Entrevistas

Ator francês Louis Garrel apresenta filme de estreia como diretor em SP

Publicado em 03/12/15 às 14h53

Por Nayara Reynaud
 
Relaxado e de boné, o “sex symbol” do cinema francês Louis Garrel chegou à coletiva em São Paulo, na última sexta (27), de Dois Amigos (2015), seu primeiro longa como diretor, pedindo desculpas por estar usando uma piteira eletrônica. “Parei de fumar no Brasil”, revelou o ator, que aumentou sua ansiedade por causa dos últimos eventos em Paris. Mas, ao chegar à metrópole paulista e ver todo mundo tão relaxado, resolveu parar com o hábito, embora ainda seja difícil e necessário o uso do artifício.
 
Em uma longa conversa com os jornalistas brasileiros, era inevitável que os atentados ocorridos em 13 de novembro na capital francesa viessem à tona. Ressaltando a perplexidade que abateu a população local, ele destacou o fato da geração dele, por volta dos 30 anos – Louis tem 32 –, que nunca viu uma guerra, nem teve de fazer o serviço militar obrigatório, ser atingida diretamente. Apesar de seu filme ter sido lançado pouco antes dos acontecimentos, que esvaziaram as salas de Paris, o jovem cineasta acredita que “o cinema não deveria abordar isso [o terrorismo]”, citando Jean-Luc Godard sobre a necessidade de fazer “imagens claras para ideias vagas”.
 
Citações não faltaram durante as respostas de Garrel, que já dirigira três curtas – Mes Copains (2008), Petit Tailleur (2010) e La Règle de Trois (2011) –, especialmente sobre como é mais difícil sua tarefa na direção do que como ator. Parafraseando Marcello Mastroianni, ele reforçou que “quando a gente é ator, tem o direito de ter um comportamento infantil, e quando a gente dirige, não se pode mais”. Enquanto na nova função, tinha de dar respostas a tudo. Foram seus colegas de cena que o fizeram voltar a ser infantil na hora de atuar, no caso, como Abel. Quem o acompanha é Vincent Macaigne, na pele de seu amigo Vincent, que se apaixona por Mona, interpretada por Golshifteh Farahani, e pede ajuda a ele para recuperar a garota de rotina misteriosa.
 
Da constatação de Arnaud Desplechin de que “a França é o país mais difícil de se filmar”, contou sobre seu desafio de mostrar uma Paris diferente e que, fora a conhecidíssima estação Gare du Nord, preferiu apresentar uma cidade que os próprios parisienses não conhecessem. Retratar as manifestações de Maio de 1968, mesmo que sob o pretexto de ser uma filmagem dentro do próprio filme, também exigiu muito do diretor estreante, pois a gravação durou 14 horas. Apesar de seus primeiros e mais distintos trabalhos terem sido justamente em longas que abordaram o mesmo período, em Os Sonhadores (2003) de Bernardo Bertolucci e Amantes Constantes (2005) do pai, o cineasta Philippe Garrel, ele afirmou ter uma “relação artificial” com o momento e teve a vontade de criar sua própria visão dos acontecimentos.
 
Foram tais filmes, aliás, que criaram a imagem de galã sexy que cerca o ator. “Que demais me acharem um sex symbol!”, brinca Louis sobre quando se olha no espelho, mas sem perder em nenhum momento da coletiva um jeito que reafirma esse imaginário. “Se você me visse em uma pista de dança, mudaria de ideia”, ele observa, o que pode dar a dimensão da dificuldade de sair do clichê na cena da dança de Mona, mal vista pela própria intérprete. Por isso, demandou tempo na busca da música certa, um punk rock libertador para a personagem, e gastou com as luzes para a sequência.
 
Sobre Farahani, por sinal, Garrel garante que a escolha da atriz iraniana se deu pelo seu ótimo trabalho e por representar uma sensualidade internacional que ansiava, e não por questões políticas; embora sua presença como protagonista seja em si parte do discurso político desta dramédia romântica, na qual ele se preocupou em alternar os momentos dramáticos e cômicos. Contudo, o francês acredita que a personagem serviu para ela deixar de lado o mundo islâmico e “recuperar sua força”.
 
Entre amigos e parentes
 
Habitué nos longas de Christophe Honoré, Louis contou com a ajuda do cineasta como roteirista em Dois Amigos. “O roteiro inicial era muito clichê: são dois homens e uma mulher. Tem uma frase do [Alfred] Hitchcock que diz ‘melhor sair de um clichê do que chegar lá’”, justifica o estreante, dizendo ter chamado seu costumeiro parceiro para dar soluções diferentes e originais, além de ser “um ótimo dialoguista”.
 
Sua intenção era não fazer uma história de camaradas e sim de amigos, por isso a escolha de olhar pelo “buraco da fechadura” a relação de dois homens que parecem mulheres em suas fragilidades, sustenta o realizador que considera o filme “feminino”. A observação de tantos adultos imaturos o inspirou a construir o “bromance” de Abel e Vincent, uma relação que a ele lembra a dos robôs R2-D2 e C-3PO de Star Wars. No entanto, ressaltou sua predileção por tramas que giram “em torno do triângulo amoroso, até porque não dá certo na vida real”.
 
E em questões autobiográficas, seu trabalho apresenta resquícios de uma peça que fez aos 15 anos, com uma sinopse parecida, e do fato de não poder assistir às apresentações da mãe, a atriz Brigitte Sy, realizadas em cadeias, motivando-o a usar este espaço como um dos cenários de seu longa. Péssimo aluno, fora o seu avô, o também ator Maurice Garrel, quem lhe disse que precisava estudar para seguir a sua profissão. Seguindo seus conselhos, entrou em um Conservatório de Artes e atuou quase 400 vezes nos palcos, embora admita sua angústia neste quesito: “Não gosto de ser ator de teatro”. Questionado sobre a poder de seu pai em sua carreira, ele garante que ser filho de diretor não ajuda, “mas o convívio dá a ideia do que é um bom filme”.
 
Quanto a influências, define A Regra do Jogo (1939) de Jean Renoir como a principal e o cinema italiano como referência. “[Os italianos] são os únicos que conseguem apresentar personagens detestáveis de que você não sente dó, mas tem carinho”, atestou Louis, que declarou que só iria para Hollywood por questões ideológicas ou pela presença de amigos, como o ator Vincent Cassel. Foi ele, aliás, quem lhe falou sobre um ator brasileiro muito bom, que os jornalistas adivinharam que era Wagner Moura. Tendo visto apenas Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), Garrel terminou a coletiva como iniciou: pedindo desculpas, no caso, por “não conhecer o cinema brasileiro”, no qual só poderia trabalhar no papel de um mudo ou um francês, e sugerindo que lhe dessem uma lista do que assistir. A aposta é que muitos fãs daqui se arriscariam nesta tarefa.

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