cineasta gaúcho Jorge Furtado pensou em adaptar a peça Rasga Coração, escrita por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, e montada pela primeira vez em 1974. “Eu fui reler a peça e não fazia sentido adaptar naquele momento. Vivíamos um governo de esquerda, tudo estava dando certo no país”, disse durante o lançamento da adaptação cinematográfica homônima em São Paulo. Mas, conforme ele próprio explica: “O ano de 2013 mudou tudo e o texto voltou a ficar atualíssimo.” Furtado define seu filme como “uma comédia triste”: “E essa é a melhor representação da vida para mim. Nem tudo é só risos, ou só tragédia.”
 
 
O roteiro, adaptado por Furtado, Ana Luiza Azevedo e Vicente Moreno, praticamente fez apenas uma atualização histórica - os personagens, seus ideias e conflitos estão na tela intactos. “O filme tem 122 cenas, inventamos apenas uma, que nem tem diálogo”. Rasga coração tem como protagonista Manguari Pistolão (Marco Ricca), que nos anos 70 lutou contra a ditadura e agora é um funcionário público engajado em questões sociais. O outro fio do longa se passa em 2013, quando vive uma relação um tanto tensa com seu filho, Luca (Chay Suede), que sofreu uma suspensão na escola por usar saia.
 
“A peça se passava em meados dos anos de 1970 e os conflitos eram pertinentes à época. Fizemos uma atualização das questões em pauta. Aqui, por exemplo, a discussão é sobre gênero sexual. Luca usa saia, sua namorada [Luiza Arraes], roupa de menino.” Outro tema premente que o trio de roteiristas colocou em cena, e estava ausente no original, é o racismo. “Para mim, essa é a questão mais urgente no país. O Brasil nunca irá para a frente enquanto não encarar o racismo e resolver essa herança colonial”.
 

Um dos amigos de Manguari na juventude, Camargo Velho, é interpretado por Anderson Vieira, um ator negro, e é esse personagem que sofre as maiores consequências quando o protagonista e seus amigos são presos. No presente, uma sobrinha dele (Cinândrea Guterres) entra em cena, é amiga de Luca e participa da ocupação da escola. “Eu fiz 12 trabalhos com protagonistas negros, muitos deles empoderados, felizes e bem de vida. Acho importante criarmos um imaginário para a criança negra se espelhar.” Ele cita como exemplo a série Mister Brau, que escreveu com Adriana Falcão, e traz Lázaro Ramos e Taís Araújo como protagonistas.

 

A juventude de hoje
 
Furtado é categórico ao afirmar que Manguari Pistolão é um dos maiores personagens da dramaturgia nacional, indo para o cinema sem muitas modificações. Porém, sua mulher Nena – interpretada por Drica Moraes – ganhou um perfil mais forte. “As personagens femininas precisavam de mais vida. Elas eram um tanto alienadas, demos a elas mais consciência política. A Nena, por exemplo, era meio mórbida no original, tinha uma fascinação pela morte.” A atriz a construiu, em suas palavras, como “uma mulher que envelheceu mal”. “Ela foi se perdendo, enredada na vida de dona-de-casa, da criação do filho”, conta.

Manguari, por sua vez, não sofreu muitas alterações. “Ele joga no filho a projeção de suas frustrações”, conta Ricca. “O pano de fundo é político, mas vejo o filme como uma história de amor. É sobre a reconstrução dos sonhos com um tijolinho depois do outro.” Suede, que interpreta o filho, acredita que a adaptação trouxe um olhar um pouco mais politizado ao personagem, por se tratar de um jovem da atualidade. “Na peça, ele era mais hippie, menos envolvido com política. A juventude de hoje tem um estilo de vida diferente. Foi preciso repensar o Luca, pois ele tem demandas e conflitos diferentes dos anos de 1970.”
 
Uma dessas questões pós-2013 que chamou a atenção de Furtado, e acabou entrando no filme, foi a ocupação das escolas por estudantes. “Visitamos diversas escolas e percebemos como as mulheres tinham força e mandavam ali. Daí também veio a necessidade de fortalecer as personagens femininas da peça. E, mais, acredito que a resistência e o novo, se pudermos avançar, virão pelas mãos das mulheres negras.”
 
Na foto acima: Jorge Furtado com os atores Luisa Arraes, Marco Ricca, Chay Suede, Drica Moraes e Cinândrea Guterres. Crédito Fabio Rebelo/ Divulgação


Outras notícias