Entrevistas

Tarantino reencontra São Paulo e debate inspirações de “Os oito odiados”

Publicado em 29/12/15 às 16h52

 
Por Neusa Barbosa
 
Ainda desconhecido, Quentin Tarantino visitou São Paulo em 1992, apresentando seu primeiro longa, Cães de Aluguel, na Mostra Internacional de Cinema. Na época, passou praticamente despercebido, pois poucos poderiam imaginar a celebridade que se tornaria o futuro diretor de Pulp Fiction, Kill Bill, Bastardos Inglórios e do novíssimo Os oito odiados, com estreia marcada no Brasil para 7 de janeiro.
 
Sendo o Brasil a primeira parada do tour de lançamento do novo filme, Tarantino voltou 23 anos depois, ainda se lembrando daquela passagem por São Paulo. “Passei uns dias maravilhosos por aqui, tanto que prometi aprender português. Só que até hoje não aprendi coisa nenhuma!”, diverte-se, na concorrida coletiva do filme, num hotel em São Paulo, no dia 23 de novembro.
 
O conteúdo da coletiva no que dizia respeito ao novo filme não poderia ser divulgado antes de 24 de dezembro (véspera do lançamento norte-americano), por um embargo determinado pelos distribuidores do filme à imprensa – uma medida que tem se tornado cada vez mais comum e, neste caso, teve um componente extra, desde que a filmagem de Os oito odiados chegou a ser cancelada, após uma primeira versão do roteiro vazar na internet, no começo de 2014.
 
A seguir, alguns dos principais pontos da coletiva:
 
Morricone
De modo geral, não houve qualquer tensão na coletiva (exceto por um momento em que alguém, inadvertidamente, referiu-se ao desafeto dele, Spike Lee). Tarantino falou alegremente sobre tudo, como sua primeira parceria com o lendário compositor italiano Ennio Morricone – que, neste oitavo filme do diretor, assina sua primeira trilha para um faroeste em 40 anos.
 
Tarantino, aliás, nunca havia trabalhado antes com qualquer outro compositor de trilha original – “e comecei logo com ele!”, orgulha-se. “Eu queria um clima para carregar o filme e Morricone era o favorito, mais do que Beethoven, mais do que Schubert. Ele é o melhor!”.
 
O cineasta destaca que realmente não deu nenhuma instrução ao compositor. “Quando ele leu o roteiro, teve a ideia para um tema, que lembrava uma diligência que sugerisse a violência que viria. Ele escolheu o que lhe parecia certo para eu usar no filme, onde quisesse. E eu que cheguei a temer que ele não tivesse tempo! No final, foi uma honra trabalhar com ele”.
 
Sem heróis
Questionado sobre o caráter no mínimo ambíguo de todos os personagens de Os oito odiados, Tarantino concede: “Não queria mesmo colocar nenhum herói ou centro moral. Queria que todo mundo fosse mais ou menos malvado. Você não pode confiar no que ninguém diz, é só assistir ao filme para sacar isso”.
 
O diretor lembra dos seriados dos anos 1960, como Bonanza, “em que não havia protagonistas, todos eram convidados especiais. Os personagens eram meio nebulosos, você não sabia direito quem eram, você tinha que acompanhar para descobrir”. Além do mais, ele ressalta sobre o novo filme, “a situação de estar todo mundo encurralado numa cabana na montanha favorece”.
 
Faroeste
Citando Stanley Kubrick, Tarantino diz que “cada novo filme é um gênero”. E nem precisava admitir que adora faroestes, por exemplo lidando com questões como raça e escravidão, como fez em Django Livre (2012) – “achei que teria algo a dizer, a contribuir”. E neste Os oito odiados – que alguns chegaram a pensar que seria um tipo de sequência de Django... -, ele sustenta que “parte da graça e também da ansiedade do que eu faço é não saber bem onde vou chegar. Então, no meu primeiro faroeste, eu tinha que aprender como fazer. Agora, fiz sabendo o que estava fazendo. Em Django, eu ainda não sabia”.
 
Mudanças
Perguntam a Tim Roth, também presente à coletiva, se o diretor mudou desde seu primeiro filme, Cães de Aluguel. O ator acha que não mas, ao mesmo tempo, destaca diferenças nos dois sets: “Neste aqui, ele encontrou um jeito de relaxar todo mundo, tocava-se música, por exemplo. Gosto de vê-lo dirigir cada um de nós porque, mesmo estando num espaço tão apertado, ele te faz sentir o centro das atenções”.
 
Já o próprio diretor acha, sim, que mudou desde sua estreia: “Naquela época, você levava seu filme e ficava um ano rodando pelos festivais, como eu fiz quando vim à Mostra de São Paulo. Eu estava muito animado, era um jovem vivendo um sonho. Depois, as pessoas sabiam quem eu era, era mais famoso ao partir do que ao chegar. A própria Miramax não sabia o quanto eu podia tornar-me famoso então. Meus filmes vão bem na América, mas ligeiramente melhor no exterior. Não são ‘filmes americanos’ per se. Eu os faço para o mundo. Esta é a base do meu sucesso e foi construída naquele primeiro ano”.
 
Inspirações
Perguntado se se inspirou em faroestes clássicos do passado, como Sete homens e um destino (60) ou Os doze condenados (67), Tarantino nega: “Não me inspirei neles. Quem procura referências neste meu filme deve procurá-las em O enigma do outro mundo, de John Carpenter. Há o mesmo cenário de neve, pessoas encurraladas num lugar sem poderem confiar umas nas outras...”.
 
Pegada teatral
Tarantino considera que, desde Kill Bill, seus roteiros têm-se tornado “mais teatrais, mais poéticos, pendendo mais para o literário. Bem ou mal, sou mais preciosista com meus trabalhos hoje”.
 
Até por isso, ele destaca que “nem todos os atores podem dizer meus diálogos, com este tipo de humor. Assim como nem todos podem dizer os diálogos de Harold Pinter ou de Tom Stoppard. Tim Roth, por exemplo, pode fazer os três. Meus atores são superstars Tarantino!”.
 
Jennifer Jason Leigh                                                                           
Se, em geral, os papeis do novo filme foram escritos para seus atores, o mesmo não aconteceu com a única personagem feminina. “Daisy foi escrita sem eu saber quem seria a atriz, ela teria que se revelar para mim. Percebi que precisava de uma atriz dos anos 90. Jennifer fez um teste e eu assisti a seus filmes de novo. Nos anos 90, ela era o Sean Penn feminino. Por isso, ela foi a escolhida”.
 
Quando alguém na coletiva pergunta se o diretor se inspirou em O Iluminado, por conta da situação de uma mulher sofrendo, ele nega: “Não pensei nisto, pensei muito mais nos faroestes ambientados na neve. Daisy é o personagem talvez mais perigoso do filme. Ela apanha, mas se vinga, ainda que cuspindo”.
 
Ao seu lado, Tim Roth concorda e garante: “Todos queriam interpretar o papel dela!”.
 
Filmar em 70 mm*
 
Filmar num formato já praticamente abandonado – o que exigiu um esforço especial de recuperação de equipamentos nos EUA por parte da produtora Weinstein – e na neve foi, segundo o diretor, “uma das razões essenciais do que estávamos fazendo, para obter aquela beleza visual”.
 
Atores com que quer trabalhar
Perguntado sobre isso, Tarantino lembra de Johnny Depp – “mas teria que escrever um personagem para ele” – e Kate Winslet, que ele descreve como “incrível”.
 
Parar no 10º. filme
Mais uma vez, o diretor sustenta que vai parar de dirigir – mas não necessariamente de escrever roteiros, produzir ou outras funções - no décimo filme. Ele destaca que há uma “pressão para manter o nível de satisfação no trabalho, a mesma pulsão artística. Faço filmes como esforço artístico. Tudo o mais é secundário”.
 
 
       *  No Brasil, o filme será projetado em scope digital, pois não há mais projetores 70 mm disponíveis.


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