Entrevistas

"Campo Grande pode ser em qualquer lugar", diz Sandra Kogut

Publicado em 01/06/16 às 15h49

 
Por Alysson Oliveira
 
Em seu terceiro longa – segundo de ficção –, a cineasta Sandra Kogut volta novamente ao universo infantil, como no filme anterior, Mutum (2007). Aqui, no entanto, trabalhando a partir de um roteiro assinado por ela e Felipe Sholl, aborda a cidade grande. O que aparece em Campo Grande é um Rio de Janeiro em constante transformação, o que influencia a vida de duas crianças – interpretadas por Ygor Manoel e Rayane do Amaral –, que são deixadas pela mãe na porta do prédio de Regina (Carla Ribas) com o nome dela escrito num pedaço de papel.
 
Nesta entrevista, a diretora fala sobre o processo de criação, o quanto de Mutum há em Campo Grande, e de como trabalha com crianças, entre outros assuntos. Confira abaixo:
 
Como veio a ideia para fazer o filme? Qual a gênese do projeto?
No meu filme anterior, Mutum, tinha uma cena onde a mãe entregava seu filho querido para um desconhecido, na esperança de estar dando a ele a chance de uma vida melhor. Eu achava que conhecia essa história, que a gente ouve tanto no Brasil, mas na hora de filmar percebi como era difícil e complexo tentar entender essa situação por dentro, emocionalmente. Foi a cena mais emocionante do filme, e essa questão não me saiu mais da cabeça. Pensava: e o que acontece com essas crianças? A partir daí, comecei a pesquisar em abrigos, colher histórias, e assim foi nascendo Campo Grande. Ao mesmo tempo, o Brasil passava por um processo de grandes transformações, obras gigantescas, mudanças nas relações sociais. São muitos lados de uma mesma história.
 
Que tipo de pesquisa você fez para construir o filme, as personagens? Qual contato você tinha com Campo Grande?
No inicio, pensava num bairro da periferia do Rio, que poderia ser qualquer um. Escolhi o nome Campo Grande porque acho lindo. Evoca um assunto central do filme: um campo vasto, um território desconhecido, amplo, lugar de todos os possíveis, bons e maus. Resolvi voltar a essa parte da cidade, que não visitava fazia anos, e vi que ali a transformação que vivíamos no Brasil estava em plena ebulição. Pipocavam condomínios, shoppings, tapumes de obras, convivendo lado a lado com lugares abandonados, terras sem lei. A partir daí, continuei escrevendo pensando em lugares concretos, cenas que vi, gente que conheci.
Mas quero frisar que esse lugar desconhecido, às vezes assustador, esse Campo Grand,  pode ser em qualquer lugar, e cada um tem o seu. Para as crianças, o Campo Grande deles é Ipanema.
 
O universo infantil – tanto em Mutum, quanto aqui – parece ser o centro dos seus interesses. Quais são as vantagens e complicações em colocar crianças como o foco narrativo de um filme?
Acho que a infância tem algo de muito cinematográfico. Uma fase pré-verbal, onde as emoções são em estado bruto. Uma maneira de perceber o mundo que é muito sensorial. Muitos questionamentos sobre tudo e todos, os códigos ainda se definindo. O cinema oferece muitas ferramentas par lidar com esse tipo de olhar, que é fascinante. E as crianças trazem uma injeção de vida, muitas vezes.
Mas não planejei fazer dois filmes seguidos com crianças. Um filme acabou levando ao outro. Agora estou trabalhando num filme com velhos. Acho que sinto atração por quem está nas pontas, nas beiras. É um lugar onde o olhar é sempre mais agudo, imprevisível.
 
Como foi a seleção e preparação do Ygor Manoel e da Rayane do Amaral?
Tive a sorte de encontrá-los bem rápido , mas a própria seleção e preparação são processos, longos e muito importantes. Cada filme tem o seu jeito de ser feito, que é só dele, e descobrir isso já é um bom caminho andado no fazer de um filme. Quis procurar crianças que nunca tinham feito cinema. Depois foi importante sentir como eles podiam se relacionar uns com os outros. Também sempre procuro pessoas (atores ou não) que tenham muita coisa em comum com os personagens. Não busco interpretação, composição, busco aquelas pessoas sendo os personagens.
De certa maneira, um filme de ficção é um documentário sobre os atores vivendo o processo de ser aqueles personagens, ao longo do tempo. Eles crescem, mudam. Com as crianças isso talvez seja ainda mais flagrante.
 
Quando você foi filmar, já tinha o roteiro fechado ou houve espaço para improvisação? O que os dois contribuíram – especialmente do universo infantil deles?
O roteiro é o mais longe que você acha que consegue chegar no papel. Mas quando começa a filmar, todo um novo mundo se abre. Aquele mundo inventado vai virando tão real, tão concreto, que as cenas passam a se rearticular totalmente. Não gosto de improviso, acho que isso muitas vezes dilui a tensão dramática de uma cena. Mas acho que o roteiro não deve ser usado como um contrato. Não mostro o roteiro pros atores, não me submeto a ele, ele é um ser vivo, que vai crescendo junto com o filme. Acredito que tem uma hora certa para introduzir as falas. Também gosto de trabalhar muito com os atores sobre o que eles não estão dizendo, mas pensando.
 
O filme tem diversas cenas externas – inclusive em Campo Grande. Que dificuldades você enfrentou nessas filmagens?
Gosto de filmar misturada ao caos da cidade. Nunca fecho ruas, se possível não uso figurantes. Se tiver que usar figurantes misturados na rua, peço que não me digam quem é quem. Acho que a realidade já é tão rica, gosto de injetar a ficção dentro dela. Claro que filmar assim é sempre uma aventura. Mas acho que como uma equipe temos que ser imperfeccionistas. Trabalhar muito para na hora estar prontos para receber o que não podíamos prever, os acidentes. E conseguir usá-los.
 
O que sua experiência como documentarista te ajuda quando faz uma ficção?
Em muitos pontos não vejo diferença. Seja no documentário, seja na ficção, estou sempre buscando a necessidade de um personagem de dizer uma fala. Criar essa necessidade, me relacionar com ela. Crio uma necessidade emocional, dramática para os atores. Mas no documentário também trabalho com situações, somos todos personagens, inclusive eu. Um filme tem a sua verdade interna, e é ela que conta. Todo filme é uma construção.
 
Como o filme tem sido acolhido nas exibições fora do Brasil?
Muito bem! Já ganhamos vários prêmios, e tivemos recepções tão calorosas de público e critica! O filme trouxe muitas alegrias. Agora é a hora do Brasil. Mas a recepção tem sido muito boa, emocionada, calorosa.

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