Entrevistas

Ugo Giorgetti e São Paulo como personagem: “Essa cidade muda de modo constante e brusco”

Publicado em 25/05/16 às 10h36

 
Por Alysson Oliveira
 
Em suas quatro décadas de carreira, Ugo Giorgetti se consolidou como um cronista da cidade de São Paulo. Seus filmes combinam um humor e uma melancolia que lhes são peculiares no retrato dos habitantes, seus costumes e idiossincrasias. Em seu mais novo trabalho, Uma Noite em Sampa, coloca como protagonistas um grupo de turistas endinheirados que, por conta do sumiço do motorista do ônibus, passam a noite na rua, na região da Bela Vista, em frente ao Teatro Ruth Escobar. Desse incidente, nasce um olhar curioso e perspicaz da tensão de classes na São Paulo contemporânea. O elenco inclui nomes da cena teatral paulistana, como Flavia Garrafa, Cris Couto, Sergio Mastropasqua e André Correa.
 
Nessa entrevista, fala sobre as filmagens e sua relação com a cidade.
 
 
 
Como surgiu a ideia de fazer Uma Noite em Sampa?
Acho que surgiu de várias razões. Entre elas uma sensação que me perseguia há muito tempo, isto é, há espalhado por São Paulo um medo generalizado e paralisante. Um medo que, às vezes, é real e muitas vezes puramente imaginário. Pensei em criar uma situação que exemplificasse isso. Também havia a ideia de fazer um filme extremamente barato, isto é, um filme que se passasse, por exemplo, num único lugar, que permitisse uma filmagem rápida.
 
O elenco todo vem de atores e atrizes de teatro. Como foi feita a escolha? Como foi trabalhar com eles?
Ator de teatro está sempre pronto para ensaiar, uma das minhas exigências para poder filmar em pouco tempo. Além disso, muitos do elenco, já tinham filmado comigo, outros já conhecia de espetáculos. Trabalhar com eles foi magnífico Jamais vi uma equipe trabalhar em horário e clima tão desfavoráveis e colaborar tanto e tão alegremente.
 
O filme se passa inteiramente à noite e num lugar aberto e público: quais as dificuldades que o senhor encontrou para a produção e filmagens? E as vantagens?
Como mencionei na resposta anterior, a temperatura não era favorável. Filmamos no fim de julho e começo de agosto, num horário era atroz. Começávamos às 11 da noite e terminávamos às 5 da manhã. Mas isso não trouxe, em razão do profissionalismo do elenco, nenhuma dificuldade, ao contrário. A vantagem foi que fizermos o filme, com a qualidade técnica que eu pretendia, em 11 noites de filmagem, com um orçamento bem abaixo do que é classificado em editais públicos como Filmes de Baixo Orçamento.
 
Como foi o trabalho com o diretor de fotografia, Walter Carvalho, no sentido de evitar que o filme fosse totalmente escuro – por se passar à noite – mas também sem uma claridade artificialmente exagerada que fizesse perder a “sensação” de noite?
Discutimos bastante, como de hábito. Acho que o clima fotográfico é muito eficiente. Na verdade, o começo do filme é quase alegre e brilhante e, na medida em que a noite avança, porém, se torna mais áspero, terminando quase num filme em branco e preto. Mas isso acontece gradativamente, como o frio da madrugada. Walter Carvalho é um fotógrafo muito talentoso, com que comecei a trabalhar há mais e 40 anos. Nos damos muito bem.
 
E os manequins em cena: porque o senhor escolheu trabalhar com eles para alguns personagens?
Na realidade, a meu ver, eles SÃO personagens. Os atores que contracenam com eles não os tratam como manequins. São apenas gente submissa, que não tem o quem dizer. Conheço muita gente assim, muitos casais, inclusive.
 
O senhor sempre fez filmes em São Paulo, e sobre São Paulo, como avalia o papel da SPCine, criada recentemente, comparativamente?
Uma noite em Sampa não contou com a participação da SP Cine, na produção. O filme é anterior a ela. Mas acho que fará muita diferença, e pode se tornar vital para o cinema de S.Paulo. Mesmo no caso de Uma noite em Sampa a SPCine participou na distribuição e foi muito útil.
 
A cidade de SP, aliás, sempre tem um papel importante nos seus filmes. Como o senhor avalia as mudanças nela de quando fez, por exemplo, Sábado e Festa para agora?
Essa cidade muda de modo constante e brusco, a maioria das vezes para pior. O essencial, no entanto, permanece: uma cidade áspera, hostil, de uma constante guerra de classes e desigual como talvez nenhuma outra que eu conheça. 

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