Entrevistas

O discreto humor de Tim Roth, o carrasco de Tarantino

Publicado em 05/01/16 às 10h45

Visitando o Brasil em novembro, para o lançamento de Os oito odiados, seu quarto trabalho em parceria com o diretor Quentin Tarantino, o ator inglês Tim Roth, que na tela interpreta o carrasco Oswaldo Mobray, esbanjou simpatia e elogios para o cineasta, a cujo primeiro filme, Cães de Aluguel, ele deve seu sucesso e permanência nos EUA há mais de 20 anos. Confira os pontos principais desta entrevista de Roth a um pequeno grupo de jornalistas em São Paulo, incluindo Neusa Barbosa, do Cineweb.
 
Trabalhar num faroeste era seu sonho?
Sempre quis atuar num faroeste. Quando criança, eu assistia na TV The Virginian,  Bonanza, High Chaparral. Minha ideia de um grande faroeste foi sempre Era uma vez no Oeste, Rio Vermelho. Mas eu não era um aficionado como Quentin, ele é doente! Então, havia ocasiões em que um inglês aparecia num faroeste e isso sempre me pareceu meio engraçado. Mas não sabia que teria esta oportunidade agora. Não tinha nenhuma pista. Mas era isso o que ele estava planejando. Achei que ele só ia fazer uma sequência de Django Livre.
 
Quando Tarantino te convida para um filme, ele nunca te conta o que vai acontecer?
Ele meio que fez isso quando me chamou para Pulp Fiction. Não sei em que festival estávamos, mostrando Cães de Aluguel, eu acho. Sei que bebemos um monte juntos numa noite e ficamos acordados até umas 4 da manhã. E ele estava lendo as falas de todos os personagens. Ele não sabia qual dos personagens eu ia fazer, não tinha certeza ainda em Pulp Fiction. Neste filme também, eu não tinha mesmo ideia. Ele apenas me ligou e me chamou para ler um roteiro.
 
Tarantino diz que seus diálogos não são para qualquer ator. Esta é quarta vez que você trabalha com ele. Qual a diferença para você neste aspecto?
Para mim, é fácil, porque é escrito de modo tão brilhante. Quando trabalhamos juntos em Cães de Aluguel, eu me surpreendi, porque não havia improvisação - e isto era realmente desnecessário. Ele tomou conta de tudo para nós, como um ator. Então, não é que seja propriamente fácil, mas (os diálogos) são absorvidos facilmente. Uma das primeiras coisas que ele diz é: “Então, todo mundo aprenda suas falas perfeitamente”. Porque nós não vamos apenas procurar a “boa tomada”. Nós vamos além, pois é lá que a mágica vai acontecer. Este é sempre o caso com ele. E eu não acho difícil, acho um prazer. Mas às vezes, é preciso repetir a fala para pegar direito, porque sua música é muito específica. E eu quero fazer-lhe justiça, porque é material de primeira.
 
Neste filme, há menos flashbacks. É diferente mesmo dos outros filmes dele?
Existem tantos flashbacks quanto necessário para contar esta história. Poderíamos ter feito mais, talvez, mas seria desnecessário. Acho que este é o melhor filme dele, com a versão em 70 mm, a abertura...Seu melhor trabalho, um trabalho incrível.
 
Você achou alguma diferença por filmar em 70 mm?
Sim. Você está aqui no set e a câmera está lá longe e, mesmo assim, você está no quadro. Porque eles usaram as mesmas lentes de Ben-Hur. Foi fantástico. Tornou-se como uma peça, que acho que era o que Tarantino queria. Então, ele podia manter a câmera lá e todo tipo de coisas acontecendo no quadro. Há sempre dois sets de ação, o background e o foreground, mas o background se tornava mais importante. Para nós, os atores, de algum modo se tornava mais fácil, porque era como fazer uma peça, estar no palco. Foi fantástico.
 
Vocês se sentiram numa peça e também tinham que encarregar-se de muitos diálogos. Mas como vocês atores atingiram um ponto de equilíbrio, um ritmo?
Encontramos o ritmo nos ensaios. Ele tinha que nos colocar no ponto, porque queria fazer tomadas longas. Você podia começar por onde ele escolhesse, mas havia um fluxo. Em duas semanas de ensaios, nós tínhamos a peça pronta. Então, ele tinha que pensar em como iria filmar. Nós todos, como atores, queremos mais. Normalmente, quando eu leio um roteiro, eu tento cortar alguma coisa, porque algum trecho não funciona, esse tipo de coisa. Mas, quando você pega um roteiro de Quentin, você apenas quer ficar falando o tempo todo.
 
Quanta liberdade Tarantino dá a vocês atores?           
Com o diálogo, nenhuma, porque realmente você não precisa. Quanto à performance dos personagens, há muita liberdade. Então, ele vai te chamar num canto para sugerir algo e você pode acrescentar outro sabor a isso. Então, você se sente muito livre como ator. O diálogo, você não quer mudar, mesmo.
 
Sentiu muita diferença em trabalhar com ele em seu primeiro filme e neste agora?
Somente no sentido de que ele fez mais filmes, de que se tornou um cineasta melhor. Ele sempre soube muito, mas agora ele sabe ainda mais. Mas agora ele tem o tempo para contar a história, tem o orçamento para contá-la do jeito que pretende, pode conseguir os atores que deseja, porque todo mundo quer trabalhar com ele – você seria louco de não querer! Esta é a mudança. Agora, em Cães de Aluguel você tinha a impressão de que exercia o métier há anos, e que o fazia muito bem. E aquele foi realmente o primeiro que ele fez, porque tinha “feito” tantos outros na cabeça dele, mas este ele realmente conseguiu filmar. E agora ele está chegando ao fim de sua carreira de cineasta. Acho que ele faz mais dois filmes e pronto.
 
De todos os personagens que fez com ele, qual o que mais o entusiasmou desde o script?
O do sr. Orange, de Cães de Aluguel, porque foi o primeiro. Eu acabara de chegar da Inglaterra aos EUA. Estava procurando um trabalho. Eu tinha uma mesa, uma cadeira, uma TV e um colchão no chão. Os scripts vinham do meu agente, enquanto eu procurava um trabalho. Então, fiquei surpreso com este roteiro. O que é isso? Li vinte páginas e já comecei a procurar todo mundo, tentando participar daquilo. Aquele nível de escrita, em roteiros, é muito inusitado. É único. Então, apenas porque era o primeiro, e porque foi tão difícil, porque eu estava lidando com o sotaque também, com as camadas do filme, e estava nervoso também, por estar trabalhando com Harvey Weinstein.
 
Como Cães de Aluguel mudou sua vida?
Foi o começo de minha experiência americana. Eu tinha feito um filme antes desse. Eu tinha uma experiência de 10, 15 anos, na Europa. Quando eu vim para os EUA, pensei: “Isto provavelmente não vai funcionar, mas vou tentar ser ator na América”. Então, o filme aconteceu e eu fiquei, não voltei mais. Vivo nos EUA há 25 anos. Cães de Aluguel mudou completamente a minha vida. Não acontece muito frequentemente, mas aconteceu comigo.
 
Como você se prepara para o personagem?
Nós ensaiamos. Eu li o personagem no papel e soube imediatamente em que direção ele gostaria que eu fosse. Primeiro, nós fizemos a leitura pública, do primeiro roteiro, e ensaiamos três dias para isso. Então, eu percebi o que ele estava procurando. Daí, quando voltamos e ensaiamos para o filme, estava muito claro para onde ir. Ele até cancelou a última semana de ensaios e resolveu que começaríamos a filmar. Quando voltamos, sabíamos o que fazer. Não sou um “ator do Método”, não faço esse tipo de coisa. Percebi que tipo de performance ele procurava e apenas mergulhei nisso.
 
Seu personagem aqui parece um pouco o de Christoph Waltz em Bastardos Inglórios. Você também vê essa semelhança?
As pessoas costumam falar disso, mas na verdade não vejo isso. Acho que é a barba. (risos) Para mim, na verdade, é um tipo de personagem britânico à moda antiga, à la Terry Thomas.
                                                                                                                                                                                                                                                        
Você sentiu que estava certo ter apenas uma personagem feminina no filme?
Aquela mulher? Sim!!!! (risos). Não acredito que poderíamos dar conta de nenhuma outra como aquela. Agora, trabalhar com a Jen, eu adoro. Ela é simplesmente uma das melhores atrizes com quem se pode trabalhar. E, neste papel, ela está realmente maravilhosa. Mas ela é a personagem mais perversa daquele lugar, psicopata e muito engraçada.  E o que ela suporta, fisicamente, naquele personagem, é extraordinário. Nenhum de nós podia reclamar de nada, porque o que a Jen estava encarando era muito exigente, fisicamente. Mas se houvesse necessidade de mais mulheres naquele ambiente, então teria havido.
 
É melhor morrer num filme de Tarantino do que estar vivo?
(Rindo) Definitivamente, é melhor morrer num filme de Tarantino, porque você sabe que isso vai ser divertido. Há algumas mortes espetaculares neste filme, eu acho. Engraçadas, mas também brutais. É como no teatro, você quer morrer com um “splash”.
 
Prefere trabalhar numa série de TV ou num filme?
Nunca fique tão cansado como nas séries. Eu curti lá pelo final da coisa, porque era exaustivo. Geralmente, filmar é lento, é um processo muito mais lento. Nem tanto com Quentin. Você trabalha por muitas horas. Ele não gosta de trabalhar de manhã cedo. Com ele, costuma-se trabalhar desde o final das manhãs até de madrugada. Então, você fica bem cansado. Mas acho que vou voltar a trabalhar com TV. É meu próximo trabalho, mas ainda não posso falar sobre isso. Gosto de trabalhar com isso, mas cinema é minha experiência, acho que sou melhor nisso.
 
Tarantino prometeu parar no décimo filme. Você tentou convencê-lo a desistir disso?
Não. Estivemos falando disso há pouco.  Há tantos diretores que não foram tão longe. Acho que ele fez um grande trabalho até aqui, mas também sofreu, de certo modo. Ele disse “dez filmes”, mas é claro que depois ele vai fazer outras coisas interessantes, sob uma forma diferente. Mas isso também me entristece.
 
Talvez você vá dirigir algumas das histórias que ele escrever.
Talvez. Os dois primeiros roteiros dele, que ele não conseguiu filmar (True romance e Natural Born Killers). Eu me pergunto se ele escreveria para alguém dirigir. Isto seria interessante de fazer, mas haveria uma pressão inacreditável também. Seria muito difícil estar à altura de qualquer coisa que ele fizer.
 
Quais serão os seus próximos trabalhos?
No ano que vem, estarei fazendo trabalhos bem interessantes. Estou ligado a alguns cineastas mexicanos – fiz o primeiro filme de Gabriel Ripstein, 600 millas, e o quarto filme de Michel Franco (Chronic). Estou meio que produzindo o próximo projeto de Michel Franco – não vou atuar nesse. E vou dirigir um filme no México. Tenho algo em mente, mas tenho que aprender espanhol antes. Depois também vou atuar... é algo sobre o que não posso falar ainda, mas que é muito incrível.
 
E por que o México agora?
Por causa destes grandes diretores. Há diretores extraordinários por lá, como Michel Franco. É um dos melhores jovens diretores que há. No México, há toda uma nova onda acontecendo, como a Nouvelle Vague francesa. Estou fascinado com isso. Também na Venezuela. Diretores muito talentosos, capazes de lidar com temas muito difíceis, de um modo cinematográfico extraordinário. Grande! Estou nessa.
 
 
 
 
 
 

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