Entrevistas

Diretor e atores discutem fronteira entre comédia e drama em “De Onde Eu Te Vejo”

Publicado em 07/04/16 às 10h08

 
Por Nayara Reynaud
 
Uma das afirmações destacadas em De Onde Eu Te Vejo, de que as melhores comédias são as tristes, diz muito sobre a essência do próprio longa de Luiz Villaça. Remetendo a Charles Chaplin, o cineasta acredita que “um grande drama de perto, pode ser uma boa comédia de longe” [originalmente, o diretor e intérprete do Carlitos disse que “a vida é uma tragédia quando vista de perto e uma comédia quando vista de longe”]. Por isso, declara que seu filme foi feito para se comunicar com o público: para fazer rir, se emocionar e “pra você sair do cinema e dar um beijo no seu namorado”, brinca.
 
Para encontrar este equilíbrio de emoções, ele buscou inspiração em Billy Wilder, a quem cita explicitamente quando Fábio, personagem de Domingos Montagner, assiste, em seu notebook, a Se Meu Apartamento Falasse (1960). O próprio Chaplin, Ettore Scola e seus amigos italianos Federico Fellini e Mario Monicelli também balancearam drama e comédia, servindo de exemplo, assim como Woody Allen e seu jeito único de filmar Nova York. Aliás, o diretor confirma a sua homenagem à sétima arte aqui; vide a inserção do Marabá, icônica sala de cinema do centro de São Paulo reaberta há seis anos e uma das poucas que podia ser usada nas gravações. “O cinema tem essa força de fazer você repensar a sua vida”.
 
Montagner também destaca a qualidade da comédia italiana para tocar em assuntos sensíveis através do humor, ingrediente capaz de tornar um personagem crível. O ator crê que drama e comédia são “complementares, pois o exercício de um passa pelo outro”, enquanto sua colega de cena, Denise Fraga, que encarna sua ex-mulher Ana, cada vez mais odeia essa divisão entre os gêneros. A atriz cita Antunes Filho, que disse, certa vez, que “o comediante faz muito bem o drama porque sabe bem a música”, para explicar esse conhecimento profundo do timing e sua preferência por esse terreno do meio: “É fazer uma pessoa que está com olho cheio d’água dar uma gargalhada e uma pessoa que está rindo dar uma travinha”.
 
Foi para Denise, aliás, que o filme começou a ser escrito, explica o marido Villaça. Para fazer companhia à parceira de tantos anos na vida e nas artes, ele logo pensou no Domingos, já que acompanhava sua carreira desde o Circo Zanni. No casting, o diretor também contou com Marisa Orth, com quem trabalhou em seu primeiro longa, Por Trás do Pano (1999) e por quem se diz encantado, além de fazer homenagens colocando “o Juca [de Oliveira] como um guardião do cinema, o Fúlvio [Stefanini] numa cantina e a Laura [Cardoso], que é um mito das artes no Brasil, como uma senhora solitária”. Luiz frisa que na turma de amigos que é seu elenco, todos vêm da comédia, pois ele acha que “os comediantes são os grandes atores”.
 
As pessoas na janela e as janelas da cidade
“Esse casal que precisou se ver de longe pra se ver de perto”. É assim que Denise define o processo pelo qual Ana e Fábio passam com a separação, sem deixar de observar a comicidade que permeia situações como esta: “Nós somos mesmo ridículos nessa falta de percepção de nós mesmos”. Considerando que o casamento é um “grande exercício de escuta e de observação de quem está do seu lado”, Domingos enxerga nos personagens, um amor muito sólido e verdadeiro. Mas como a angustiada mulher tem “mania de mudança”, segundo a própria atriz, a relação de 20 anos chega ao fim no momento em que a vida mostra que muda naturalmente.
Por outro lado, se não fosse a química tão natural entre os atores, o casal não transmitiria tanta sinceridade, nem a família funcionaria tão bem. Fraga, que já interpretou a mãe de Manoela Aliperti em 3 Teresas (2013-2014) – que poderá ter uma 3ª temporada, segundo Luiz –, ficou com medo de um replay das personagens Tetê e a Teresa de novo em cena, mas logo se tranquilizou. “É tão bonito ela, tão jovem, não se repetir. Fazemos outra mãe e filha”, elogia a atriz, que considera Manu uma pérola.
 
Um mês de ensaio ajudou Montagner a criar um laço rápido com a jovem e fez com que a primeira cena que eles gravaram, em que os pais se despedem da filha, que acabaram de deixar em uma república estudantil em Botucatu, passasse tanta credibilidade. O curioso é que a última sequência filmada foi justamente a inesquecível volta para casa de carro dos dois. “Cinema é uma coisa muito louca”, diz Denise, ao falar da necessidade de não perder o fio da emoção nessa ordem maluca e ritmo frenético do set.
 
Contudo, o mais impressionante da produção são seus discretos efeitos especiais, que não são “para aparecer mais do que a história”, declara Villaça. As cenas no interior dos imóveis foram gravadas em estúdio, com o cuidado dos 16 metros de vão entre os edifícios e, depois os apartamentos foram aplicados nos dois prédios, já que seria inviável parar uma rua durante um mês e meio. Ainda sim, seu maior desafio, junto com Leonardo Moreira e Rafael Gomes, dupla de roteiristas que o acompanha desde suas séries no GNT, 3 Teresas e Vizinhos (2015), foi “fazer uma comédia romântica sentimental” falando de separação, da síndrome do ninho vazio, da crise da mídia impressa e da transformação urbana de São Paulo.
 
A capital paulista é personagem do filme, mas poderia ser qualquer outra cidade grande, segundo o diretor. A escolha se deve ao fato do paulistano ser de família italiana e ter uma relação muito forte e antiga com a megalópole, que adora pela miscigenação. Assim como seu protagonista, também sentiu o fato da maternidade em que nasceu ter ido para o chão, mas Luiz tem uma visão mais otimista da dinâmica do lugar. “Quando fiz O Contador de Histórias (2009), o marido da Maria de Medeiros é um espanhol diretor de arte [Agustí Camps] que teve aqui em São Paulo e, um dia comigo no carro, ele falou ‘Nossa! Como essa cidade é linda!’. Perguntei o que ele achava bonito e ele disse “O movimento, porque eu moro em Paris, que é linda, mas é igual há 500 anos. Aqui, cada vez que eu venho, vejo alguma coisa crescendo; é uma cidade que respira”, relembra o cineasta.
 
Denise vê nesse movimento de construção e demolição um paralelo com a vida da personagem, uma arquiteta que avalia prédios para demolir. Com exceção do misticismo, Ana traz muitas semelhanças com a própria atriz, também uma carioca que mora há quase 20 anos na selva de pedra paulistana. “Quando eu cheguei a São Paulo, era a primeira vez que morava sozinha e achava tudo lindo, aqueles edifícios cheios de fuligem”, recorda Fraga, que declara nunca ter perdido esse olhar de estrangeira para a cidade. “Mas é claro que o Luiz me fez achar São Paulo mais bonita”, brinca.
 
Já Montagner cresceu no bairro do Tatuapé, quando tinha ares de interior nos anos 1960/70. “Então, eu tenho essa história de falar com o outro da janela muito”, confessa o ator, que costumava chamar os amigos assim. Daqueles que brigam quando falam mal da cidade, Domingos acredita que, apesar de vender essa imagem de frieza, a capital paulista é muito acolhedora, pelo que observa dos amigos que mal chegam aqui e “em uma semana já fazem um churrasco”, e se tornou mais humana. Para ele, São Paulo é muitas cidades, cada bairro com a sua cara, e “o filme dialoga com essa qualidade dela, que é ser múltipla e acolher as pessoas”.

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