Entrevistas

Campanella: A animação me abriu novas possibilidades de contar histórias

Por Nayara Reynaud

Publicado em 29/11/13 às 22h07

por Nayara Reynaud
 
Com uma sólida carreira no cinema argentino e internacional, após sucessos de público e crítica, como O Filho da Noiva (2001), Clube da Lua (2004) e O Segredo dos Seus Olhos (2009), sendo que, por este último longa, faturou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, o segundo prêmio desses para seu país, o que mais Juan José Campanella poderia querer? Uma animação. Sim, ele queria procurar novos desafios e resolveu se arriscar em uma área em que já realizava pesquisas há muito tempo.
 
Foi assim que surgiu o novo filme do cineasta argentino, Um Time Show de Bola (2013), que, em pouco mais de uma semana de lançamento na Argentina, já havia levado mais de um milhão de espectadores para os cinemas, batendo todos os recordes locais. A animação traz a história de Amadeo, um exímio jogador de pebolim – ou “totó” no Rio de Janeiro e em outros estados, assim como outros nomes dados pelo Brasil afora para o futebol de mesa – desde a infância. Mal adentrando na vida adulta, vê-se obrigado a desafiar um antigo conhecido, o agora convencido astro do futebol Grosso, que deseja destruir seu vilarejo. Para vencer o desafio, Amadeo conta com a ajuda de Laura e dos pequenos jogadores da sua mesa de pebolim, que ganharam vida para auxiliá-lo.
 
Durante a divulgação do filme no Brasil, em outubro, o diretor concedeu entrevista ao Cineweb, por telefone, e contou suas motivações para o seu mais recente projeto, sua relação com o futebol, os detalhes do processo de produção e o que deseja em seus próximos trabalhos.
 
O que surgiu primeiro: a ideia de produzir uma animação ou de fazer um filme sobre futebol e pebolim?
O projeto chegou a mim pelas mãos de Gastón Gorali, que é o produtor [e também roteirista do filme], que havia comprado os direitos do conto de Roberto Fontanarrosa, que se chama Memoria de um Wing Derecho. Houve uma sinergia, porque eu, por outro lado, tinha muita vontade de fazer uma animação, algo que estava pesquisando há muitos anos. Quando Gastón veio com o projeto, me pareceu uma ideia fenomenal. O conto tem duas páginas e quase não tem enredo. É simplesmente um monólogo de um jogador de futebol que vai se dando conta de que é um jogador de pebolim. Então, com essa premissa nas mãos, saímos para fazer o roteiro, que foi um processo de mais de dois anos. Porque o roteiro não é somente aventura; tem seus objetivos emocionais, subtexto, coisas não ditas que são as mais importantes. Criamos uma versão do roteiro que já tinha alguns pontos marcados, mas não nos satisfazia de todo. E o trouxemos ao Eduardo Sacheri [escritor de “La Pregunta de Sus Ojos”, livro que inspirou O Segredo de Seus Olhos], que é um dos maiores autores argentinos e é um grande especialista sobre contos de futebol. Então, com ele, surge uma nova versão do roteiro, tirando e incorporando outras coisas. Por exemplo, a grande partida final de futebol e o marco de referência do pai falando com o filho.
 
E como é sua relação com o futebol e o pebolim? Porque me surpreendeu muito a referência no início do filme a “2001 [- Uma Odisséia no Espaço]”, do [Stanley] Kubrick. Parece que você dá uma grande importância ao futebol na história da humanidade [risos].
[Risos]Bom, a mim pessoalmente, não me interessa muito o futebol. Vejo somente os Mundiais. Mas vivendo na Argentina, eu calculo que deva ser o mesmo que viver no Brasil, parece que tudo está rodeado de futebol por todos os lados. O filme foi feito a 400 metros do estádio do River [Plate], que é uma equipe bem grande da Argentina. A cada partida, todo o bairro estava “invadido”. Parece mentira! Então, parece que o começo é uma paródia [risos]. Mas não sou torcedor de nenhum time.
 
Mas você faz uma crítica ao marketing esportivo, aos empresários...
O que eu gosto no futebol é justamente a paixão. Eduardo Sacheri, que é co-roteirista, tem uma grande quantidade de contos que se passam no que nós chamamos de “potrero [semelhante ao futebol de várzea, aqui do Brasil], que é esse campo, esse lote vazio que está em todos os bairros, onde a gente joga futebol nas ruas, nas praças, coisas típicas, eu diria. Já quando o futebol se comercializa, se profissionaliza, e para o jogador dá no mesmo jogar em um time ou no seu rival, aí é que vem a me interessar. Então, é também um encontro desses dois mundos: o mundo da paixão, da terra, do amor e o mundo onde todos são profissionais comercializados e atuam como marca.
 
E a eleição das cores das camisas do time principal? Este verde e amarelo seria uma homenagem “hermana” à seleção brasileira?
[Risos] É que quando vimos já estava tarde para mudar!... A verdade é que são cores muito lindas, é uma combinação de cores de que eu gosto muito. Havia vários requisitos para as cores das camisas. Um é que queríamos, por uma questão de reconhecimento gráfico forte, que fossem alguns listrados e os outros lisos. Depois, que não fossem as cores de rivais famosos de nenhum país. Não queríamos que fossem Boca [Juniors] – River, ou Real Madrid e Barcelona, ou Santos e... não sei quais são os do Brasil. (...) Pensamos que isso dava universalidade à história. Além disso, outro elemento importante é que gostei das cores, que ficaram lindas na paleta do filme. E, ademais, sabendo que quase todo o filme se passa de noite, eram cores que ressaltavam sobre o que íamos fazer no plano de fundo. Então, chegamos a essa cor de que gostamos muito, o listrado - que não é a camiseta do Brasil. É especial, justamente porque não queríamos que a camiseta fosse reconhecida. É uma camiseta que, em seu formato listrado, não é usada por nenhum time grande. Há algumas equipes da Argentina, de Mar Del Plata, por exemplo, mas são pequenas. Não há nenhum time grande do mundo que tenha essa camiseta.
 
Mesmo assim, acho que a animação irá muito bem aqui no Brasil, principalmente porque o público irá se identificar com o tema.
Bom! O filme se passa no mundo do futebol, mas o tema não é futebol. É universal. Nós vimos na Argentina que as mulheres e as crianças se encantam muito, porque é uma história de superação de um garoto e uma garota do povo que enfrentam uma “megamaquinária” que quer transformar o vilarejo deles, de modo que há uma história de amor que alcança todo mundo. Eu cuidei pessoalmente para que não se necessitasse conhecer o futebol para poder gostar do filme. Minha referência sempre era Casablanca (1942), que, na realidade, é um filme que transcorre no mundo de uma guerra, mas eu jamais diria que é um filme de guerra. Então, é o mesmo com o futebol no nosso filme.
 
E quanto à animação, como foi o processo de coprodução?
Trata-se de uma coprodução argentina-espanhola. Na equipe, existiam muitos argentinos, um segundo grupo espanhol, mas havia muita gente da América Latina e, inclusive, de outros países também. Incluindo o cabeça de equipe, responsável por desenhar todos os conjuntos em 3D – o estádio, o vilarejo, o lixão... bom, um trabalho importantíssimo no filme –, é Michel Alencar, que é brasileiro. De modo que é uma espécie de seleção do resto do mundo também. No entanto, o processo para um diretor como eu, habituado com o cinema live-action, é muito minucioso e lento. Tem que, realmente, ser paciente e, sobretudo, ter sempre muito claro aquilo que quer, porque não é preciso saber as coisas que já estão bem avançadas no processo. E é muito difícil se envolver nos bastidores e muito gostoso! Realmente, tinha que prestar muita atenção quando os personagens ainda não estavam animados, não tinham a textura, eram “marionetes de computador” e quase sem expressão. Então, tem que se imaginar muito. Esta é a grande diferença com o live-action, em que, antes de filmar, vejo a cena com os atores, vejo a cara dos atores, como estarão vestidos, como serão as cores. Aqui não, tem que se imaginar tudo.
 
E, em relação aos seus próximos projetos, você está com uma série de TV em pós-produção, certo?
Em abril deste ano, filmei o piloto de uma série que vai substituir Breaking Bad (2008-2013) na AMC, nos Estados Unidos. Em novembro, vou fazer o segundo capítulo desta série, que só entrará no ar no ano que vem.
 
Mas para os próximos trabalhos você deseja continuar com as animações ou voltar ao live-action?
As duas coisas. Meu próximo projeto será live-action, mas não posso te dizer quando, porque estou recém começando a trabalhar no roteiro. E eu demoro de um a dois anos para trabalhar no roteiro. Assim, será para 2015 ou 2016. Mas os estudos de animação continuam de pé, seguem com projetos e, com certeza, farei algum outro filme de animação. Gostei muito da experiência. Isso me abriu a possibilidade de contar histórias que o live-action não pode contar.















Nayara Reynaud

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