Entrevistas

De música em música, Kleber Mendonça Filho, Sonia Braga e elenco falam de “Aquarius”

Publicado em 01/09/16 às 15h03

 
Por Nayara Reynaud
 
Durante seus 13 anos como crítico, Kleber Mendonça Filho desenvolvia em paralelo a sua verve de cineasta, produzindo vários curtas até conseguir realizar o seu primeiro longa de ficção, o aclamado O Som ao Redor (2012). “Admito que, como crítico, eu lutava para ver o cinema que eu gostaria de ver, que é uma das coisas mais egoístas que um crítico pode fazer. Mas se você voltar para os anos 60, 50, com a Nouvelle Vague: Resnais, Truffaut e Godard, eles todos fizeram isso. Então, por causa deles, eu não me sinto tão culpado”, revela o diretor pernambucano na coletiva de imprensa, realizada na última segunda (29-8) em São Paulo, de Aquarius, sua nova oportunidade de fazer o cinema que tanto queria assistir.
 
Não se trata de uma obra qualquer. O encontro em Cannes, no ano passado, com o produtor Saïd Ben Saïd, que tem “olho para o cinema de autor” e trabalhou com Brian De Palma, Paul Verhoeven, Roman Polanski, David Cronenberg e Walter Hill, permitiu que a produção fosse filmada já em 2015 e selecionada para a disputa da Palma de Ouro na edição deste ano. Foi justamente a partir de Cannes, onde a equipe e o elenco realizaram um protesto contra o processo de impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff, considerando-o como golpe, que o cineasta se deu conta de que fez um “filme controvertido”.
 
No meio de tantas polêmicas, ele enxerga o lado bom, pois o longa “está muito quente e é bom que esteja estreando logo nesta quinta, e que as pessoas vão poder discutir vendo o filme”. Foi o que os jornalistas fizeram com o diretor e parte do elenco durante a coletiva, cujos principais pontos estão detalhados abaixo, junto de algumas músicas da marcante trilha sonora de Aquarius, que vai de Villa-Lobos a Aviões do Forró, para delinear a memória afetiva de cada vinil de Clara, encarnada com maestria por Sonia Braga, protagonista da trama.

Um Jeito Estúpido de te Amar – Maria Bethânia
“E de dizer coisas que podem magoar e te ofender”. Kléber diz saber bem disso e, quando perguntado por um repórter sobre a maior mentira publicada sobre o filme, afirmou ser a acusação de que foram a Cannes ganhando 500 euros por dia. Destacando que a maior parte da imprensa foi muito justa com a produção, que sofreu ataques pelo posicionamento político manifestado no festival francês, o também jornalista reforça que é necessário “tentar entender o que é jornalismo”, especialmente hoje em que ele pode existir em um blog, site, na grande mídia e até nas redes sociais, onde os boatos são mais facilmente disseminados.
 
Sentimental Demais – Altemar Dutra + Sufoco – Alcione
“Eu sei o filme que eu fiz. Tinha em mente questões de tabu de imagem, relacionadas a sexo. Aquarius não tem nenhuma cena de violência física, mas três cenas de sexo encaixadas dentro da narrativa” explica o cineasta, que não acredita que estas sequências mereçam a classificação indicativa de 18 anos – para se ter uma ideia, a “censura” foi para menores de 12 anos. Citando Boi Neon (2015), Para Minha Amada Morta (2015), Tatuagem (2013) e Bruna Surfistinha (2011) como exemplos da safra recente de filmes brasileiros que trabalham o tema de forma muito mais franca, ele foi incisivo ao declarar: “Eu não acho que Aquarius mereça estar na mesma categoria de Ninfomaníaca [2013], Love 3D [2015] e Calígula [1979]. E as interpretações do porque disso, as mídias e as redes sociais já estão interpretando tanto que eu, francamente, não sei o que dizer”.
 
Questionado se cogitou fazer alterações no corte do filme para se adequar à classificação, ele negou, pois se fizesse algo mais brando, não seria o mesmo filme. “O máximo que eu pensei foi na cena da orgia foi colocar um palhaço em cima”, revela sobre a preferência em usar este recurso do que cortar as cenas. Sem saber o futuro das políticas de incentivo, disse ser preciso observar mês a mês, pois não seria possível adivinhar, um ano atrás, durante as filmagens, o que estaria acontecendo agora. Porém, atestou que “momentos de tensão em um país geram reações, que são reações artísticas”.
 
Já o ator Humberto Carrão, que em seu primeiro longa teve a chance de trabalhar com o diretor cujos curtas tanto admirava quando cursava Cinema, preferiu uma postura mais combativa para falar da atual situação do país. “Particularmente, acho que os Diegos [nome de seu personagem, neto do dono da construtora que deseja demolir o edifício Aquarius para dar lugar a outro empreendimento] não aguentaram perder as últimas eleições e arranjaram uma forma de tomar o poder e os Aquarius já estão sendo destruídos, com direitos de minorias indo embora”.

Another One Bites the Dust – Queen
Quando o filme abre com a cena do carro e a música do Queen – que também conta com Fat Bottomed Girls na trilha – confere a ambientação daquele início da década de 1980, vem à mente de Sonia Braga: “‘Que mulher linda!’, aí eu lembro que ela sou eu”, brinca a atriz sobre a beleza de Bárbara Colen, que com um cabelo à la Elis Regina, interpreta Clara mais jovem.
A estrela, que chegou a visitar o set no dia da gravação “oitentista”, também foi levada, em uma das perguntas, a relembrar seu passado, quando morava em São Paulo, cidade onde a maringaense cresceu. Em certo ponto do longa, sua personagem dispara a inesquecível frase: “Quando a gente não gosta é velho, quando a gente gosta é vintage”. E a intérprete acredita que o filme fala sobre “o valor da nossa própria história” e de como isto era mais importante décadas atrás. Tendo o centro do Rio de Janeiro como exemplo desta desvalorização, ela conclui que “quando você destrói um prédio, você está destruindo um pouco daquele bairro”.

O Quintal do Vizinho – Roberto Carlos
O carioca Carrão viu este mesmo processo acontecer em sua cidade agora com as obras para a realização das Olimpíadas e as consequentes desapropriações na Vila Autódromo e considera que “o problema é quando, em nome de um progresso, você ignora o espaço, o afeto, a memória”. Sobre esse processo, o ator vai ainda mais longe, manifestando que é este “projeto de sociedade que nega o que há de mais incrível que é o encontro, do novo com o velho, do masculino com o feminino, do preto com branco, do pobre com rico; e esses Atlantic Plaza Residence’s [nome que Diego queria dar ao novo empreendimento] negam exatamente isso”.
“Esse tema é recorrente no meu trabalho”, disse, por sua vez, Kleber, ao ser questionado pela reportagem do Cineweb sobre como ele voltava à discussão sobre o espaço urbano que abordou em O Som ao Redor e se tornou um marco neste debate tão pulsante no cinema nacional contemporâneo, vide os pernambucanos Praça Walt Disney (2011) e Amor, Plástico e Barulho (2013), os paulistas Obra (2014) e De Onde Eu Te Vejo (2016) e o carioca Mate-me Por Favor (2015), entre outros. Recordando que já falava do assunto em Paz a Esta Casa, seu curta de 1994, disponível no YouTube e nos extras do DVD d’O Som..., o diretor acha natural que os artistas toquem neste tema e não acredita que esses filmes vieram de seu elogiado début.
 
“Acho que faz parte de um movimento conjunto de se sentir mal com a vista em cidades grandes. Então, é como se todo mundo enxergasse a mesma paisagem, incomodado também”, formula Mendonça, que frisou a importância do movimento Ocupe Estelita na cena pernambucana. O cineasta, cujo próximo filme, Bacurau, será realizado junto com Juliano Dornelles, seu diretor de arte em Aquarius, vê com bons olhos a produção brasileira atual, apontando a necessidade da coexistência do cinema comercial e dos filmes autorais. Cita Marco Dutra e seu recente trabalho, O Silêncio do Céu (2016), exibido agora em Gramado, como exemplo desta nova geração, mais nova que a dele e de Anna Muylaert, que traz essa diversidade de gêneros e também de produção regional.
 
Recife, Minha Cidade – Reginaldo Rossi
Se Recife é sempre uma personagem capital nas obras de Kleber, uma das razões é sua predileção por gravar em locações e não em estúdios. Outra é a preocupação em transmitir de maneira fiel a realidade que vê do que “esterilizá-la” na tela. “A gente vê esses filmes em que parece que a casa da pessoa é um mostruário da Tok&Stok”, brinca, dizendo gostar quando o cinema, no canto da sala de um cenário, traz um elemento de identificação. “Você reconhece o realismo do filme dentro de pequenos objetos, ações ou palavras”, acredita.
Mas seu estado possui certas idiossincracias que o intrigam e chamam a atenção de sua câmera. “Pernambuco tem certa tendência a ter uma espécie de aristocracia de esquerda, que tem várias ideias liberais, mas na hora de tratar a empregada, volta todo aquele nosso DNA do engenho de cana-de-açúcar e eu observo isso com certo fascínio” explica o diretor, para compreender a construção de sua protagonista. Colocando como contraponto a fragilidade vista no simpático O Milagre Veio do Espaço (1987), comédia hollywoodiana em ET’s vêm ajudar os moradores de um pequeno prédio em Nova York que será derrubado, ele esclarece a sua opção: “Sempre achei que ela [a Clara] seria mais forte se fosse uma burguesa tranquila e não de ostentação e acho que, quando confrontada pela construtora, isso seria mais interessante: ela não precisa, ela simplesmente não quer vender o apartamento”.
 
Pai e Mãe – Gilberto Gil
Desde o roteiro, a canção estava no filme, curiosamente em um momento de encontro de gerações entre Clara e Julia, a namorada carioca do sobrinho vivida por Julia Bernat. Talvez porque a relação da protagonista com sua filha seja bem conturbada. Ainda assim, Maeve Jinkings, intérprete de Ana Paula, é fascinada pelo personagem da mãe e foi uma das razões para ela entrar no projeto, além da potência do filme, cujo discurso ela compartilha, e pelo fato, é claro, de filmar entre amigos. “Voltei a trabalhar com o Kleber em um momento importante. Tive um reencontro com uma equipe que se tornou também um grupo de amigos. (...) E no momento que eu volto pra Aquarius e, portanto, para esse núcleo criativo e afetivo, eu estava justamente dando um passo novo na minha vida, que era fazer televisão. Enfim, isso é sempre, de alguma forma, assustador. Filmei Aquarius justamente quando estava começando a fazer a novela”, relembra a atriz, que após o sucesso de O Som ao Redor, no qual participou do elenco, já esteve em vários filmes e estreou na TV em A Regra do Jogo (2015-2016).

Hoje – Taiguara
 “Eu estava com Eduardo Serrano na montagem, fazendo experiências: ele abriu, eu acho, o Tidal, o serviço de streaming, e pedi que ele colocasse Nuvem Passageira, que é uma música que marcou minha infância”, recorda Mendonça. Só que a bela canção pop dos anos 70 não parecia ter o clima correto para abrir o filme e principalmente o da sequência final. Logo acima de Nuvem Passageira, o serviço sugeria Hoje do Taiguara. “Quando ele colocou, a gente se arrepiou, porque a música é incrível, é claro, ela tem o clima perfeito; ela é linda, parece um tema de James Bond que nunca foi usado”, enaltece o pernambucano.
 
Nos versos iniciais, “Hoje Trago em meu corpo as marcas do meu tempo”, a canção traz a pungência desta protagonista mais velha, uma aposta aparentemente arriscada. “Acho que o cinema em geral não tem muitos roteiros e filmes com protagonistas mulheres desta faixa etária”, afirmou Emilie Lesclaux, produtora do longa e esposa do cineasta, ressaltando como a ideia errônea de não haver mercado para elas se contradiz com as reações que Aquarius tem recebido, com grande público onde passa. “Eu acho que a mídia ainda trata a mulher como se fosse nos anos 40. Uma mulher de 60 anos [naquela época] era realmente muito velhinha”, enxerga Braga, que não vê a indústria acompanhando esta tomada de posição feminina, já que muitas vezes elas estão em torno do conflito e não à frente dele, no protagonismo.
“Historicamente, o cinema é um ambiente predominantemente feito para, não só por, olhar masculino, hétero e tão obcecado pela juventude e pela mulher objetificada. A gente vive um tempo, agora, em que as mulheres, assim como muitas outras minorias, demandam a sua representatividade, chamando atenção para essa sub-representação”, ressalta Maeve, sendo acompanhada por Julia, que destaca o momento atual, “em que o machismo não está sendo tão tolerado”. Para Bárbara, “é importante que as mulheres tomem a escrita”. Jinkings afirma que o Kleber é um dos raros roteiristas que escrevem personagens femininas muito complexas.

Toda Menina Baiana – Gilberto Gil
 “Quando eu recebi esse roteiro do Kleber, eu fiquei muito impressionada, porque realmente foi o melhor roteiro que eu recebi na minha vida”, declara Sonia, enaltecendo o texto como um presente para qualquer atriz do mundo e que, “imediatamente, se juntou com a minha alma, com meu corpo”. O cineasta por sua vez, troca gentilezas, sem conseguir descrever a sensação de olhar pelo visor da câmera e ver “a Sonia Braga” dentro de seu filme.
 
A encarnação das mulheres criadas pelo baiano Jorge Amado, que alçou fama internacional e fez várias participações em filmes e séries internacionais nos últimos anos, rebate a impressão de que tenha ficado longe daqui, mas fica feliz com a oportunidade de voltar aos holofotes nacionais. Recordando um episódio recente, em que passeava em um shopping em Niterói com a irmã quando foi abordada por uma menina que lhe disse “Acho que te conheço de algum lugar... Você já não trabalhou aqui no shopping, não?”, ela conclui que “se você não está na televisão, não importa se você foi a Gabriela, Dona Flor, Tieta. Então, Aquarius devolveu meu rosto para o Brasil”. Não só por aqui, pois a ótima atuação já lhe rende trabalhos de destaque lá fora, como no spin-off de O Grande Lebowski (1998), que coincidentemente (ou não, para Kleber), é citado na camiseta de uma figurante da cena do riso.
 
Fotos de cena: Victor Juca

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