Entrevistas

Bellocchio por Bellocchio

Publicado em 10/11/16 às 15h07

 
Declarações recolhidas, traduzidas e editadas por Neusa Barbosa
 
Visitando o Brasil pela quarta vez, pela primeira vez em São Paulo, como um dos homenageados principais da 40ª Mostra Internacional de Cinema, o cineasta italiano Marco Bellocchio, 76 anos, participou de um diálogo com o público no último domingo (23-10), no Cinesesc, e de uma conversa com um pequeno número de críticos e jornalistas brasileiros, na segunda (24), no Espaço Unibanco Augusta. A seguir, extratos de seus principais comentários:
 
Temas políticos e recepção de seus filmes
É pertinente que me perguntem como são recebidos meus filmes e venho respondendo a isso há 50 anos! (risos). Em geral, são bem diferentes as reações do público e da crítica a meus filmes. Nos anos 1960, 1970, havia uma censura um pouco dura. Mesmo assim, meus filmes puderam circular livremente. Passei muitas vezes por ser um cineasta político, sem sê-lo de fato, numa época em que o cinema político era levado muito a sério pelos críticos.
Seguiu-se, no entanto, um período mais introspectivo, de Il Gabbiano (77), Salto no Vazio (80). Uma época em que perdi o interesse na política direta, em que eu saía de uma decepção política. Eu nunca fui um político de verdade, mas acreditei numa utopia de esquerda, num socialismo utópico que, de algum modo, se contrapusesse a uma ideologia burguesa.
Um outro filme meu que foi distribuído no Brasil e suscitou um certo escândalo foi O Diabo no Corpo (86) - mesmo na Itália, pela minha adesão à psicanálise de um certo professor Massimo Fagioli, por um movimento tido como sectário dele, de “análise coletiva”. Depois, em outro período de minha obra, La Balia (99), A Hora da Religião (2002), Bom dia, noite (2003), afrontei histórias italianas sem preocupação de um juízo histórico-político, personalizando-as muito. Vincere não é sobre o fascismo e sim sobre uma mulher que enlouquece reivindicando, no fundo, seu papel institucional, como mulher de Mussollini. Portanto, a História vista de um ângulo muito particular. Assim como o terrorismo em Bom dia, noite é visto no covil dos sequestradores de Aldo Moro, sua vida cotidiana, suas ligações delirantes com o prisioneiro, sem querer fazer uma representação geral sobre um fenômeno importante, que foi o terrorismo na Itália.  
 
 O sentido do cinema numa época de falência das utopias
No passado, nos anos 1960, se dizia que tudo era política. Pensava-se no cinema como uma arma da revolução. Mas eu, certamente, só posso falar da minha experiência. Meu modo de fazer cinema não é programático. Nunca quis transmitir nenhuma mensagem. Parto sempre de uma imagem que me impressiona, que me abala, que é o primeiro fragmento para construir posteriormente uma história, uma dramaturgia. Dentro da minha história, evidentemente, existem as minhas ideias, no entanto, não representam um endereço político. Fazendo um filme, bem ou mal, sei que devo só seguir minha inspiração, aquilo que eu vejo, que sinto, que me agrada, tudo aquilo que sinto que me impõe minha consciência – o que é arriscado, porque se torna uma coisa que, depois, revela o próprio empenho moral. Mesmo não sendo exatamente uma pessoa moral, talvez mais moralista, pela minha educação. Mas neste moralismo eu falo apenas de meu próprio percurso.
 
Convivência com expoentes do Cinema Novo
O Cinema Novo fez parte de minha formação como cineasta. Conheci alguns de seus integrantes quando, jovem, cursei com eles o Centro Esperimentale di Cinematografia de Roma, como Paulo César Saraceni e Gustavo Dahl. Conheci também Glauber Rocha, mas não éramos tão próximos.
Naquele tempo, os jovens pensavam que se podia mudar o mundo através da política, de uma utopia social. E havia também a procura de transformar a imagem e encontrar uma nova originalidade. Essa tendência se encontrava na Nouvelle Vague, em Truffaut, Godard, Alain Resnais, no Free Cinema inglês, no Novo Cinema Alemão, além do Cinema Novo que conheci através de meus colegas de escola brasileiros.
O que era muito importante para nós na época era o empenho político que, para nós, era quase uma obrigação moral.
Ao longo dos anos, no entanto, cheguei à conclusão de que o ponto de partida de um filme não é a mensagem e sim uma imagem.
Mesmo um filme muito pessoal, como Bom dia, noite (2003), partiu de um convite de um produtor – evidentemente, com toda a liberdade para fazer um filme em torno da figura de Aldo Moro (o ex-primeiro ministro democrata-cristão assassinado pelas Brigadas Vermelhas em 1978). O mesmo aconteceu em A Bela que Dorme (2012). Um produtor tinha os direitos de um livro e me ofereceu – e aquela história me pareceu dolorosamente personalizável. Ou seja, desses convites me ocorreram imagens e daí eu pude partir.
No caso de Vencer (Vincere), havia um fato real de partida (Mussollini ferido na I Guerra), mas houve todo um trabalho de agregação, de síntese temporal e algumas invenções para compor toda a história. Depois, no set, há sempre um redimensionamento criativo, por melhor que tenha sido elaborado o roteiro e o story board.
 
Postura diante da religião
O artista fala do que conhece, do que viveu. Minha educação foi católica, assim, é inevitável que emerja em minha obra o tema do catolicismo. Respeito a fé e quem vai à igreja – mas fé se tem ou não. A raiva e a desilusão com a Igreja foram fortíssimas em mim, não porque tenha sofrido qualquer violência mas porque vi a falsidade na prática religiosa.
Em A Hora da Religião, há um personagem que é uma degeneração do personagem de Lou Castel em De Punhos Cerrados, e que é um blasfemador contra Deus e Nossa Senhora e ele o faz para exprimir o ódio em relação à família que, de qualquer modo, o conduziu àquela condição. Em Sangue do meu Sangue, a educação católica e seus rituais retornam em muitas imagens. É natural. É a minha vida. Aquilo que você imagina, que você inventa, de algum modo reflete a sua vida, não cai do céu. A formação católica, de algum modo, forjou teu caráter, ainda que você não vá mais à missa e a loucura da fé lhe seja uma coisa estranha.  
 
Operação “Mãos Limpas”
Foi um momento muito inesperado. Eu não imaginava que o sistema político fosse assim corrupto e que o judiciário pudesse fazer cair tantos políticos, ainda mais os partidos.
Dizem que a corrupção aumentou na Itália depois dessa operação. Mas houve iniciativas no sentido de controlar a corrupção, que é um fenômeno extremamente difuso. Alguns juízes inclusive tornaram-se políticos, mas isso já acabou. Há uma tensão da opinião pública no sentido de descobrir essa corrupção. Surgiram movimentos, como o “Cinco Estrelas”, a partir de cidadãos desgostosos com a classe política. O fato é que há cada vez mais abstenções nas eleições e este é um comportamento fatalista extremamente negativo.
 
A música nos filmes
Hoje em dia, tento ter a música dos meus filmes resolvida antes da montagem. No passado, não era assim. Montava-se o filme e aí se convidava o compositor para compor a trilha. Com o tempo, isso tornou-se mais complexo. Pela minha experiência, fui sentindo que, tendo a música, trabalha-se melhor a montagem.
O que não quer dizer que Ennio Morricone não tenha feito um trabalho belíssimo por exemplo em meu primeiro filme, De Punhos Cerrados (65), em que ele musicou sequências de maneira perfeita. Naquela época, os compositores assistiam às sequências que deviam ser musicadas e aí compunham a música.
 
Origem dos desenhos que ilustram as artes e o cartaz da 40ª. Mostra
Antes de tornar-me diretor, pensei em ser pintor. Tenho essa relação com as imagens, faço desenhos antes de filmar. O desenho da Mostra junta três tipos desses desenhos. Um deles mostra o Papa e o primeiro-ministro Giulio Andreotti, que pedia sua intervenção para libertação de Aldo Moro, então sequestrado pelas Brigadas Vermelhas. Ao centro, há a figura de um homem, que representa Aldo Moro, livre, numa sequência como a vista no final de Bom dia, noite. Finalmente, os braços vermelhos fazem parte de um desenho feito para outro filme, Vencer (Vincere).
 
Sobre o filme mais recente, “Belos Sonhos”
Contrariamente aos meus hábitos, fizemos muitas versões do roteiro, baseado num livro que relata uma tragédia autobiográfica, de Massimo Gramellini. A roteirização aqui foi extremamente complexa, porque buscamos identificar os temas mais importantes. Levamos mais ou menos um ano nesse trabalho.
Havia também o desafio de encontrar os intérpretes infantis. Isso é sempre difícil. Em crianças, não há essa transformação, mediante técnicas de interpretação, de que atores adultos são capazes. Tínhamos que achar aqueles que, sendo eles mesmos, servissem à história que queríamos contar.
As filmagens levaram em torno de 10 semanas. Filmamos na Itália, na Bósnia. A casa da família, que era um cenário importante, foi construída num set, de modo bastante fiel à casa do próprio Massimo, que visitamos. O estádio de futebol de Turim foi reconstruído digitalmente. E a primeira versão do filme tinha bem mais do que as duas horas que, afinal, ficaram.
Nossa intenção era estar muito próximos dos personagens. A História está ali presente, mas um pouco recuada – o escândalo do “Tangentopoli”, o desmoronamento dos partidos políticos, a guerra da Bósnia. Na infância do protagonista, a TV é uma influência fundamental. Na época, era sagrado passar algumas horas por diante diante da TV e ainda havia poucos canais. Belfagor, o seriado a que ele assiste, era muito popular na Europa, não só na Itália, e materializa a descoberta final do protagonista (em relação à mãe). E o programa de auditório de Raffaela Carrà é citado no livro dele.
 
Sobre o curta “Pagliacci”
O curta foi realizado em Bobbio, que é uma cidade onde eu sempre passava férias quando menino e em que participo muitas vezes de um projeto chamado Fare Cinema. Este é um curta que realizei, então, juntamente com jovens cineastas desse projeto. Ali também se realiza anualmente um festival, em que se se mostram filmes que às vezes passaram despercebidos pelo público.
Geralmente, o projeto consiste de um curso de verão. Mas, neste momento, pensa-se em ampliá-lo para um ano.
 

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