Entrevistas

Atores de “Joaquim” destacam conexões do filme com a atualidade

Publicado em 19/04/17 às 20h43

 
Julio Machado e Isabél Zuaa, em cena do longa "Joaquim". Foto: Divulgação
 
 
Por Neusa Barbosa
 

Julio Machado encontra sintonias modernas com Tiradentes

 
O protagonista de Joaquim, o ator Julio Machado, é o que se pode chamar de um bicho de teatro. Formado pela Escola de Artes Dramáticas da USP, ele fez do teatro sua vida desde criança. Até agora, tinha feito pouco cinema, por isso, descreveu a “emoção imensa” ao ver, pela primeira vez, o filme de Marcelo Gomes pronto, pouco antes de embarcar também para Berlim.
 
Berlim, como ele descreve “foi um choque maravilhoso”, pela curiosidade demonstrada pelo filme tanto pela imprensa internacional quanto pelo público local. “Foi muito gratificante. A cultura é um patrimônio imaterial, nessas horas é que a gente percebe a importância dela, a importância de se desenvolver uma identidade nacional. Foi incrível ver curiosidade do alemão pelo cinema de fora, capaz de lotar salas imensas, de 1.500 lugares. E não só. Viram o filme e ficaram na sala depois, interessados num debate, interessados em conhecer os realizadores. Isso é uma coisa que a gente não está acostumado a ver. Foi uma experiência e tanto”.
 
Sobre a preparação para viver um personagem tão conhecido e mitificado, , ele diz que foi mais simples do que se possa imaginar, graças a Marcelo Gomes. “Eu não tive nem tempo de ficar com medo ou de sentir o peso da responsabilidade. Porque o Marcelo já tinha essa pesquisa há 7 anos, já vinha escrevendo esse roteiro há 7 anos. E ele tinha muita clareza de como ele queria fazer. Ele me passou muita coisa pontual da pesquisa histórica. Mas o conceito principal do filme ele já tinha muita clareza disso de não pretender retratar o herói, essa história que a gente conhece lá da escola. Nós estamos fazendo o oposto. Isso tira esse peso, acho que dá uma liberdade de ir para o humano, mergulhar nas suas próprias questões e tentar usar isso”.
 
No aspecto físico, no entanto, a preparação prévia nas locações foi fundamental – inclusive para entrar no personagem. Antes das filmagens, o elenco ficou um mês nas locações, trabalhando nos três horários do dia, em atividades físicas, desde as prosaicas, como caminhar no meio da mata, - nas imediações de Diamantina (MG) – até garimpar. Mesmo em condições difíceis, já que a mata era um cerrado bem inóspito, Julio destaca a condução afetiva do diretor: “O Marcelo trabalhou com toda a equipe na chave do afeto, mesmo naquelas condições. Cada um estava convicto de que queria estar ali, contando aquela história daquele jeito. Então isso cria um elo, uma energia algo mágica de conexão e força. A gente teve muita força. Poderia ter caído na primeira semana, porque vivemos situações muito difíceis. Mas foi muito gostoso, sentíamos que tínhamos que estar ali. Eu diria que foi libertador”.
 
Por ter vivido o processo desse jeito, o ator destaca hoje ter “uma identificação espiritual com o personagem muito complexa”. Ele explica: “Eu, Julio, cidadão do século 21, encontro em mim ecos que eu acredito serem muito parecidos para emprestar ao personagem. É só a gente olhar para a nossa condição de brasileiro, de cidadão que não consegue compreender os jogos e artimanhas do poder – e o cenário político atualmente é um material farto. Como essa elite privilegiada nunca larga o osso, todo e qualquer avanço de inclusão social coloca essa elite em pé de guerra. Hoje em dia, a gente ouve relatos muito rasos de compreensão sociológica do Brasil, lotados de ódio e intransigência. Então foi uma surpresa pra mim ver que as paixões que moviam o nosso personagem estivessem mais dentro de mim do que eu pudesse suspeitar. Bastava pensar sob esse prisma, do cidadão brasileiro. Qualquer um de nós poderia fazer o Joaquim. Qualquer um de nós é o Joaquim”.
 
O ator, que recentemente trabalhou na novela de TV Velho Chico, em breve será visto em outros dois filmes: A sombra do pai, da premiada curta-metragista Gabriela Amaral Almeida, a partir de um roteiro que ela desenvolveu em Sundance, com orientação de Quentin Tarantino; outro, uma fábula amorosa no sertão nordestino, inspirada em Lampião e Maria Bonita, A costureira e o cangaceiro, de Breno Silveira (Dois Filhos de Francisco).
Ultimamente, o ator fez pouco teatro, mas garante que vai voltar: “dá uma purificada no nosso espírito, é a casa do ator. Teatro é a arte do ator. Sempre é um lugar para onde eu quero voltar”.
 
Isabél Zuaa ressalta o empoderamento feminino da personagem Preta
 
Dona do principal papel feminino, a escrava rebelde Preta, a atriz Isabél Zuaa, nascida em Lisboa, veio para o Brasil em 2010, fazer um intercâmbio na UniRio. Veio para ficar 5 meses e acabou ficando 7 anos. Nesse período, fez um trabalho de aperfeiçoamento em dança e fez o filme Kbela, curta experimental de Yasmin Thainá que esteve no festival de Roterdã, com elenco de mulheres negras. “No Brasil, assim como em outros lugares, você nasce negra mas só se torna negra com auto-estima, com o processo de amadurecimento da sua condição física e também as vantagens e desvantagens sociais em relação a isto”, observa a atriz.
 
Isabél chegou até Marcelo Gomes através de um curta, Mupepy Munatim, que tinha feito em Portugal, de Pedro Peralta. A chamada para o teste pedia uma atriz portuguesa negra que falasse outra língua além do português e ela fala o crioulo, uma língua africana.
 
A personagem Preta, para ela, permite inclusive reverter os clichês associados às personagens de escravas: “ As pessoas me questionaram, como questionaram a Zezé Mota e outras atrizes antes, o porquê de fazer uma escrava hoje em dia. Eu, no meu caso, porque é um outro prisma da situação de uma mulher, porque me traz o outro contraponto. É uma escrava que faz a sua revolução, que usa estratégias de sobrevivência e de resistência. Então isso é muito estimulante pra mim. E ela usa essas estratégias de sobrevivência pra conseguir a sua liberdade. Ela não nasceu escrava, se tornou e depois se libertou. Resistiu e está estimulando outras pessoas, inclusive o próprio Joaquim”.
 
A pesquisa da personagem foi feita através de leituras, como a biografia de Xica da Silva – um mito em Diamantina, onde existe inclusive sua casa – e em quilombos e locais de resistência na cidade mineira. Lá mesmo Isabél pode constatar a permanência de situações que remetem ao período colonial. “Eu lembro de passar por lá (Diamantina) e me chamarem de Xica da Silva, simplesmente pela minha postura de circular por todo lugar. Porque os negros de lá ou estão servindo ou são de fora. Isso mexeu comigo”. A reação de Isabél foi transformar sua reação em arte, através de uma performance, cantando no meio de uma praça. “E as pessoas adoraram. Eu conversei com várias mulheres negras lá para entender como elas se colocam e foi muito assustador também perceber como essas relações vêm se mantendo desde então”.
 
Como atriz negra que tem vivido no Brasil há 7 anos – atualmente, ela vive entre o país e Portugal -, Isabélsente que o racismo subsiste por aqui, mas que está mudando. “Sinto que tem, mas está mudando. As pessoas olham de outra forma para mim aqui. Quando eu cheguei, em 2010, eu senti não só a abordagem dos homens, era muito diferente. As minhas amigas portuguesas brancas que vieram eram abordadas de uma forma e eu de outra. Elas viram isso e não conseguiam entender. A gente questionava isso”.
 
Isabél trabalhou extensivamente essa questão em seu trabalho artístico no Brasil, através de palestras e performances, uma delas sobre Carolina Maria de Jesus e outro espetáculo, Pietà Preta, que fala sobre o extermínio dos negros no Brasil atual.  
 
Para a atriz, embora este não seja o tema central de Joaquim, a história da rebelião e do empoderamento de Preta também se sobressai, assim como a história de outra personagem feminina, a mulher do escravo João (Welket Bungué), que compra a liberdade dele. “Esta é uma mulher negra também, que não aparece mas que ainda assim tem um papel fundamental”, observa.  
 
 
 

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