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Diretor de "Faroeste Caboclo" diz que nunca quis fazer videoclipe da música

Por Nayara Reynaud

Publicado em 20/05/13 s 22h52

por Nayara Reynaud

Se você for ao cinema assistir Faroeste Caboclo pensando em ver um grande videoclipe da composição musical homônima de Renato Russo, vai se frustrar. Segundo o diretor do filme, René Sampaio, a intenção da produção nunca foi essa: “um clipe de 100 minutos é meio chato”. Para o cineasta, a música respeita a métrica, enquanto o filme considera o drama. "A gente encontrou um recorte que era a história de amor, sem deixar de lado os principais eventos e, principalmente, o espírito da música", explica René.

Canção que, aliás, era presença constante no set de gravação. A atriz Ísis Valverde, que vive Maria Lúcia, diz que o elenco e a equipe cantarolavam direto "Não tinha medo o tal João de Santo Cristo...", como se fosse a primeira vez. Para o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, foi uma honra ter participado do projeto, que ele acompanha há muito tempo, desde que os primeiros planos de seu pai, porque "Faroeste foi feito para virar um filme".

E foi com a ajuda da mãe de Renato, que Ísis buscou nas recordações do passado do vocalista da Legião as várias "Marias Lúcias" que passaram pela vida dele e o inspiraram nessa composição. A partir dessas várias referências, ela buscou fugir do maniqueísmo na hora de interpretar a protagonista como uma "mocinha com vertentes". Além disso, a atriz ressalta o desafio que já enfrentou em seu primeiro papel no cinema: "Maria Lúcia é uma personagem-fábula, que acabam seduzindo muito o ator; mas eles são perigosos ao mesmo tempo. É igual a uma rosa cheia de espinhos: você vai na sede e acaba furando o dedo". Por isso, apesar de ter tido muito cuidado para fazer esse personagem que está no imaginário das pessoas, Valverde diz ter preferido contar sua própria história.

Do outro lado, encarnando o lendário João de Santo Cristo, o diretor escolheu Fabrício Boliveira, depois de uma série de testes, até com atores brancos, pois nenhuma distinção racial estava inclusa nas primeiras versões do roteiro. Somente com a opção pelo ator negro e baiano, a questão do racismo foi acrescentada à trama. Boliveira considera que seu personagem, seu primeiro papel como protagonista no cinema, fala sobre a formação dos brasileiros. "Eu brinco que o João é um pouco o mito da construção de Brasília e de São Paulo. Desses nordestinos que saíram do êxodo rural para essas capitais".

Para o brasiliense René Sampaio, "João de Santo Cristo fala 'pro presidente pra ajudar toda essa gente...'  através da tela". O diretor, que também realizou curtas, como o premiado  Sinistro (2000), revela que tentou levar todo esse questionamento político e social presente na música, sem ser panfletário. Fabrício relaciona o contexto apresentado no longa - o filme se passa na década de 1980, o que fica acentuado com a trilha sonora de Philippe Seabra, vocalista da Plebe Rude, e sua "mão anos 80" - com o panorama atual, seja em relação ao preconceito, em que citou as atitudes do deputado federal Marco Feliciano, ou à desigualdade social. Quanto a este último assunto, o ator fez um paralelo com o Mito do Édipo, em que o protagonista está fadado ao destino: no caso, João está predestinado a pegar em armas, igual a vários meninos em comunidades pelo Brasil.

Com o sucesso de Somos Tão Jovens (2013), que retrata não uma canção de Renato Russo, mas parte da vida do líder da Legião, os produtores e a distribuidora têm grande expectativa com a carreira de Faroeste Caboclo nos cinemas, já que o trailer teve mais de 2 milhões de visualizações na internet, em apenas 48 horas. O filme, que terá de 400 a 500 cópias distribuídas, já entrará em pré-estreia no dia 29 de maio, por causa do feriado de Corpus Christi.

A equipe agora tenta baixar a classificação indicativa do longa, de 16 anos, como foi previamente taxado, para 14 anos. No entanto, o diretor nega que qualquer tentativa nesse sentido tenha influenciado na sua escolha em cenas de sexo e violência não tão explícitas. "Eu tive uma preocupação artística e não de idade, em não fazer um filme escatológico, não superespetacularizar a violência. Não tenho nada contra esse tipo de filme, mas todas as opções de direção neste caso buscaram o mínimo para contar o máximo", explica Sampaio, que ainda declara não fazer uma apologia às drogas e, sim, levantar questões sobre o tema.

Estreante na direção de longas, René revela que o ator e diretor Marcos Paulo, falecido em novembro do ano passado, lhe deu dicas durante as filmagens. Ísis Valverde, sua companheira de cena na produção, também se lembra da atenção que o colega lhe dava no set. Todos, aliás, ressaltaram o comprometimento de Marcos Paulo, que descobriu que estava com câncer durante as gravações de  Faroeste Caboblo, mas adiou o tratamento para terminar sua participação como o senador Ney, que foi justamente o último papel de sua carreira.
















Nayara Reynaud

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