Entrevistas

Anna Muylaert e sua maturidade artística

Publicado em 19/07/16 às 13h21

Foto: Gleeson Paulino/Divulgação
 
Por Alysson Oliveira
 
Anna Muylaert está ansiosa. Às vésperas do lançamento de seu quinto longa como realizadora, a cineasta – que tem no currículo Que horas ela volta? e É proibido fumar – não esconde a ansiedade de ver o filme nos cinemas e as pessoas na sala. Ela sabe que aquele público que a conheceu na produção estrelada por Regina Casé irá se surpreender – mas aqueles que a acompanham desde o começo da carreira irão encontrar em Mãe só há uma a mesma Anna de B.O.s (filme em baixo orçamento, no jargão do cinema) como sua estreia com o premiado Durval Discos.
 
“Eu queria poder ousar na linguagem, no tema, na câmera. Se você tem um filme mais caro, precisa de um elenco mais famoso, e eu queria, desta vez, contar uma história simples, mas forte”, explica. O longa é inspirado num caso que veio à tona em 2002, quando descobriu-se que um rapaz de 16 anos havia sido roubado na maternidade e agora deveria voltar à família biológica. No filme, Pierre (o estreante Naomi Nero) vive com sua mãe (Dani Nefussi) e irmã mais nova (Laís Dias) na periferia, até que a troca é descoberta e ele deve ir morar com sua família de classe média alta.
 
A questão em que Anna, que também assina o roteiro, está interessada, mais do que a troca de família, é a da identidade. O protagonista está descobrindo o mundo, experimentando sua sexualidade - também gosta de vestir-se com roupas de mulher. “Uns anos atrás, fiquei amiga de gente mais jovem e descobri como a questão de gênero era algo que está em discussão. Gênero fluido é uma realidade da qual conhecemos pouco. E eu quis fazer um filme a partir desse ponto de vista, mas não é um filme para responder questões. É para chutar o pau da barraca”.
 
A cineasta conta que fez bastante pesquisa, até porque ela mesma conhecia muito pouco sobre o assunto. “É tudo novo, e, ao mesmo tempo, são coisas que sempre existiram. Homens que querem se vestir de mulher não é novidade, mas era feito às escondidas, e tudo com muito preconceito”. É no personagem central que ela encontra a figura ideal para discutir todos esses temas. “O jovem simbolicamente quebra a casca. É o símbolo do herói, é a idade de quebrar as regras com o passado”.
 
Não é de hoje que Anna se interessa por essa faixa etária e a coloca no centro de seus filmes. Em Que horas ela volta?, Jéssica – personagem de Camila Márdila – chega para desestabilizar a ordem da casa burguesa onde sua mãe Val (Regina Casé) trabalha. “Aqui é diferente, o adolescente é jogado numa situação que ele não quer, mas não tem como fugir, e precisa se construir como indivíduo em meio a esse caos”.
 
Olhando em retrospecto, Anna comenta que é um tema sempre presente em sua carreira. “A rebeldia juvenil me atrai, desde quando eu escrevia [os programas de TV dos anos de 1990] Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bum, ou a TV Cruj, que quer dizer Comitê Revolucionário Ultrajovem”.
 
Respeitada roteirista de filmes seus e de outros diretores – tem no currículo O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, entre outros – Anna acredita que com Que horas ela volta? atingiu sua maturidade artística. “Tenho meus métodos de filmar e meu set é caótico. Eu gosto disso. E, por mais que eu trabalhe muito no roteiro, quando chega na frente da câmera, não dou diálogo. Quero que os atores inventem ali, na hora, e isso traz um frescor tremendo. Sou capaz de fazer de tudo para tirar o elenco da zona de conforto. Mas esse jeito caótico de filmar só é possível porque tenho um roteiro muito bem-estruturado”.
 
Ela cita como exemplo em Mãe só há uma a cena central que acontece num boliche. “Praticamente não havia falas escritas. A nova família do Pierre estava lá, e os atores sabiam o que eu esperava. O resultado foi uma cena forte, e não era possível filmá-la muitas vezes, porque perderia a naturalidade”.
 
Quando fala de Que horas ela volta?, Anna sabe da importância do filme para sua carreira e o cinema brasileiro. “Era um filme pequeno para falar de um assunto gigante. Era preciso ter maturidade para isso. Era uma produção maior do que eu estava acostumada, com um potencial muito grande. Eu fico feliz que o filme tenha tido tanta repercussão, e tenha sido visto por tantas pessoas. A bilheteria oficial é de cerca de 400 mil ingressos, mas eu sei que foi visto por muito mais gente, na internet, na televisão, em todo lugar, e isso me deixa muito feliz”.
 
Apesar de ter ficado de fora dos finalistas no Oscar de filme estrangeiro, o longa rendeu a Anna outros prêmios – como em Sundance – e um convite para fazer parte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. “Quando o email chegou, eu achei que era trote. Mas depois me certifiquei e entendi o porquê. Eles querem mais diversidade entre os votantes, e muita gente viu meu filme e me indicou”.
 
Anna, no entanto, admite que não recebeu convites para filmar fora do Brasil - “Existe um machismo muito grande. Se eu fosse homem, já teria sido convidada” – e não descarta a possibilidade: “Depende muito do projeto, da história que será contada”. E adianta que existem projetos de refilmagem de Que horas ela volta? nos Estados Unidos e na Índia. “Eu adoraria ver uma Val indiana”.
 
Mãe(s) e Filho
 
Anna chegou a Naomi Nero, o protagonista de seu filme, por meio de testes. “Eu queria gente jovem com frescor, inexperiente e com vontade”, conta a diretora, e acrescenta: “O Matheus Nachtergaele [que faz o pai biológico de Pierre] é veterano, mas tem um quê de ‘jovem inexperiente’, exatamente como eu queria”.
 
Já Dani Nefussi, que havia trabalhado com a cineasta em É Proibido Fumar (ela faz a irmã caçula de Gloria Pires), estava escalada para outro papel, mas acabou, no final, interpretando (graças a caracterizações bem diferentes) as duas mães. “A ideia da mesma atriz fazendo dois papeis é uma brincadeira com o título, mas também com a percepção de Pierre. Como assim, duas mães?”, explica a diretora.
 
“Era como se eu fizesse dois filmes, mas construí as duas personagens com a percepção das semelhanças”, explica a atriz. “A maternidade é um tema forte, e o que une essas duas mulheres é o amor pelo mesmo filho”.
 
Naomi chegou ao filme por meio de testes, e tinha mais ou menos a mesma idade do personagem e os mesmos questionamentos. “A questão da identidade é muito forte na adolescência. E eu encontrei no Pierre uma explosão que eu também tenho, mas sou mais introspectivo do que ele”.
 
Dani e Nero concordam em uma coisa: o set de Anna é muito favorável ao elenco. “Eu percebo que ela amadureceu muito em seu trato com o ator”, comenta a atriz, comparando seu trabalho com a diretora no filme anterior. “E, na hora de filmar, ajuda muito o fato de ela ser a diretora e a roteirista. Por mais que ela dê liberdade para criarmos, também nos dá segurança. Mas, para trabalhar com ela, é preciso ser um ator que goste de improvisar”, observa Dani. “Eu tinha uma ideia de que seria diferente, algo menos livre. Fui surpreendido de forma bem positiva”, confessa Nero, que tem formação teatral e estreia no cinema com esse trabalho.

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