Entrevistas

Camila Pitanga estreia como diretora redescobrindo a trajetória do pai

Publicado em 04/04/17 às 16h19

Antonio Pitanga e Maria Bethânia, sua ex-namorada, em cena de Pitanga. Foto: Matheus Brant/Divulgação
 
 
Por Alysson Oliveira
 
Falador e sorridente, é de se surpreender que Antonio Pitanga tenha ficado acanhado, e não tenha topado logo de cara que sua filha Camila Pitanga e o diretor Beto Brant fizessem um documentário sobre ele. “Eu levei um susto, sou muito reservado”, explica em entrevista ao Cineweb. Mas o ator, e também diretor, percebeu que contar sua história poderia ser o resgate de um momento e da representação do negro no cinema brasileiro. “Acabei topando porque o filme apresentaria a minha história ricamente como foi, de um projeto de cidadania, um projeto social e cultural”.
 
Em mais de meio século de carreira, Pitanga trabalhou com alguns dos principais nomes do Cinema Novo, como Glauber Rocha (Barravento), Cacá Diegues (Ganga Zumba) e Joaquim Pedro de Andrade (O Homem do Pau-brasil). Rever sua trajetória foi reencontrar filmes com os quais não tinha contato há anos. “Há imagens de filmes raros ali, que eu vi na época do lançamento, e nunca mais”. Mais importantes do que os filmes são os reencontros com amigos e amigas que conduzem o filme, montado a partir de conversas do próprio biografado. Entre esses companheiros estão Hugo Carvana, Ângela Leal, Tamara Taxman, Zezé Mota, Ruth de Souza, Lea Garcia. “Acho que o mais marcante e divertido foi com a [Maria] Bethânia, que eu havia namorado quando ela tinha uns 17 anos. A gente se gostava muito”. É possível ver isso na tela.
 
Não havia roteiro prévio, nem perguntas formuladas. Pitanga chega na casa de seus amigos e começa a conversar. Esses papos duraram de 2 a 3 horas. “Eram reencontros de verdade, e falávamos sobre tudo. Muita coisa surpreendeu a Camila”, diverte-se. A filha e diretora estava presente em diversos deles, mas sem nunca interferir. “As coisas se davam na sensibilidade do momento, e houve muita novidade. O Beto me deu a oportunidade de redescobrir o meu pai”, confessa Camila.
 
A atriz explica que nunca teve ambição em ser diretora, mas “o Beto me permitiu uma linda entrada no cinema”. A parceria entre a dupla começou com a ficção Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de 2011. Dessa época veio a ideia do documentário. “Eu já nem sei mais quem começou com isso, mas ela queria que só eu fizesse, e eu disse que sem ela, não teria graça. Tinha que ser dirigido por nós dois”, explica Brant.
 
A escolha dos “entrevistados” se deu a partir da própria trajetória de Pitanga, pessoas com quem conviveu, namorou, trabalhou. “Originalmente, seria meu pai contando a história dele para mim”, lembra Camila, “mas vimos, no decorrer das filmagens, que isso não ia funcionar. Era preciso dar o tempo para as coisas acontecerem”. Contando com longas conversas, que na tela durariam poucos minutos, a dupla de diretores teve a ajuda da montadora Juliana Munhoz na edição. “Foi fundamental um olhar de fora, uma pessoa que não estava emocionalmente envolvida com o material, para poder encontrar o ponto mais forte desses bate-papos”.
 
 
O que pauta, no entanto, a organização e temática das conversas que estão no filme, conforme define Camila, são linhas de força: o negro, a família, as mulheres e o cinema. “São questões fundamentais na vida do meu pai, não tinha como evitar isso no filme”.
 
Camila e Brant explicam que não houve uma “divisão do trabalho”. Os dois faziam de tudo, e “dirigir juntos é somar esforços, e não dividir”, conta o cineasta. Ela, por sua vez, confessa que, no documentário, o colega trabalha do mesmo modo intuitivo que na ficção: “É um processo vivo, e o Beto é muito aberto a sugestões, a ouvir o outro, a deixar as coisa acontecerem no seu tempo”.
 
Pitanga relembra sua trajetória e seu papel na afirmação do negro na cultura brasileira por meio dos filmes e novelas em que trabalhou. “Venho na contramão do sistema de uma Bahia racista. Eu vejo que os jovens da minha geração estavam desenhando o Brasil que a gente queria. A gente sabia que estava batendo um tambor que ia ressoar por muitos anos”. E Brant vai além: “Pitanga é a figura do negro que se rebela. Ele é a cara do Cinema Novo”.

Outras notícias