Entrevistas

Mesmo personagem, novos tempos: Bill Pullman fala de "Independence Day"

Publicado em 24/06/16 às 19h00

 Por Nayara Reynaud

“Welcome Mr. President!”. É assim que os brasileiros, fãs ou que tem uma boa memória de Independence Day (1996), costumam recepcionar Bill Pullman toda vez que ele vem ao país. O ator já esteve em Manaus para fazer parte do júri do Amazonas Film Festival de 2006 e, no Rio de Janeiro em 2008, rodando o filme Rio Sex Comedy (2010) – quando sua principal lembrança foi ter visto 43 sósias do Obama reunidos em um programa de TV.
Agora ele volta ao Brasil, acompanhado do filho Lewis Pullman, para divulgar o lançamento de Independence Day: O Ressurgimento e participar da estreia especial da sequência no Allianz Parque, em São Paulo, realizada nesta quinta (23). “Nunca estive em um evento como este”, relata o ator, não muito afeito a ir a estádios e que foi ao Super Bowl só neste ano, em entrevista concedida antes da sessão na arena para cinco mil pessoas, que ele estava ansioso para ver.
 
Na coletiva de imprensa da exibição especial, porém, um dos principais temas que abordou com os jornalistas foi o fato de reencontrar um personagem pela primeira vez, pois nunca havia feito nenhuma sequência antes. “Tem algo no primeiro Independence Day que eu temia se ia desaparecer no segundo, que é a conexão do público com os personagens”, ele disse, afirmando ter adorado repetir o papel de Thomas Whitmore, agora ex-presidente. “É praticamente um novo personagem. Vinte anos atrás, era um líder de massas, um guerreiro, e agora, vinte anos depois, você percebe o trauma que ele passou”, observa o ator que, pela capacidade de Whitmore de não reagir exageradamente frente a situações difíceis, acredita que o mesmo encorajaria uma atitude igual dos atuais candidatos à presidência dos Estados Unidos.
 
Por isso, quando o diretor Roland Emmerich disse a ele “Você tem que ter uma bengala”, Bill se perguntou o porquê, pois Thomas não tinha machucado as pernas. Para entender a nova situação, ele teve que investigar e ver no personagem, além de insegurança, uma incapacidade em seu equilíbrio por causa do trauma. Porém, a partir do momento que o mundo percebe que seus alertas estão certos, ele se sente mais confiante e se livra dessa condição física, tornando-se cada vez mais saudável.
 
“Shakespeare disse que o gênio de lunáticos, apaixonados e poetas tem em seu pouco de loucura uma grande verdade que, nós, pessoas normais, não conseguimos ver. E Whitmore, em sua loucura, realmente vê o mundo mais claramente do que as pessoas normais, porque ele diz que os alienígenas estão voltando, eles não acreditam e isso acaba acontecendo”, defende o intérprete que, quando questionado pela reportagem do Cineweb se reprisaria o papel em um próximo filme, brincou respondendo: “Gostaria que você falasse com a Fox”. Mas desconversou.
 
De qualquer modo, Pullman se mostra bastante protetor da franquia, após ouvir tantas críticas de amigos e em festivais de que o primeiro longa era estúpido por fazer da destruição do mundo uma diversão ao público – que, por sua vez, não se preocupou com isso, ele frisa. Na sua visão, ID criou um estilo de narrativa que serviu de exemplo para outros filmes, como as adaptações de histórias em quadrinhos e o mercado de ficção científica, que não existia quando ele era jovem e saía das matinês como se ainda estivesse dentro dos faroestes de John Wayne que assistia, e agora atingiu um nível de sofisticação das histórias que ele chama de “insano”.
 
Este avanço também pode ser visto na diferença de tecnologia. “No primeiro filme, talvez 80% foi rodado em sets e 20% em CGI [computação gráfica], feitos em um estilo mais antigo. Neste, foram 85% CGI e 15% em sets construídos”, ele compara, descrevendo as filmagens no deserto no México, onde havia grandes fundos azuis, como paredes e teto, para inserção dos elementos dos efeitos visuais. Essa “coisa nova”, como diz, o fez sentir no teatro, onde só há os atores para interagirem, o que parece mais íntimo do que estar cercado por “coisas reais”.
 
Mas no meio do desafio maior desta sequência, com mais personagens e tramas para contar, Bill, o diretor e os roteiristas sentiram a necessidade de uma lembrança do grande discurso do seu presidente no longa de 1996 e a falta de uma cena em que ele e o personagem de Jeff Goldblum, o especialista David Levinson, se cruzassem. Por isso, eles fizeram um pequeno momento de reencontro dos dois, com uma conversa pessoal que acaba atraindo, cada vez mais, todos que estão no cenário e se transforma em um discurso de encorajamento.
 
Outra preocupação do ator era que se mantivesse a importância da relação do seu personagem com a filha. “Lembro que na primeira vez que me encontrei com Roland [Emmerich], nós estávamos falando do roteiro, dos ajustes e fiquei pensando sobre essa atriz interpretando a minha filha, a Maika Monroe, e em quando poderíamos estabelecer esta conexão. Porque em filmes como este, em que a história vem antes do personagem, você tem que fazer esta ligação muito rápido. No entanto, quando encontrei Maika, nós logo tivemos uma boa conexão”, relembra, elogiando como a generosidade da atriz que interpreta Patricia Whitmore, assim como de Liam Hemsworth e de todo o elenco jovem para construir aquela relação.
 
Por isso, ele até chegou a lamentar o corte de algumas cenas ao ver a edição final da produção, no último domingo, um sentimento de pesar que diz ser comum a todos os atores. “Queria que durasse mais tempo uma cena entre eu e minha filha no carro, logo no começo da história, que estabelece todas as referências que aparecem na nossa conversa no final do filme, quando ela está voando ao meu lado. Mas talvez os espectadores sejam mais espertos e rápidos do que pensei e não precisem deste tipo de exposição”.
 
Contudo, mais do que reforçar a importância da superprodução no gênero, Pullman exalta a ideia defendida pela obra. “Talvez outros atores não concordem comigo, mas Independence Day tem uma qualidade especial que é um senso de grande amor à humanidade”, diz ele, referindo-se ao pensamento de superar as diferenças em momentos difíceis. Bill, que chegou a brincar com o visual de um dos repórteres presentes para falar de como ama o fato de o Brasil abrigar tipos tão diferentes, acredita que isso é um dos fatores que levaram o público brasileiro a entender tão bem a mensagem do primeiro filme. Por isso, ficou tão feliz de fazer a divulgação do novo Independence Day: O Ressurgimento aqui, pois espera que a mesma receptividade se repita.
 
Indagado se a mensagem de união da humanidade seria mais difícil de ser transmitida agora do que nos anos 1990, comentou que “ironicamente, o Reino Unido está para se separar da União Europeia [algo que se confirmou com os resultados do referendo hoje] e essa ideia de nações se juntando pode ser muito desafiadora. Mas talvez este seja o melhor momento para vir a sequência, mais apropriado do que o primeiro”. O ator também revelou grande preocupação com a mudança climática no planeta: “Não podemos fingir que não existe”. Ele considera esta ameaça ainda maior do que o terrorismo, embora alerte para o crescente nível de terror sentido por ocasião do 11 de setembro e agora. “Precisamos manejar nossos medos e não deixar que eles nos levem em direções que nos tornem menos livres e vítimas do nosso medo”, adverte.

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