Entrevistas

Martín Hodara cria suspense claustrofóbico em “Neve Negra”

Publicado em 07/06/17 às 12h26

Por Neusa Barbosa
Foto: Pedro Fernandes/Divulgação
 
Diretor de Neve Negra, o argentino Martín Hodara esteve no Brasil para divulgar este suspense, filmado em locações inóspitas e que reúne dois dos maiores atores do cinema atual da Argentina, Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia. Eles interpretam dois irmãos com uma pesada pendência emocional de um passado trágico.
Conhecido como diretor assistente do policial cult Nove Rainhas (2000), Hodara comentou em entrevista coletiva em São Paulo as circunstâncias e detalhes desta produção, seu segundo trabalho como diretor, feito em parceria com a Espanha, como é comum no cinema de seu país – o que explica que haja técnicos espanhóis e também uma atriz espanhola no elenco, Laia Costa.
 
Influências e referências ao filmar num set isolado na neve
Filmar com poucos personagens no meio do nada sempre foi a ideia desde o começo do projeto, que começou a ser delineado há cerca de seis anos. A neve é o elemento que unifica o passado e o presente, o elemento que mixa os dois na mente de Marcos (o protagonista, vivido por Leonardo Sbaraglia). Referências? Posso falar em Sam Raimi (Um Plano Simples, 1998) e nos irmãos Coen (Fargo, 1996).
 
As maiores dificuldades
O mais difícil é conseguir o dinheiro (risos). Esperar a neve é outra dificuldade. Filmamos os exteriores num parque nacional em Andorra. O pior era a mudança constante de tempo: fazia sol, ficava nublado, nevava, fazia sol de novo...Era difícil porque, como vocês devem ter notado, eu gosto de imagens escuras e havia todo aquele branco, como nas salinas. Eu queria uma atmosfera cinza. Os interiores foram filmados em Buenos Aires.
 
Trabalhar com Darín e Sbaraglia
Foi um enorme prazer trabalhar com os dois. Já havia trabalhado com Ricardo antes (em Nove Rainhas, Aura e O Sinal, sua estreia como diretor). Ele foi, aliás, o primeiro a ler o roteiro. Na época, ele filmava com Pablo Trapero (Elefante Branco, 2012) e topou fazer meu filme. Uma semana depois, consegui o Leo. Nem posso lembrar todas as contribuições deles aos próprios personagens – eles passaram estes seis anos conversando comigo sobre isso.
 
Falta de intercâmbio entre países latino-americanos
Ricardo é o único astro latino-americano, por isso conseguimos exibir o filme aqui. Lamento a falta de um intercâmbio maior entre nossos mercados. Eu mesmo não conheço tanto do cinema brasileiro recente. Vi Aquarius (de Kleber Mendonça Filho) e os filmes do Fernando Meirelles. Os norte-americanos dominam tudo. O único jeito de levarmos as pessoas aos cinemas é fazermos os melhores filmes. E também as co-produções. Acho que o Brasil e a Argentina deveriam co-produzir muito mais juntos, porque são os países com maior tradição cinematográfica na América do Sul. Na Argentina, as pessoas ainda vão muito ao cinema, embora nem sempre seja respeitada uma lei de obrigatoriedade de exibição que temos. O ponto fraco dessa equação são os exibidores. Por isso, nem sempre certos filmes têm uma chance.
 
A personagem feminina
Para mim, Laura (Laia Costa) é a protagonista: nasce pequena, vai crescendo e decide o final. Ela é a única que muda, começa na luz e entra na escuridão. Às vezes, ela passa despercebida, até porque tentamos mesmo mantê-la numa segunda camada, por assim dizer. Não sabemos nada dela, de onde veio, como era sua família, o que fazia. Eu queria isso. Bastava saber que ela tinha um bom relacionamento com o marido (Leonardo Sbaraglia).
 
Falta de diversidade digital
Minha geração cresceu vendo filmes em cineclubes. Víamos Godard, Truffaut, Bergman, Tarkovski...Agora, a Netflix, a HBO e outras oferecem e as pessoas assistem ao que lhes é oferecido. Acho que as pessoas agora perderam esse hábito, que nós tínhamos, de procurar, buscar o que vão ver. Por isso, falta uma diversidade maior.

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