Entrevistas

Laurent Cantet e o cinema de apelo social em “A Trama”

Publicado em 10/11/17 às 20h06

Por Alysson Oliveira
Em 2008, com Entre os muros da escola, o francês fez história no Festival de Cannes, ao conquistar a Palma de Ouro para o seu país, que não ganhava o prêmio desde 1987, com Sob o Sol de Satã, de Maurice Piallat. Com seu novo A Trama, exibido na Mostra e com estreia prevista para o próximo dia 16 de novembro, o cineasta retoma o mesmo terreno social de seu trabalho mais famoso.
 
Um grupo de adolescentes, das mais diversas origens, participa de uma oficina de escrita criativa ministrada por uma escritora famosa, Olivia (Marina Foïs), em La Ciotat, no sul da França. Antes conhecido pelo seu estaleiro, agora o local não traz muitas oportunidades de trabalho para jovens e adultos. O filme, escrito por Cantet e Robin Campillo, porém, toma caminhos inesperados. Ao falar do desemprego e da espiral de sufocamento social atinge temas políticos mais complexos, como a ascensão da extrema direita na França.
 
 “No filme tento observar dois mundos. Aquele refinado da escritora parisiense e o dos jovens sem perspectivas de futuro. Coloco-os frente a frente, e são dois mundos que não conseguem se comunicar. É preciso o enfrentamento. Acredito que a forma eficaz de se conviver atualmente é pela comunicação e o enfrentamento pacífico”, disse em entrevista ao Cineweb, em São Paulo.
 
Cantet, para quem o cinema com tom social não é novidade, acredita que esse seja seu filme mais feliz. “Os personagens tentam se encontrar, compreender seu lugar no mundo, compreender ao próximo. Não é fácil, mas tento trazer uma nota de esperança em meio ao caos do presente”.
 
Para ele, se não houver um trabalho de reflexão, proposto por exemplo pelo cinema, a vida no Ocidente estará fadada ao fracasso. A Trama se une ao time de filmes da Mostra que lidam com temas sociais correntes na Europa, como a questão dos refugiados e a ascensão da extrema direita – como Lutando através da noite e Essa é a nossa terra. “A dificuldade de vivermos juntos é uma questão importante no presente. É preciso aceitar o modo de vida do outro.”
 
Cantet trabalha nesse filme há algumas décadas, mas, apenas três anos atrás, começou a escrever o roteiro. Ele conta que faz um texto com diálogos muito precisos e detalhados, mas durante os ensaios dá oportunidade para que o elenco os transforme. “É preciso que interpretem da maneira deles, que encontrem suas próprias palavras, suas próprias energias, e assim se crie a interação.” No filme, o diretor trabalha com elenco experiente, como Marina Föis, e jovens iniciantes – destacando-se Matthieu Lucci, que interpreta um rapaz especialmente problemático. “No set trato todos da mesma forma, faço as mesmas exigências, até para que haja uma unidade nas interpretações”.
 
A seleção do elenco foi um processo longo e envolveu três cidades diferentes. “Era necessário encontrar jovens não apenas talentosos, mas que também fossem capazes de manter uma interação uns com os outro. Se tivesse algum erro ali, o filme não existiria.” Com eles, foi capaz de ampliar o olhar sobre a juventude contemporânea, quando busca compreender questões como a sedução dos mais jovens pelos extremos e a falta de referência que eles têm para se encontrar no mundo.
 
O filme estreou na França há três semanas, onde recebeu críticas bem positivas e levantou diversos debates. “Fiz questão de participar de várias sessões, e em todas surgiram questões pertinentes sobre o estado do mundo.” 

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