Entrevistas

Cécile de France diz-se “honrada por entrar para a família Dardenne”

Publicado em 16/11/11 às 19h21

   
Atriz belga que se consagrou no cinema francês, em filmes como Um Segredo em Família, Quando Estou Amando (ao lado de Gérard Depardieu) e Um Lugar na Platéia e atuou também nos EUA em Além da Vida, com o exigente Clint Eastwood, Cécile de France foi uma surpresa no elenco de O Garoto da Bicicleta, novo filme dos irmãos cineastas Jean-Pierre e Luc Dardenne, conhecidos por nunca antes terem trabalhado com atores famosos.
 
Nesta entrevista, concedida em maio, em Cannes – onde o filme venceu o Grande Prêmio do Júri em 2011 – , a lindíssima Cécile comentou a surpresa de sua escolha, as particularidades deste trabalho, em que ela interpreta uma cabeleireira, Samantha, que decide cuidar de um menino problemático, e porque não se encanta demais com Hollywood.
 
Cineweb - Como é o estilo dos Dardenne – eles dão todo o roteiro antes de filmar, ensaiam muito, permitem improvisações?
 
Cécile de France - Eles me procuraram e anunciaram que iam me mandar o roteiro. O que me deixou bastante atônita, porque se sabe que os irmãos Dardenne não costumam trabalhar com atores conhecidos, apenas com amadores ou pessoas que eles mesmos descobrem. Então foi uma grande surpresa e, especialmente, uma grande alegria ter esta chance. Li o roteiro e telefonei para os dois, dizendo que estava muito honrada de entrar para sua família.
 
Cineweb - Quais foram suas primeiras impressões do roteiro?
Cécile - Rapidamente compreendi que não era a personagem principal. Em todos os filmes dos Dardenne, há uma personagem que a câmera persegue de maneira epidérmica. Compreendi logo que eu não era esta personagem. Falando de improvisação – não há nenhum espaço para improvisação. Nenhuma, realmente, nem mesmo uma palavra, uma expressão.
 
Cineweb - Quer dizer que é tudo previsto no roteiro, mesmo cada diálogo?
Cécile - Quer dizer que a história está no roteiro e o filme é muito próximo do roteiro. Tudo vai ser trabalhado no mês que precede a filmagem, quando se ensaiam exaustivamente todas as cenas do filme, com os seus cenários e figurinos reais, o que é muito raro hoje em dia. Muito poucos diretores trabalham assim. Então, exploramos todas as cenas, em todas as direções possíveis, para termos verdadeiramente a certeza de estarmos o mais próximos possível daquilo que os diretores querem contar. É muito trabalho e dedicação pessoal e também física e mental. É um engajamento.
 
Cineweb - No filme, Samantha é uma espécie de boa fada. Você a vê assim?
Cécile - Sim, esta foi uma das chaves que me permitiram não procurar explicar nem raciocinar as razões de seu comportamento. O passado de uma fada nunca se explica. Em todo caso, os Dardenne me disseram que não era preciso fabricar uma personagem, que eu deveria ser como era na minha vida mesmo. Eles me disseram que só precisavam do meu rosto, minha voz, meu corpo, da simpatia que eu pudesse emanar e que fosse simples, que seguisse apenas o texto sem inventar nada. Isto, para uma atriz é muito difícil, sobretudo eu, que gosto muito de elaborar um personagem. Foi um verdadeiro esforço, mas eu queria muito fazer isso, pois se tratava de uma oportunidade inesperada de realizar este exercício e de poder me dizer que era capaz, porque eram os irmãos Dardenne que me pediam isto. Evidentemente, queria fazer jus à sua confiança e ir até o fim desta experiência.
 
Cineweb - Como foi seu entrosamento no set com Thomas Doret? O fato de ele ser estreante criou alguma dificuldade?
Cécile - Como os Dardenne me escolheram por quem sou, o mesmo aconteceu com Thomas. Na vida real, ele tem mesmo alguma coisa de misterioso, de opaco. É preciso procurar nos seus olhos a emoção que está dentro dele. Porque no cinema dos irmãos Dardenne o espectador é ativo. Então há sempre uma tentativa de compreender as motivações do personagem. Durante as filmagens, tivemos uma relação de trabalho, de cumplicidade, de concentração, de investimento pessoal e em comum. Sempre o considerei como um adulto, não como criança.
 
Cineweb - Em que sentido?
Cécile - Ele tinha um tipo de força que eu não tinha, uma virgindade profissional que era necessária num trabalho dos irmãos Dardenne. Eu tive que me despojar de minhas atitudes, de minhas experiências. Ele já tinha essa força. Além do mais, Thomas tinha passado mais tempo com os irmãos Dardenne e conhecia melhor seu universo, como iam trabalhar e fazer este filme. Ele não é um livro aberto. De todo modo, durante as filmagens, ele esteve muito empenhado. Ele era como que o chefe. Estava muito orgulhoso de chegar todas as manhãs, de beijar todos da equipe. Ele tinha o seu lugar. Evidentemente, os Dardenne lhe deram este lugar e fizeram tudo para que ele se sentisse feliz, porque sabiam que ele devia lhes doar muito de si. E devo dizer que o filme foi muito mais cansativo para ele do que para mim, mas Thomas sempre se mostrou positivo.
 
Cineweb - Como se convenceu das motivações de Samantha, uma mulher totalmente estranha ao menino que passa por tantas atribulações por ele?
Cécile - Não me coloquei esta questão durante a filmagem, porque raramente faço esta ligação pessoal entre o que eu sinto e o que a personagem sente. Acho mais simples manter as duas esferas separadas. Agora, se me coloco esta questão acho exemplar da parte de Samantha porque há momentos em que ela sofre, hesita e no entanto segue em frente. Penso que é rara uma atitude assim. Entretanto, existem essas pessoas que se doam sem esperar nada em troca. Mesmo que Samantha espere, sim, algum tipo de troca com esse menino. E há realmente uma troca de amor entre eles.
 
Cineweb - Há alguma semelhança entre você e Samantha?
Cécile - Nunca pensei nisto, penso agora, que me colocam a pergunta. De saída, há meu corpo, meu rosto, minhas lágrimas, meu suor – e isto já é muito. Sobre suas ações e escolhas, não sei. E não quero saber. Não quero responder a essa pergunta porque ela não corresponde à minha maneira de trabalhar.
 
Cineweb - Você acha que hoje em dia há uma tendência maior a que as mulheres assumam os papeis de mãe e pai ao mesmo tempo?
Cécile - Não sei bem responder a essa pergunta. Acho que cada família é diferente, cada criança, cada história. Cada um dá o que pode ao seu filho. Não há regras. De todo modo, Samantha é obrigada a ser pai e mãe ao mesmo tempo, transmitindo ternura ao mesmo tempo que está ensinando a vida. Muito embora se esteja aqui muito no contexto da fábula e do simbólico.
 
Cineweb - Você mencionou agora ser “parte da família Dardenne”. Isso quer dizer que você gostaria de participar de um outro projeto deles em breve?
Cécile - Eles nada me disseram especificamente sobre isso. Não sei. Espero que sim. Eles são verdadeiramente artistas.
 
Cineweb - Depois do trabalho com Clint Eastwood, você gostaria de atuar mais na América?
Cécile - Não é realmente uma escolha nossa se vamos seguir uma carreira em Hollywood ou não. É mais uma questão se vou receber propostas que me estimulem ou não a trabalhar lá. Não penso em morar na América porque tenho minha casa na Europa e estou muito feliz aqui. Tenho necessidade de três critérios: um personagem apaixonante de interpretar, uma história que eu tenha vontade de contar a todo mundo e um diretor que me possibilite crescer artisticamente. É isto o que eu procuro, seja em Hollywood, na Ásia, na África ou na Europa. Porque um projeto ocupa muitos meses de minha vida e eu tenho necessidade de ficar feliz com ele, ainda que de algum modo haja também algo de doloroso nele.
 
Leia entrevista dos irmãos Dardenne

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