Entrevistas

Paul Giamatti, ator versátil para se levar a sério

Por Neusa Barbosa

Publicado em 25/12/11 às 13h11

por Neusa Barbosa
Se há um ator que resiste às classificações estritas de Hollywood, ele atende pelo nome de Paul Giamatti. Aos 44 anos, gordinho, careca e nada galã, ele desfila sua incrível versatilidade em títulos como Sideways, O Ilusionista, Almas à Venda. Muitas vezes sensível e bonachão, ele encarna seu melhor lado cínico e vilão como Tom Duffy, um chefe de campanha política que leva o inferno à vida de Stephen Meyers (Ryan Gosling), o novato da campanha do candidato adversário (George Clooney) no drama político Tudo pelo Poder.
 
Nesta entrevista, concedida no Festival de Veneza 2011, o simpático ator comentou as nuances deste personagem, política e alguns trabalhos futuros.
 
Cineweb – Você baseou seu personagem em alguém que conhece?
Paul Giamatti
- Não, tratou-se mais de decidir como queria interpretá-lo. Nos EUA, você vê estes caras, os chefes de campanha, na TV o tempo todo. São celebridades à sua própria maneira. Não costumávamos saber quem eles eram e agora eles são o mais público possível. Acho que absorvi coisas deles mas no fundo minha questão era decidir como queria interpretar este personagem em particular, como faço com qualquer outro.
 
Cineweb – Você acha Tom Duffy um cara mau?
Giamatti - Não acho que ele é pior do que qualquer outra pessoa. As escolhas que ele faz parecem mais terríveis do que as dos outros. Mas ele é completamente franco em relação ao que está fazendo. Tem um estranho tipo de integridade, um tipo negativo de integridade. Não o considero mais cínico do que ninguém. Não o considero pior do que os demais personagens.
 
Cineweb – Nem mesmo em relação ao chefe da campanha adversária, Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), que parece um cara mais ético?
Giamatti - O personagem de Philip (Paul Zara) tem uma espécie de tom moral. Mas principalmente porque sente que foi ferrado por um de seus próprios caras. Mas o personagem dele não teria nenhum escrúpulo em ferrar o meu. Então, sua moralidade tem a medida de seu próprio campo. Ele realmente não é nada melhor do que o meu. Ele tem toda essa carga de lealdade, o que é genial. Mas de algum modo esta é também sua fraqueza. Em nosso mundo, isto é uma fraqueza. Meu personagem reconhece isto. Se você quer vencer, não pode ser fraco. Não sei como julgar isso do lado de fora. Naquele mundo, ele não é pior do que ninguém.
 
Cineweb - Como vê seu personagem, como se conecta humanamente com ele?
Giamatti - A dificuldade era que eu não tinha nada a ver com ele. Este tipo de cara me é totalmente estranho. Não gosto deles. É uma personalidade que não entendo, esse nível de competitividade. Por outro lado, era exatamente este o ponto interessante. Porque esses caras adoram esse sentimento de poder que, para eles, é divertido. Adoram esse jogo. Meu caminho para me conectar foi por aí. 
 
Cineweb – No fundo, o que a história parece estar dizendo é que não haverá salvador, é melhor que cada um salve a si mesmo.
Giamatti - Sem dúvida não haverá nenhum salvador, nem ninguém aqui será super-humano. Então esperar que alguém, ou algum político, seja um super-homem é ridículo.
 
Cineweb - Você acha que as pessoas tendem a enxergar os políticos como super-homens?
Giamatti - Sim e é completamente ridículo.
 
Cineweb - Por isso os políticos decepcionam tanto?
Giamatti - Claro, você não pode ser desse jeito.Ninguém é super-homem, é ridículo.
 
Cineweb – Há algumas ligações óbvias na trama, como a de Bill Clinton e a história da estagiária.
Giamatti - Essa e outras referências percorrem o filme, mas não acho que o candidato [representado por George Clooney] é Clinton. No fundo há uma questão moral que enfatiza certos aspectos na história.
 
Cineweb – Não há uma referência também a um certo puritanismo na América?
Giamatti - Acho que esse puritanismo é bem enraizado na América, sim. Seria legal sermos mais “europeus”. Se vai mudar? Não mudou até agora, então, não estou seguro. Seria legal que as pessoas relaxassem com isso, mas isso não aconteceu. Acho que piorou.
 
Cineweb – E esta certa decepção com Obama e o surgimento de uma direita como o Tea Party. Eles são risíveis, mas...
Giamatti - Eu concordo. Mas até que ponto eles irão? Quer dizer, houve um momento que pareceram viáveis, mas estas coisas oscilam drasticamente todo o tempo. É tudo tão caótico! A História é só uma grande confusão. Há o desejo de que tudo siga uma trajetória linear, clara, mas isso nunca acontece.
 
Cineweb – George Clooney adiou um pouco a realização do filme, porque achou que não cairia bem no começo da era Obama. O que acha disso?
Giamatti - Na verdade, acho que teria sido interessante fazer o filme antes. Eu gostaria de ter visto este filme antes. É um tipo de lembrete de que essa coisa otimista é muito efêmera. Talvez as pessoas o tivessem encarado como cínico demais na época. Não durou. No fundo, é uma história muito sombria. Aquele ambiente é muito sombrio. De todo modo, mesmo quando rola todo aquele otimismo, as pessoas continuam manobrando nos bastidores. Teria sido um filme diferente. De todo modo todo aquele otimismo não durou muito. Porque foi uma situação muito desfavorável que Obama herdou. Talvez a história caia melhor agora mas acho que há um material que teria funcionado a qualquer tempo.
 
Cineweb – O filme mudou seu conceito de política?
Giamatti - Não, nunca fui idealista a respeito. As pessoas estão familiarizadas demais com tudo isto para ficarem chocadas com qualquer coisa que o filme possa mostrar.
 
Cineweb – E agora, quais serão seus próximos filmes?
Giamatti – Acabamos de filmar Rock of ages. Interpreto Paul Gill, o agente de Tom Cruise, seu braço direito. Ele é um sacana manipulador. É muito engraçado, é um filme cômico.
 
Cineweb - É seu primeiro musical?
Giamatti - Nunca fiz um musical de palco, não. Na verdade, fiz um filme desses há muito tempo atrás, Duets – Vem Cantar Comigo, onde tive que cantar. Mas não era um musical no sentido tradicional.
 
Cineweb – Fez algum outro filme?
Giamatti - Recentemente filmei também Cosmópolis, de David Cronenberg. Um filme muito, muito diferente e estranho (risos).















Neusa Barbosa

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