Entrevistas

Lucrecia Martel e sua investigação do passado para transformar o presente

Publicado em 28/03/18 às 17h41

 

Por Alysson Oliveira

 

A cineasta argentina Lucrecia Martel tem uma visão peculiar e questionadora do mundo. Mais do que seus óculos estilosos, talvez, a infância na província de Salta, longe dos grandes centros, que lhe permite enxergar de uma maneira mais lúcida. No fundo, talvez isso não importe muito, a questão é que com seus três primeiros longas – O Pântano (2001), A Menina Santa (2004), e A Mulher sem Cabeça (2008, e inédito no circuito brasileiro) – a diretora investiga a burguesia de seu país e, por extensão, da América Latina. “Existe uma experiência em comum entre os países que foram colônias por aqui, e, de certa forma, mesmo depois da independência nunca deixaram de estar sob o domínio de outra nação”, explica em entrevista em São Paulo, onde divulga seu mais recente trabalho, o drama de época Zama.
 
Esse longa marca diversas viradas na carreira da diretora – embora, em sua essência, todo seu cinema esteja ali também. Primeiramente, não é um roteiro original dela, mas a adaptação do romance homônimo de Antonio Di Benedetto, publicado em 1956, que Martel foi só foi ler em 2010. “Eu vejo o ato de ler como algo muito próximo de assistir a um filme. O que me interessa são as reações que tive quando li Zama e é o que quero imprimir no longa. E não foi fácil adaptar uma obra-prima como essa”. Ela trabalhou no roteiro entre 2011 e 2015.
 
O filme é uma coprodução entre Argentina, Brasil (na figura da produtora Vânia Catani), Espanha (os irmãos Agustín e Pedro Almodóvar), México (Gael García Bernal e Diego Luna), e outros sete países. “Quando se vê tantas nações se unindo para fazer um filme é sinal de que faltava dinheiro, por isso foi preciso agregar mais gente. Por um lado é algo bom, porque Zama tem lançamento garantido em todos esses países. Por outro, é triste pensar que foi preciso tanto esforço, tanta busca de dinheiro para realizar um filme”.
 
A parceria com Catani – que tem no currículo produções como O Palhaço, Deserto e A Festa da Menina morta – começou com uma tentativa frustrada de adaptar uma obra de Clarice Lispector. “A Vânia me convidou para fazer esse trabalho, mas o filme acabou não acontecendo. Ficou a vontade de trabalhar com ela. Quando eu buscava dinheiro para fazer Zama, falei com ela, que topou desde o princípio.” Além da produtora, o longa conta com brasileiros na frente e atrás das câmeras, como o ator Matheus Nachtergaele (na imagem abaixo, ao lado do protagonista), a diretora de arte Renata Pinheiro e a montadora Karen Harley.
 
O que chamou a atenção da cineasta, em especial, no romance, protagonizado por um oficial da coroa espanhola estacionado na América Latina no século XVIII, são as permanências – estruturas daquela época que resistem até hoje, afetando os países do continente, todos ex-colônias. Os governos, diz ela, deixando claro que se refere especialmente à Argentina e ao Brasil, que“não governam para a população, mas para outros interesses, para os negócios”. Martel enxerga nisso uma perpetuação de um discurso histórico explicitado em Zama, quando o personagem-título (interpretado pelo espanhol Daniel Giménez Cacho) governa para agradar à coroa espanhola, na esperança de receber uma promoção, e não à população que o cerca.
 
“Meu interesse, enquanto cineasta, é o da construção de realidades históricas, tanto do presente quanto do passado. Em Zama, eu quero questionar o discurso do heroísmo do passado. Neste sentido, acho muito importante termos em mente que o passado que nos contam é muito falso. O cinema pode ser uma das ferramentas para abrir os olhos das pessoas e levar-nos a perceber que podemos mudar nosso presente e futuro”.
 
A construção de uma realidade, tanto do passado quanto do presente, é um tema recorrente nas falas de Martel. Seus questionamentos investigam não apenas as permanências – “a mesma elite burguesa branca no poder há séculos” – quanto o conformismo. “Por que temos de trabalhar de 10 a 12 horas por dia? Por que sempre nos disseram que tem de ser assim? Mas não tem. Devemos mudar isso, devemos questionar conceitos que nos são empurrados desde sempre. Por que devemos passar mais tempo trabalhando do que de maneira livre?”
 
Dessa forma, confessa, interessam mais a ela os gêneros cinematográficos que não compram um discurso pronto de realidade – como a ficção científica e o terror. Não por acaso, seus longas beiram a fantasia, com um estranhamento prestes a romper com o mundo e estraçalhar o caos velado da vida burguesa. “Atualmente existe um conflito para discernir a realidade. As narrativas estão em disputa. Para se ter uma ideia, na Argentina, para tentar entender o que está acontecendo, é preciso ler uns quatro jornais e filtrar tudo, porque ainda assim você tem uma visão distorcida dos fatos”.
 
Pensando em Zama, Martel encontra algumas permanências na América Latina. A principal delas é a corrupção. “Parece algo endêmico do continente. A troca de favores é o que fazia e faz as coisas se moverem. A política parece não existir sem a corrupção”. Outro elemento que ela aponta é uma ideia cristã de recompensa que moldou toda a civilização ocidental. “Com isso, devemos nos curvar às adversidades do presente, sofrer os abusos porque num outro mundo, num futuro distante, seremos recompensados.”
 
Ela vê isso, inclusive, na forma de como o cinema americano constrói suas narrativas. “Todos filmes mainstream de Hollywood precisam acabar bem. É preciso ter tanto sentido, dando punição ou recompensa a quem merece. Com isso, na cultura judaico-cristã, o corpo não vale muito, esta vida não vale muito, o que vale é o final”. No entanto, ela mesma observa que o cinema independente norte-americano consegue se safar dessa lógica.
 
Martel, como se vê em sua obra, vai completamente contra essa corrente. “Nos meus filmes, quero ter a oportunidade de retratar que a realidade é construída por nós mesmos e pode ser mudada”. Dessa maneira, a diretora vê nas minorias os principais agentes de transformação atualmente. “As mulheres, os negros, os gays e lésbicas e tantos outros estão cansados da opressão de séculos, do poder nas mesmas mãos, fazendo a mesma coisa. Por isso as atitudes radicais, as contestações. Elas e eles não querem falar do futuro, querem falar do agora. Precisamos parar de jogar os problemas para a frente, é hora de encarar o agora”.

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