Entrevistas

MOSTRA 2013: Mariano Blanco aposta na espontaneidade em “Los Tentados”

Por Nayara Reynaud

Publicado em 24/10/13 s 17h05

por Nayara Reynaud
Premiado em seu país com o documentário Somos Nosotros, o argentino Mariano Blanco veio ao Brasil mostrar seu segundo longa, Los Tentados, na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Seu novo trabalho, mais ficcional do que o anterior, ainda guarda características documentais ao apostar na casualidade das situações. O diretor, em entrevista exclusiva ao Cineweb, fala da espontaneidade do filme, protagonizado por seus amigos Lule e Rama, que vivem um casal tentando se adaptar às regras do relacionamento, além de comentar as dificuldades de filmar sem roteiro.
 
Como aconteceu o desenvolvimento do roteiro de “Los Tentados”?
Não há um trabalho de roteiro fixo ou ficcional. Há uma espécie de escaleta com certas situações essenciais no filme e situações menores.
 
Mas ele foi inspirado em alguma história dos atores?
Não deles. Os dois [Lucía Romero e Ramiro Sciallo] não são atores, porém interpretam personagens e não fazem eles mesmos. Um pouco sim ou pouco não. Mas o filme não tem a ver com estes dois especificamente e sim com fatos que eu conheço, de alguém que mantém esse tipo de relação. Mas não está atrelada à história deles dois, não como personagens, nem como pessoas. Eles tiveram uma relação faz tempo, com dois ou três encontros, algo muito básico e vieram a se cruzar casualmente no filme. São amigos meus e eu não sabia que haviam ficado, pois estavam bêbados em uma festa, [se encontraram] duas ou três vezes no mesmo mês. Então, eu não sabia. Estava inspirado em algumas experiências pessoais e de amigos.
 
Então, como foi o processo de trabalho deles [Lule e Rama] com a atuação e a equipe?
Eles [Lule e Rama] nunca haviam atuado. Não são atores e haviam participado, neste caso, como amigos. O longa foi filmado a 400 quilômetros de Buenos Aires, em Mar Del Plata, uma cidade costeira. É como se fossemos filmar no Rio de Janeiro aqui. Foi um trabalho de 25 dias nessa cidade. Vivemos todos em uma casa muito grande, com vários quartos. É a casa do filme, mas lá ela parecia menor, porque filmamos somente em certos espaços. Além disso, eu os escolhi três dias antes de começar a filmar o longa. Liguei e perguntei se queriam e eles aceitaram. Só perguntaram “Quando?”. “Em dois dias” e eles disseram “Como dois dias?!”.
 
São teus amigos mesmo, né?
São mesmo. Os dois aceitaram e fomos filmar. Mas estávamos em uma equipe bastante reduzida, erámos entre 12 e 15 pessoas, o que para eles era bastante como equipe técnica. Os primeiros dias foram um pouco de adaptação. E depois já se encaminhou a produção mesmo. Há certa tonalidade de atuação: há cenas com um pouco mais, outras menos, que não os exigem tanto, não têm que falar muito, recordar coisas, ideias. Digo isso porque eles não sabiam o que teriam que fazer até um momento antes de filmar, então ficava muito espontâneo.
 
Você falou de Mar Del Plata. Seu primeiro filme também é ambientado na cidade. Você nasceu lá?  
Não. Mas é uma cidade litorânea muito famosa, tem um porto bem grande. E estava acostumado a passar o verão, as férias lá. Então, a minha relação com a cidade é muito próxima. E durante meus 16, 18 até os 20 anos, ia uma vez, todo ano, a Mar Del Plata. Então, tenho uma proximidade muito grande com a cidade e desejava filmá-la.
 
O que a cidade tem de especial para filmá-la?
É uma cidade central, importante, grande, que tem praia. Me agrada muito, com seus verões bem lindos e invernos bem difíceis, de muito frio, isolamento e muita solidão. Então, há certa energia que me agrada. No inverno, é uma cidade meio apocalíptica, triste. No verão, é o contrário, uma cidade muito contrastante. O primeiro filme é mais de inverno e este é mais centrado no verão. Los Tentados não é pleno verão, pois nessa época não se pode caminhar nas praias; foi gravado nos primeiros dias de dezembro.
 
A ideia inicial sempre foi fazer um filme de observação deste casal? Porque não há muitos pontos de virada no roteiro...
Tem que ver que não é um filme que tem roteiro, uma estrutura. Então, isso me permite fazer uma coisa de que eu gosto muito, que, às vezes, tomo licenças que podem ser duras para o filme, pois filmo situações que me interessam e, muitas vezes, não conduzem a um caminho específico. É a acumulação de situações. Isso me permite fazer filmes muito livres, em que todo tempo há a possibilidade de casualidades. É lindo filmar o que nunca foi pensado, imaginado.
 
É uma história sobre as dificuldades de amadurecimento do casal? Porque as brincadeiras deles são aquelas bobas de um casal enquanto tenta viver a rotina de um casal adulto.
É algo que não sei se explica muito bem no filme: eles parecem estar vivendo nessa casa bem precariamente, como se não fosse deles ou se tivessem acabado de mudar-se para lá. E, com isso, eles estão se adaptando, cumprindo as regras, como as do matrimônio: lavar os pratos, por exemplo. Isso para mim é algo interessante, porque são pessoas que estão tentando fazer algo que não conseguem.
 
Foi seu primeiro longa de ficção, porque o outro era um documentário.
O anterior é como este, uma ficção-documentário. O que acontece é que é mais documental, porque estou filmando realmente as pessoas como são. Mas não olham para a câmera, existe uma ficcionalidade muito bonita, porém, estão interpretando a eles mesmo. Por isso é um documentário. Não sei se podemos diferenciar hoje em dia.
 
Você sentiu alguma dificuldade nesse processo?
Muitíssimo. Foi muito difícil filmar este longa [Los Tentados]. Sim, porque tínhamos um filme que não tinha um roteiro. Então, a função de filmar e montar... Eu fui aprendendo sobre o filme e fui buscando as coisas que me agradam, me interessam. O filme não resultou da maneira que pensei. À medida que se vai filmando, montando, aprovando, se vai dando conta de quais coisas funcionam e quais não. Por isso, o processo de criação foi difícil, porque muitas vezes não se encontra soluções. Se contasse com um roteiro, seria mais fácil, seria um respaldo. Não ter um roteiro é um pouco caótico. Filmamos durante vinte dias. Passaram-se quatro meses e voltamos a gravar mais seis, sete dias. E depois filmamos mais três, quatro dias soltos. Então, foi um processo muito grande e que não me permitia descansar. Tinha que ficar pensando em como montar o filme todo o tempo.
 
Foi uma produção totalmente independente?
Sim, só com o apoio da Universidade [del Cine, em Buenos Aires] onde estudei, só com o apoio de câmera, equipe e produção. O resto é tudo independente. Não tive colaboração de nenhum fundo estrangeiro. Tenho plena liberdade de fazer o filme que quero, provando coisas, investigando.
 
Então, o orçamento foi baixíssimo?
Uns 50 mil pesos, que são, assim, como quase 22 mil reais.
 
E em seus próximos trabalhos, você pretende continuar na ficção?
Sim, esse é um caminho que me interessa muito, a ficção. Mas creio que mesclaria da mesma forma que venho misturando os dois [ficção e documentário]. No entanto, depende de cada filme, há algumas que se podem mais, outras menos. Desejo seguir experimentando mais essas circunstâncias ficcionais, de personagens, inclusive de atores profissionais.
 
E já há algo em vista?
Sim, estou escrevendo algumas coisas. Há um filme que quero filmar em Buenos Aires, no centro da capital. E depois, estou pensando em um projeto para filmar fora. Em algum momento, quero filmar no Rio de Janeiro. Estou escrevendo e este projeto seria mais rápido. Os outros seriam a longo prazo, porque precisam de mais dinheiro. O do Rio de Janeiro, a ideia é em março...
 
De 2014?
Sim!
 
E existe alguma previsão de distribuição de Los Tentados no Brasil?
Na Argentina, ele só esteve em festivais e estreia nas salas em março de 2014. Mas no Brasil, não. Seria interessante para mim, distribuir no país, mas até agora não está definido.















Nayara Reynaud

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