Entrevistas

Marcelo Gomes discute em “Joaquim” questões da identidade brasileira

Publicado em 19/04/17 às 21h39

Marcelo Gomes, diretor de "Joaquim". Foto: Mujica/Divulgação

 

Por Neusa Barbosa

Fugindo dos cânones acadêmicos que em geral cercam os filmes históricos, o diretor Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) focaliza em Joaquim uma crônica do Brasil do século 18, colocando no centro o herói Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (Julio Machado), antes de sua participação na Inconfidência.
O filme, que já foi vendido para países como a China, teve estreia mundial no mais recente Festival de Berlim, em que participou da competição principal. Nesta entrevista exclusiva, em São Paulo, o cineasta comenta aspectos da produção, suas escolhas e as questões retratadas que aproximam o filme da discussão dos problemas atuais do país.
 
Como foi a recepção em Berlim?
Quando o filme ficou pronto, que saiu do forno, eu pensei – este filme é a cara de Berlim, porque eu acho que tem um elemento político muito forte. Berlim é um festival extremamente político. Então mandei o filme para Berlim. E tem uma coisa muito bacana lá, porque é um festival que abre para o público. Em Berlim, você pode comprar um ingresso e assistir a um filme. Cannes, ao contrário, é um festival fechado. E em Berlim tem um público cinéfilo, que quer conhecer a geopolítica dos países através do cinema. Isso é maravilhoso. E a quantidade de conversas e debates que eu tive através do filme foram tão enriquecedoras que eu entendi melhor o meu cinema e o meu filme. Então, veio o convite para a competição e aí tudo mudou para o filme. Foram feitos 19 filmes sobre o Tiradentes. Quem é que quer saber sobre um herói de um país da América Latina?
 
Ele é um herói para público interno. Nós o conhecemos muito, mas lá fora ninguém conhece.
Então. E é tão maravilhoso fazer esse tipo de cinema que eu gosto, que é para instigar a imaginação e a memória do espectador, que não te dá tudo. E é tão bacana quando isso te desperta “nossa, quero saber mais da história colonial do Brasil, desse personagem”, instigados pelo que o filme trouxe. O filme te trouxe até ali, depois tem que ser com você. E tem um momento no mundo que a gente está vivendo, de uma complexidade política muito grande, que nunca se falou tanto de política, só que de uma forma muito superficial, e eu acho que o filme dá uma pequena ajuda para a gente refletir um pouco sobre aquele momento da colonização, porque estão ali nossas mazelas. E não é só responsabilidade dos portugueses, foi o mesmo com os espanhóis, com os ingleses, com os alemães, que cometeram genocídio na Namíbia, foi assim também na Ásia...
 
O processo colonial foi todo igual.
Exatamente. Então, que momento bacana para estar em Berlim com esse filme.
Sobre o personagem, não se tem muita informação. Você teve que ficcionalizar muito a vida dele.
Na verdade, é o seguinte: você tem a certidão de batismo e os autos da devassa, que é o processo contra os Inconfidentes, do julgamento deles. Só isso. Algumas pessoas estão encontrando alguns documentos hoje em dia, mas nada confirmado ainda, muito pouca coisa.
 
Então a vida dele antes da Inconfidência não se sabe.
Não. Por que? Em 1792 cortaram a cabeça dele. O Brasil continuou português. Em 1822, o Brasil é uma nação independente, mas o príncipe-regente é português. Não interessava a ele resgatar a figura do Tiradentes. Depois vem D. Pedro II. Então só com a República, 79 anos depois, é que as pessoas falam que é preciso resgatar esse herói.
 
Nessa altura, quem o conheceu já tinha morrido.
Hoje em dia, você vai investigar uma coisa que aconteceu há 20 anos atrás, tem uma dificuldade. Imagina no século 18, 19, com aquela precariedade imensa.
 
Além do mais, ele era um homem pobre, do povo, não uma elite sobre quem haveria algum registro.
Agora, sabe o que é bacana? É que o Joaquim é um personagem ótimo para o cinema. Porque, como não se tem a informação, tem uma quantidade de relatos. Tem historiadores que falam que ele era rico, os que falam que ele era pobre. Os que falam que ele era uma figura secundária na Inconfidência. Outros falam que não foi ele quem morreu ali, que foi um mendigo e que o mandaram para a França... Então, como se mitifica e se constrói muito sobre ele, melhor ainda. Não existe nenhum documento histórico que diga porque esse cara mudou de paradigma. Porque é muito fácil você imaginar um jovem no Brasil hoje em dia, que lê um monte de livros e muda de paradigma. Agora imagina no século 18. Uma sociedade escravocrata, que cometia genocídio dos índios. Agora, como é que esse cara mudou o paradigma? Ele era funcionário da Coroa, de repente vira um rebelde contra essa Coroa. Onde está essa quebra? Por isso eu gosto de fazer cinema, sobre as coisas que eu não entendo.  
E aí eu pensava que ele só mudou de paradigma se ele conviveu com as pessoas que estavam vivendo a face mais cruel da civilização: os índios, os africanos e os mestiços. Porque ele não era parte de uma elite, talvez o início de uma classe média que estava surgindo ali. Como é que a gente muda? Porque na verdade esse filme também é sobre a gênese do herói. Porque acho que o herói não é uma pessoa que Deus designou messianicamente. Acho que você comete atos heroicos a partir da sua experiência de vida, do seu percurso de vida e do que você faz com essa experiência. Acho que se existe algo revolucionário no meu filme é mostrar que qualquer ser humano, qualquer cidadão comum, a partir das suas experiências de vida e dos seus confrontos, ele reflete e muda seu paradigma.
 
Ele também tinha alguma educação, era alfabetizado, tinha algum conhecimento prático como dentista.
Pessoas me disseram: “Mas você desconstruiu o nosso herói”. Eu disse não, eu construí o lado humano de alguém que eu lia nos livros, nos anos 1970, em plena ditadura, e estava aquela pessoa que eu pensava que era Jesus Cristo. E a primeira coisa que eu fiz no filme é que eu cortei o cabelo dele. O bacana desse filme é ajudar nós, brasileiros, a entender um pouco o que a gente está vivendo agora, em 2017. Porque é lógico que esse filme se passa no século 18 mas foi feito por alguém que mora em 2017. É muito importante a gente voltar para lá, para esse nascimento da nossa nação para entender hoje. Eu não sei quem é que fala que no século 18 as elites daqui queriam ser portuguesas, no 19, francesas, e no 20, inglesas, depois americanas.
 
Elas nunca olham para o próprio país, estão sempre olhando para fora.
E acho que essa é a nossa grande mazela. A nossa elite aprendeu corretamente o discurso do colonizador: explorar, explorar e explorar, não construir nada aqui e levar a riqueza pra longe, talvez para os bancos da Suíça. Isso é que é cruel. Porque em outros países as elites tinham mais amor ao próprio país, construíam universidades, bibliotecas... Essa é uma outra questão, a colonização está na gente. Tem que descolonizar todo dia o nosso pensamento.
Outra coisa é a crise de identidade. O Joaquim fica o tempo todo dizendo “eu sou português, eu sou filho de português...”. Crise de identidade completa. Ele quer uma promoção, quer aderir aos incluídos. Ele queria ser que nem o colonizador. Isso é impressionante. Acho que até hoje a gente vive esse dilema, quem somos nós, a gente vive no Brasil uma crise existencial eterna. Aí junta a crise existencial com a crise política...Por isso é tão bacana ter filmes como Joaquim, porque o passado está vivo dentro do Brasil.
 
E essa relação dele com a escrava, que é muito provável, embora não documentada.
A diferença da colonização portuguesa para a espanhola é que os espanhóis vinham para a América com a família. Os portugueses não, com raras exceções. Começaram a trazer para Pernambuco, na cana-de-açúcar, depois para Minas, bem depois. Tanto que Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala, diz que o Brasil, antes de civilizar-se, sifilizou-se. Os portugueses estupravam as escravas, isso é estupro. E existia uma lenda que se o português, se tivesse sífilis, iria ser curado por uma escrava virgem. O que a gente vive ainda hoje, a questão do machismo, de um estupro a cada 15 minutos, vem daí. A origem disso tudo está lá.
Deu muito trabalho, mas a gente conseguiu reconstruir a Babel de línguas e cores que era o Brasil colonial. Isso eu fico muito feliz. Os africanos falando crioulo, o português falando com o seu sotaque, então, aquele caldo cultural de cores, de línguas e de sotaques estava presente. E eu, por opção, não traduzi. Porque é o ponto de vista do Joaquim.
 
E fica aquela estranheza, você ouve o índio falando e não sabe o que é, mas você deduz. E tem um momento em que eles estão cantando, o índio e o negro, que é muito bonito. São os despossuídos ali se juntando num momento de alegria.
Esse momento eu digo que é o hip hop do século 18. Talvez por isso é que o Brasil é um país tão musical. E logo depois dessa cena, tem aquela do Joaquim se olhando no espelho e perguntando – “quem sou eu?”. Porque eu acho que tem esse fato, o cinema é fundamental para a gente espelhar, para a gente entender melhor o que a gente é enquanto povo, enquanto país. Um país sem cinema é uma casa sem espelho. O bacana é que é Joaquim fica tentando entender o tempo todo o que ele é, ele ouve aqueles cantos, ele vê aqueles portugueses e quer ser igual a eles, os outros inconfidentes que têm uma cultura a que ele não tem acesso. Eu acho que o que tem de revolucionário no filme é isso, é dizer que qualquer ser humano pode cometer um ato heroico. E também lembro do que o Brech dizia que pobre das nações que precisam de heróis. Concordo com o Brecht. Acho que a gente precisa entender melhor os momentos de revolta e rebelião da nossa história, a Balaiada, a Sabinada, a revolta dos Malês. Nesses momentos de revolta você vai entender melhor as fraturas sociais do país.
 
E tem muito essa lenda de que a história do Brasil transcorreu pacífica, sem grandes conflitos. O filme todo teu é um mal-estar, desde o começo, quando estão caçando os contrabandistas e eles tratam mal os índios e os negros também, é um repassando opressão pro outro. Essa falta de instituições ali, o país todo jogado, tudo solto, tudo frouxo. Ninguém tem chance de existir direito.
Era o momento do salve-se quem puder. E eu fico muito feliz com esse elenco que deu conta. Porque eu digo que o filme é mais uma crônica do que um relato histórico. Quero mostrar mais como as pessoas viviam do que fazer uma novela de época. Esse era o desejo. E o elenco deu muito conta de uma interpretação que era mais próxima do naturalismo, está todo mundo muito tranquilo. Quem invade a cena é a câmera. Como eu queria fazer um filme com esse passado muito vivo, eu decidi até quebrar um paradigma desse cinema histórico, de uma câmera mais paralisada, pousada. Eu fiz uma câmera sensorial, que invade os espaços, que vasculha a vida dos personagens. As locações a gente tinha que ter sempre 360 graus para a câmera sair caminhando por ali. Porque é uma câmera viva.
 
Isso permite que o espectador compartilhe o desconforto dos personagens.
Exato. Sempre que a gente via uma locação, a gente queria mostrar que este país era intransponível. Eu não queria uma locação bonita, queria uma locação adequada. Elas até são bonitas, mas eram intransponíveis, era assim o Brasil. O passado era muito precário. E às vezes o cinema histórico dá uma ideia de que o passado era glamouroso. A gente usou umas lentes dos anos 1970. Aiwa, que meio distorcem as bordas mas levam você para dentro da margem. Ao mesmo tempo, retira a coisa perfeita do digital. Então ficou um pouco essa imagem não perfeita e a gente adorou esse efeito da lente, porque o passado era imperfeito e você tem dificuldade de enxergar, de compreender toda aquela dimensão.
 
E também tem a história do quilombo.
Quando a gente fala da herança cultural africana, tem as religiões, a música, a dança, a festa. Nunca se fala que a cultura africana trouxe para o Brasil a ideia de revolta, que começou nos quilombos. O primeiro momento político rebelde do Brasil foram os quilombos. Essa é uma herança africana. Quando eu li sobre isso pensei que tinha que colocar no filme. Talvez se alguém, de classe média, toma uma medida tão radical de mudança de paradigma é porque viu uma rebelião e entendeu o que é isso.
Mas o filme também é sobre um amor impossível. Sobre ganância. Sobre traição. Esses são elementos universais e talvez por isso é que ele teve uma aceitação tão bacana de pessoas de países diferentes.
Eu não desconstruí nosso herói. Eu o trouxe para o lugar do humano, não o mitifiquei. Ele foi o único que perdeu a cabeça, por isso, é o protagonista da Inconfidência. E depois ele cometeu um ato muito nobre, quando estava preso para morrer. Durante o processo, chega um momento em que ele assumiu toda a culpa pra ele. E acho que você morrer de forma muito nobre é muito difícil. Isso é um ato heroico. Então ele foi herói nesse momento.

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