Entrevistas

Thierry Frémaux a e reinvenção de Lumière

Publicado em 09/12/17 às 14h13

 
Por Neusa Barbosa
Texto e foto de Thierry Frémaux 
 
Diretor artístico do Festival de Cannes, Thierry Frémaux divide essa função com a direção do Instituto Lumière, em Lyon – o lugar onde nasceu o cinema, terra natal dos famosos inventores do cinematógrafo, os irmãos Louis e Auguste Lumière.
 
Frémaux esteve no Brasil no final de novembro para divulgar seu primeiro documentário, Lumière! – A Aventura Começa, com lançamento em salas brasileiras previsto para 14 de dezembro. Na obra, que Frémaux diz não ser “dele” e sim “composta e comentada” por ele, são reunidos 108 curtas de Louis Lumière - o cineasta dos irmãos -, selecionados entre os estimados 1422 que ele teria realizado entre 1895, data oficial do nascimento do cinema, e 1905. E, a partir da análise destes filmes, começam a desmontar-se uma série de mitos em torno do famoso pioneiro da sétima arte.
 
É Frémaux quem explica, numa coletiva de imprensa em São Paulo: “Há muita incompreensão e confusão em torno de Louis Lumière. Como de que ele fosse inventor, mas não totalmente. Ou que fosse cineasta, mas não totalmente. Para mim, ele é totalmente os dois”.
 
Ele observa que, como inventor, Lumière não esteve só – houve Thomas Edison e vários outros que o precederam, cada um com alguma contribuição ao longo da História. O cinema, ele diz, “foi uma invenção coletiva”. Foi o pai dos Lumière, o industrial Antoine, na verdade, quem descobriu a existência do kinetoscópio (de Edison), em Paris. Mas tratava-se de uma máquina para consumo individual de imagens. Para vê-las, tinha-se que pagar. “Filosofia americana”, ironiza Frémaux.
 
Antoine, então, imagina que é possível tirar essas imagens da caixa e vê-las fora dela. Volta para Lyon, portanto, com essa missão para os filhos, no verão de 1894. Eles se lançam à tarefa e produzem o primeiro filme, em 18 de março de 1895 – a famosa saída da fábrica Lumière, mostrando os operários. No dia 22 de março, acontece a primeira projeção pública do filme, no Boulevard des Capucines, em Paris.
 
Assim, como observa Frémaux, Lumière chega ao processo de invenção do cinema “no fim” – mas, a partir do momento que o faz, é definitivo. “Ele não é o único inventor do cinema, como diziam nos anos 1920. Mas, depois dele, não há mais nenhum”. Com esta afirmação, Frémaux quer não só reafirmar a identidade de Louis Lumière como cineasta como desfazer polêmicas em torno da paternidade do cinema.
 
Tempo e restauração
Para Frémaux, não há qualquer dúvida de que Louis Lumière “fez do cinema uma arte e uma arte específica”. Por isso, quis trazer seu trabalho ao presente, valorizando não só o seu talento, como o de seus operadores (como Gabriel Veyre e Alexander Premo, que filmaram sob sua orientação), de maneira cinéfila.
 
Frémaux observa que “o melhor crítico de cinema é o tempo”. É ele que, na sua opinião, “permite hierarquizar as obras”. Assim, os toques de inocência e pureza encontrados nos filmes de Lumière “permitem ‘lavar’ os olhos, reencontrar o valor de um plano”. Ele esclarece: “É um cinema que nos obriga a olhar. Ver os filmes dele é como reencontrar uma certa paciência do quadro, que nos faz reaprender a olhar, porque nem tudo está previamente dado”.
 
Um fator fundamental para que o próprio documentário pudesse ser realizado foi a sobrevivência dos filmes originais. Dos 1422 filmes feitos por Louis Lumière e seus operadores, nada menos de 1417 foram reencontrados – o que Frémaux considera um “milagre absoluto”, diante da triste constatação de que aproximadamente 80% do cinema mudo simplesmente desapareceu. A boa qualidade deste material, que foi conservado pelo próprio Lumière, contribuiu para a restauração, que foi realizada em 4K. Foram restaurados, a princípio, 150 filmes (que são curtos, de 50 segundos), dos quais 108 foram incluídos no documentário.
 
De todo modo, teve que ser realizada uma escolha, um roteiro. Frémaux conta ter concebido o filme “como uma viagem”. Há momentos em que levou em conta a realização, o apuro ou a criatividade técnica, em outros, o conteúdo, o tema. Há filmes sobre operários, crianças, cenas urbanas em diversos países (Japão, EUA, Itália, Vietnã entre eles), cenas familiares, brincadeiras, animais, bondes, barcos, etc.
 
O sucesso da iniciativa já garantiu uma continuação. Já está previsto um novo filme, que será feito a partir dos 300 curtas que serão restaurados nesta segunda etapa. Além disso, será aberta uma plataforma na internet que colocará à disposição de pesquisadores esse acervo Lumière.
 
Meliès e Lumière
Muitos dos mitos que cercam Louis Lumière têm a ver com um seu contemporâneo, Georges Meliès, o celebrado diretor de Viagem à Lua (1902) e outros. Segundo Frémaux, os dois “se conheciam bem e eram amigos”. Ele observa que, no final da vida de Meliès, nos anos 1930, quando este passava por sérias dificuldades financeiras, Lumière o ajudou muito.
 
De algum modo, porém, os equívocos que os envolveram foram ocasionados por afirmações descuidadas do próprio Lumière – que tinham a ver com o que Frémaux chama de sua “modéstia”. Como quando, numa sessão de gala realizada em homenagem a Meliès, Lumière o saudou como o “inventor do espetáculo cinematográfico”. Um título que Frémaux considera que pertence, na verdade, a Lumière. “Ele inventou o cinema três vezes, a técnica, a arte, o público”, afirma.
 
Frémaux também considera falso quando dizem que Lumière fazia documentários, Meliès, ficções. “A gente assiste L’Arroseur Arrosé (O Regador Regado), o quinto filme de Lumière, e vê que ali ele inventou a ficção. Logo ele entendeu que o cinema devia contar histórias. Mesmo nos documentários, ele se preocupa com a encenação. Ele tinha forte consciência do que fazia. E também é mentira dizer que ele não acreditava na sua invenção”.
 
A diferença entre os dois, para Frémaux, pode ser resumida assim: “ Lumière pega o mundo, o restitui como é e mostra que ali há poesia. Meliès pega o mundo e o reinventa. Lumière é Rossellini, Meliès, Fellini. São dois artistas. Não vamos opô-los, quando sua soma é que faz o que é o cinema”.
 
Futuro do cinema
Falando em cinema, Frémaux é um grande otimista quanto ao seu futuro. Para ele, o próprio triunfo das plataformas de internet e das séries de TV comprovam “que o cinema está aqui, apesar das crises. Isto acontece por causa dos artistas e do público”.
 
Para ele, “o cinema torna o público inteligente” porque, parafraseando o diretor Jean-Luc Godard, “o cinema cria memória”. Por isso também, ele defende a primazia do cinema diante das séries de TV. “O cinema tem assinatura, é um ato poético de um autor. Respeito as séries, mas é um outro conceito”.  A questão, observa, é “onde se verão as imagens, se numa sala ou em outros suportes”.

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