Entrevistas

“Pela Janela” e o cinema que se aproxima do real

Publicado em 17/01/18 às 17h23

Magali Biff e Cacá Amaral em cena de Pela Janela
 
Por Alysson Oliveira
 
Tudo começou com uma viagem de ônibus para a Argentina depois de terminar a faculdade, conta a cineasta Caroline Leone (na foto abaixo), diretora e roteirista de Pela Janela. “São três dias confinados dentro do mesmo ambiente, as pessoas acabam criando vínculos, contando histórias”, disse em entrevista ao Cineweb. E foi numa dessas conversas que conheceu uma mulher que havia ido ao país e agora voltava para o Brasil, de carro com o marido, que iria entregar o veículo para a filha de seus patrões.
 
Caroline guardou essa história e, a partir dessa semente, construiu o roteiro de seu primeiro longa. “Fiz algumas mudanças. A personagem não vai com o marido, mas com o irmão e, para ela, a viagem representa a possibilidade de se reencontrar, pois, aos 65 anos, acaba ser mandada embora do emprego”.
 
No filme, Magali Biff interpreta a protagonista, Rosália, que passou boa parte de sua vida trabalhando numa pequena fábrica de reatores, até ser demitida. “Eu queria falar de assuntos sociais também, da questão da mulher no mercado de trabalho, especialmente uma mulher mais velha.”
 
Para construir a viagem de seus personagens, Caroline viajou por cinco anos de carro de São Paulo para Buenos Aires,
fazendo o trajeto do filme. “Eu queria fazer um filme que se aproximasse do mundo real, que estivesse ligado com aquilo que vivemos. Realizar a viagem várias vezes me permitiu descobrir coisas desse mundo”.
 
Ao todo, foram sete anos de captação da verba para conseguir rodar o primeiro longa da diretora, que viu na sua transição de curta (no currículo ela tem os filmes Dalva e Joyce) o aumento da pressão. “Tudo recai sobre o diretor, todas as decisões acabam sendo sua responsabilidade”.
Para chegar aos atores que interpretam os personagens centrais, a diretora realizou primeiro diversos testes, até encontrar Magali e Cacá Amaral, que faz o papel do irmão, José. Depois da escolha do elenco, a dupla fez uma preparação profunda com a diretora e o preparador René Guerra. “Começamos a descobrir quem são Rosália e José, pensamos desde a sua infância até o presente”, conta a diretora.
 
Para Magali – premiada no Festival de Aruanda e no Festival Femina, ambos no final do ano passado, por esse trabalho –, essa fase foi fundamental para a construção de Rosália. “Eu fiz muito teatro na minha carreira, e fui descobrindo aqui como o cinema é diferente. O cinema se impõe”, afirma. A atriz tem na sua filmografia os longas Deserto, de Guilherme Weber, e Açúcar, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, este ainda inédito em circuito.
 
“Na preparação, construímos a vida toda de Rosália, imaginamos sua infância, sua descoberta. Depois disso, também passei um mês trabalhando na fábrica de reatores onde o filme foi rodado”, explica. Para a atriz, essa experiência trouxe uma nova camada à sua interpretação: “Fui me mimetizando com os trabalhadores, fui entrando no cotidiano deles, na maneira como trabalham. Eu mesma realizava o trabalho como eles”.
 
As filmagens aconteceram na ordem cronológica da história, o que a ajudou a construir a transformação de sua personagem ao longo da viagem. “Isso deu a sensação de estar participando de um documentário. A viagem foi exaustiva, você está na estrada, longe de sua casa, longe de conforto, mas isso ajuda a trazer toda a verdade à sua interpretação”.
 
Cacá Amaral também encontrou na preparação e na viagem as diretrizes para a construção do seu personagem. “Os atores de teatro, como a Magali e eu, estão acostumados a compor. Criar uma biografia retrospectiva dos dois nos ajudou a compor o presente de Rosália e José”.
 
O ator tem em seu currículo mais de 40 espetáculos de teatro, filmes como Vidas Partidas e Olho de Boi, além de trabalhos na televisão como a recente novela Pega Pega, Flor do Caribe e a série O Brado Retumbante. Ele conta que Pela Janela foi um tanto diferente em sua carreira. “Fazer a viagem de carro não foi fácil, demandou bastante, porque encontrávamos cidades pequenas pelo caminho e nem sempre com estrutura para receber uma equipe, mesmo esta não sendo muito grande. Mas quando a gente vê o filme pronto, percebe que tudo valeu a pena.”

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