Entrevistas

David Schurmann: um cineasta de família

Por Nayara Reynaud

Publicado em 13/11/13 s 22h03

por Nayara Reynaud
Cineasta e velejador numa família que vive em viagem pelos mares do mundo, David Schurmann está engajado na direção de três novos filmes: os documentários U-513 – Em Busca do Lobo Solitário e Expedição Oriente, e a ficção Pequeno Segredo.
 
Em todos eles, o cineasta parte de uma aventura da sua família, ou de uma história particular deles. O primeiro filme acompanha a busca pelo submarino alemão que naufragou na costa catarinense, na época da Segunda Guerra Mundial; o segundo investiga a lenda de que os chineses teriam sido os primeiros a darem a volta ao redor do globo; e o último é baseado na história real de sua irmã adotiva, Kat, que já havia sido o destaque do seu documentário mais famoso, O Mundo em Duas Voltas (2007).
 
Pequeno Segredo, aliás, será uma superprodução, que contará com Barrie Osborne, produtor norte-americano de blockbusters como a trilogia Senhor dos Anéis (2001-2002-2003), Matrix (1999) e Apocalypse Now (1979), além do mexicano Matthias Ehrenberg e o brasileiro João Roni. Em entrevista exclusiva ao Cineweb, David Schurmann conta todos os detalhes desse grande projeto, dos outros dois que estão em curso e de sua carreira.
 
“Pequeno Segredo”: uma grande produção
“Eu sempre quis contar a história da Kat, porque, para mim, sempre foi uma história de cinema”, declara o irmão, saudoso da menina que foi adotada por seus pais e modificou a vida de toda a família. A irmã de David morreu em 2006, aos 13 anos de idade, depois de complicações após uma pneumonia, já que era soropositiva. Mas a fragilidade de sua condição física sempre contrastava com a energia e alegria que ela transmitia.
 
Por isso, o cineasta não quis contar apenas a história de Kat pelo lado da doença, mas a relação com a sua mãe, que sempre tentou não fazer da vida da menina algo voltado sempre para o HIV. Assim, o roteiro de Pequeno Segredo, assinado por Marcos Bernstein e Victor Atherino, mostra, paralelamente, Kat entrando na adolescência com o dilema de pessoas ligadas diretamente a ela: a mãe Heloísa tendo de lidar com um segredo ; a luta do casal Robert e Jeane, ele um engenheiro petroquímico neozelandês, ela uma cabocla da Amazônia brasileira, pelo o amor deles e contra o preconceito; e Barbara, uma senhora fria, solitária e irredutível para alcançar seus objetivos. “De real, quase tudo. Tudo extraído de fatos reais. A ficção está no tempo”, explica o diretor, que também colaborou no argumento.
 
A trama chamou tanta atenção e emocionou tanta gente, segundo Schurmann, que várias profissionais de renome entraram no projeto. O primeiro foi o compositor brasileiro Antônio Pinto, de Central do Brasil (1998), Cidade de Deus (2002), Colateral (2004) e O Amor nos Tempos do Cólera (2007), pelo qual foi indicado, junto com a popstar colombiana Shakira, ao Globo de Ouro com a canção Despedida. Depois da trilha sonora, foi a equipe de produção que se formou; e não é um time qualquer: o catarinense João Roni, da Ocean Films, com experiência em filmes comerciais, foi convidado por David para tocar Pequeno Segredo e o colocou em contato com o mexicano Matthias Ehrenrenberg, da Produtora Rio Negro – Antes do Anoitecer (2000) e Sexo, Pudor e Lágrimas (1999) –, que, por sua vez, o apresentou para o norte-americano Barrie Osborne, responsável por uma série de blockbusters e que também é um amante das velas.
 
A entrada de alguém com essa experiência veio a somar ainda mais na produção, que conta com um orçamento de R$ 12 a 14 milhões de reais, gerando a possibilidade de uma coprodução com a Nova Zelândia e atraindo nomes de peso no elenco. Como “o filme é 75% em português e o resto em inglês”, de acordo com David, o elenco terá atores brasileiros e internacionais. Para o papel do Robert, o diretor não quer “um brasileiro que pareça gringo”.  Por isso, está em conversa com atores nativos de língua inglesa, na faixa dos 30 anos. E, se as negociações se confirmarem, um galã de Hollywood, conhecido pelo talento e beleza, ficaria com o personagem, assim como uma atriz de renome seria a Barbara. Judi Dench foi convidada, porém não pode aceitar o papel, por conta de outros compromissos.
 
Enquanto isso, o casting no Brasil procura uma jovem atriz para dar vida a Kat, que consiga conciliar a semelhança da fragilidade física da garota com o vigor que ela demonstrava. “Isso tem sido o mais difícil”, declara David, que também corre atrás de alguém para interpretar Heloísa, pois Júlia Lemmertz, que queria muito a personagem, não poderá fazer o papel por conflitos na agenda, já que será a protagonista da nova novela das nove, na Rede Globo, e o filme será rodado entre maio e julho do ano que vem. No entanto, o diretor está feliz, pois encontrou a menina perfeita para ser a Luana, melhor amiga da sua irmã, ao ser surpreendido nos testes com a entrega de Ana Karolina Lannes, a Ágata da novela Avenida Brasile a pequena Marcelina em Minha Mãe É uma Peça – O Filme (2013).
 
Para David Schurmann, Pequeno Segredo será um grande desafio, pois ele considera este o seu primeiro filme de ficção mesmo, enquanto Desaparecidos (2011) seria uma obra experimental, recebendo duras críticas que incomodaram o cineasta. Apesar delas, no entanto, a produção de terror teve público suficiente para encorajar investidores a pedir o desenvolvimento.
 
Uma câmara e algumas ideias no mar
Como surgiu um cineasta no meio de uma família de velejadores? A origem já estava lá, pois o pai dele, Vilfredo Schurmann, já tinha a fotografia como hobby. Influenciado pelas imagens em still captadas pelo capitão e também por aquelas que via na revista National Geographic, David não demorou para manifestar seu desejo de registrar suas próprias imagens, só que em movimento. “As pessoas, quando a gente encontrava pelo mundo, [falavam]: ‘Nossa! Mas a sua vida é uma vida de cinema! Você tá crescendo num barco, dando a volta no mundo. Quem faz isso?’", relembra o diretor, que tinha o sonho de contar histórias, como as que assistia nos cinemas das ilhas caribenhas.
 
Quando a família chegou ao Panamá, ele esperneou até que seus pais comprassem uma câmera Super-8 – que lá é mais barata, por ser livre de impostos – e fez seu primeiro filme, aos 13 anos: um curta-metragem de oito minutos sobre a viagem de dois dias no veleiro, cruzando o Canal do Panamá. Daí foi um pulo para os próximos. No ano seguinte, fez um workshop nos Estados Unidos, onde comprou uma câmera Super-VHS, com a qual experimentou várias coisas com o irmão caçula como cobaia, até começar a produzir filmes comerciais para as pousadas e resorts da Polinésia e, especialmente, das Ilhas Fiji, uma atividade que se mostrou bem lucrativa para a família.
 
Logo após fazer faculdade de cinema na South Seas Film and Television School, na Nova Zelândia, David Schurmann já foi convidado para dirigir, com apenas 19 anos, um programa voltado para jovens na TV estatal do país. “Eu fui criado sem televisão, meus pais já eram meio alternativos. Eles não acreditavam em televisão. E a coisa mais irônica é que meu primeiro emprego foi na televisão, dirigindo um programa de televisão”, conta o diretor, que obteve tanto sucesso na empreitada que, depois, realizou o feito de trabalhar simultaneamente nesta e em outra revista eletrônica, que fora recém-criada pela emissora concorrente.
 
O trabalho em telas neozelandesas foi interrompido quando o chamado da família falou mais alto. Os Schurmann iriam realizar uma nova volta ao mundo e seus pais o convidaram para participar, assim como fez na primeira viagem, na sua adolescência. David foi, com a condição de filmar tudo. Deste material, surgiram a série do Fantástico, na Rede Globo, que acompanhava as etapas da jornada dos velejadores, e o documentário O Mundo em Duas Voltas, que marcou sua carreira.
 
Agora, a família está prestes a partir para sua terceira volta ao mundo com a Expedição Oriente. A ideia para a nova aventura surgiu na última viagem ao redor do globo, quando, pesquisando sobre Fernão de Magalhães, eles descobriram que o navegador português, considerado o primeiro a circum-navegar a Terra, disse ter visto mapas que o auxiliaram a sobreviver a uma invernada na América do Sul. “A gente ficou com aquilo na cabeça: ‘Como Magalhães tinha visto um mapa, se ele foi o primeiro e o estreito levou o nome dele?’”, relembra Schurmann.
 
Além da ideia fixa de que Fernão já sabia da passagem, que seria chamada posteriormente de Estreito de Magalhães, estimulou o projeto o lançamento do livro 1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo, do inglês Gavin Menzies, em 2002, que conta a história do pioneirismo náutico dos chineses, que teriam sido os primeiros a rodar o mundo. Uma das razões de não haver tantas evidências disso é o incêndio na Cidade Proibida ter destruído grande parte da história da China. De acordo com David, não há dúvida de que eles eram grandes navegadores, mas como não eram conquistadores como os europeus, o registro histórico é escasso.
 
Para tentar descobrir mais desse passado, a família Schurmann içará velas no dia 16 de fevereiro de 2014 e navegará pelos mares da Terra, refazendo algumas rotas sínicas, como sempre, acompanhada pelas câmeras do filho, só que de maneira mais multimídia agora. “Uma é o registro para fazer o filme no final, que eu quero muito fazer o filme, contar essa história [a previsão é que o longa seja lançado entre o final de 2016 ou início de 2017]. Só que hoje, todo material audiovisual acaba se tornando um pouco transmídia. Então, a gente vai ter transmissão via satélite de alguns momentos para internet. A ideia é que uma televisão também siga, que a gente faça boletins de alguns momentos da viagem para a televisão”, explica David, que acompanhará a expedição apenas em alguns pontos estratégicos – até porque as filmagens de Pequeno Segredo ocorrerão simultaneamente a certo período da viagem. Mas sua equipe estará presente durante toda a jornada, havendo a troca apenas dos diretores de fotografia, para evitar cansaço. Outra ideia é que os principais acontecimentos da viagem sejam transpostos para jogos digitais, que façam com que os internautas também se sintam na aventura.
 
E também vem do mar outro trabalho do diretor, mas este já em pós-produção: o documentário U-513 – Em Busca do Lobo Solitário. “Meu pai ouviu essa história, faz nove anos, um cara: ‘Ah! Tem um submarino alemão que afundou na costa de Santa Catarina. Ele pesquisou vários anos. E isso não saiu da cabeça dele”. A “obsessão” de Vilfredo contagiou a esposa, que foi até na biblioteca de Washington buscar informações, já que se tratava da embarcação que fora abatida mais distante da Alemanha, descobrindo vários personagens desse episódio, como o capitão do submarino alemão que era contra o nazismo e foi prisioneiro de guerra dos aliados ou um operador de rádio do avião norte-americano que pode ser entrevistado por ser o único dos envolvidos que ainda estava vivo.
 
O interesse do pai também atraiu David, que partiu com ele nessa busca pelo naufrágio. Durante dois anos e meio, fim de semana sim, fim de semana não, eles saíam, junto de vários profissionais das mais diversas áreas e órgãos governamentais, para escanear o fundo do mar. Quando encontraram o submarino, o assunto foi manchete em vários noticiários. A próxima etapa, então, era entrar nele e conhecer o interior da embarcação, mas a Marinha brasileira proibiu, alegando que era “túmulo de guerra”. Eles ainda estão em tratativas para retirar esse embargo, o que poderia adiar a estreia da produção, prevista até então para o 1º semestre do ano que vem.  















Nayara Reynaud

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