Entrevistas

Em “Estopô Balaio”, Cristiano Burlan investiga a relação entre arte e sociedade

Publicado em 15/03/17 às 13h15

Cristiano Burlan (no canto direito, com a câmera), em filmagem de Estopô Balaio, no Jardim Romano

Cristiano Burlan (no canto direito, com a câmera), em filmagem de Estopô Balaio, no Jardim Romano

 

Por Alysson Oliveira
 
Em seu mais novo documentário, Estopô Balaio, Cristiano Burlan (Mataram meu irmão) investiga a relação entre indivíduos e sociedade, mediada pela arte. O longa tem como cenário o Jardim Romano, na periferia de São Paulo, uma região que sofre constantes enchentes. Um grupo de moradores se uniu e montou um coletivo cultural, que dá nome ao filme, e, a partir dele, usando a arte, discute sobre seus problemas e como superá-los.
 
Nesta entrevista, Burlan fala sobre sua relação com o coletivo e seus processos de filmagem.
 
Como começou o projeto do filme?
O primeiro contato aconteceu, por meio da minha parceira criativa, Ana Carolina Marinho, que é integrante do grupo que me convidou para assistir a peça O que sobrou do rio. Aquela história de resistência me estimulou a conhecer melhor o lugar e as pessoas. Passei a visitar o bairro e o grupo sempre com uma câmera na mão. Com esses encontros surgiu a vontade de realizar o documentário Estopô Balaio. Mas é importante ressaltar que a "culpada" de tudo isso é a Ana Carolina, que é personagem do filme e, ao mesmo tempo, produtora.
 
Quanto tempo foi de filmagem? Qual a quantidade de material bruto você tinha no final?
O projeto foi de três anos, não costumo filmar muito. Meu trabalho em documentário se dá muito mais por um contato pessoal, a câmera acaba entrando mais como uma consequência desse contato.
 
Como organizar esse material para dar coerência e coesão ao filme? Como foi o processo de montagem?
O processo de montagem é sempre um processo dialético e muito delicado, em que é necessário diminuir nossos desejos como realizador para que a potência do outro surja. A escolha das pessoas que acabam entrando na montagem final é sempre muito subjetiva, depende de vários fatores, desde disponibilidade, até carisma e os discursos. O que eu quero dizer é que as potências se assumem por si sós, ganham vida própria.
 
Qual sua relação com o coletivo Estopô Balaio? Que tipo de interação foi necessária para ganhar a confiança das pessoas? 
Acabei me tornando amigo das pessoas do coletivo e, por conhecer a integrante Ana Carolina, o processo foi muito facilitado. Mas no decorrer de três anos, a relação se fortalece muito, resultado que é retratado no documentário.
 
Como é o seu processo de trabalho, de construção de um filme? Das dinâmicas internas que se estabelecem?
Nunca sabemos quando um filme começa. Especificamente neste trabalho, eu parti do público e do geral para chegar ao específico e ao privado. As águas inundaram com frequência as casas dessas pessoas, as ruas, e devastaram o cotidiano dos moradores, que foram obrigados a reinventar a suas próprias vida, a criar perspectivas de sobrevivência e de re-existência. A arte se alia a esse processo.
 
São todos atores nesse processo de fabular a própria vida. Todos pactuam com o ato teatral. O coletivo criou uma residência artística no Jardim Romano no intuito de investigar esta memória social a partir de processos criativos que reúnem artistas, moradores e jovens moradores que vem se formando artisticamente através de atividades de formação desenvolvidas na sede do coletivo. Processos de intervenção urbana, ensaios de cena na rua, saraus, espetáculos, festas, projeção de filmes em espaços públicos, instalações e espetáculos teatrais foram criados a partir dos depoimentos dos moradores sobre suas experiências com as águas. Mas também os trouxeram como protagonistas dessas experiências e atores sociais a ressignificarem sua memória. O meu trabalho aqui foi de apenas registrar tudo isso.
 
Quais são seus próximos projetos?
Estou finalizando dois filmes, Antes do Fim e O Projecionista, que foram filmados em 2016. Além disso, vou começar a pré-produção do filme Elegia de um Crime, que completa a Trilogia de Luto [também composta por Construção, de 2006, e Mataram meu irmão, de 2013. No segundo semestre ainda vou filmar, na periferia, uma livre adaptação de Ricardo III, todo cantado em rap.

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