Entrevistas

Em “O Garoto da Bicicleta”, os Dardenne dão chance ao amor contra o desespero

Publicado em 16/11/11 às 19h30

Uma das mais constantes e premiadas duplas de cineastas e irmãos, os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, donos de duas Palmas de Ouro em Cannes (por Rosetta, 1999, e A Criança, 2005), têm-se mostrado também dois dos mais resistentes cultuadores de um cinema humanista, intimista, centrado nos detalhes e firmemente enraizado na vida urbana e contemporânea. É, mais uma vez, um produto deste universo que emerge no delicado O Garoto da Bicicleta, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2011 e objeto de duas novidades: a presença, pela primeira vez na filmografia dos Dardenne, de uma atriz famosa no elenco, a também belga Cécile de France, e o uso da música, especialmente o Adagio um poco mosso, de Beethoven.
 
Nesta entrevista, concedida em Cannes, os cineastas, que respondem às perguntas alternando-se calmamente, como num jogral intuitivo, comentam as particularidades deste filme, de seu método de trabalho, as razões de sua escolha de Cécile de France e como encontraram o impressionante pequeno protagonista do filme, o estreante Thomas Doret.
 
Cineweb - Seus trabalhos parecem sempre tão naturais e precisos, como documentários. O que é necessário como ponto de partida para ter esse resultado?
Luc Dardenne – Frequentemente é um personagem com a situação que o cerca. Neste caso, foram dois. Um era um menino japonês. Ao lado deste menino, havia uma personagem chamada Samantha, num roteiro que não conseguíamos terminar, e se tratava de uma médica. Pensamos se não poderíamos colocar esta mulher numa situação de fazer algo por um garoto abandonado, numa história de amor em que Samantha tentaria resgatar esse menino de seu sofrimento, de sua raiva, de sua violência. Depois resolvemos torná-la cabeleireira. Da medicina sobrou no filme apenas o detalhe de que os dois se encontram pela primeira vez num consultório médico.
 
Cineweb - Vocês são então um pouco como Woody Allen, mantendo uma espécie de caixa de idéias que guardam e de onde podem sacar o argumento dos próximos filmes?
J. Pierre Dardenne – Não, não somos Woody Allen (risos). Ele fez muitos filmes e continua a fazer muitos bons filmes. Nós não somos assim. Somos dois. Estamos juntos quase todo o tempo. Conversamos muito. Trabalhamos muito, produzimos documentários, filmes de outros jovens diretores. Lemos livros, às vezes os mesmos. Assistimos filmes, falamos deles. Não temos uma caixa de idéias. Pelo fato de conversarmos muito, quando vamos escrever nossos filmes, o que temos é uma série de fragmentos de histórias e alguns personagens. No momento em que vamos realmente escrever nossos roteiros, o que vamos criar são seus encontros. Funcionamos assim.
 
Cineweb - Por que vocês escolheram Cécile de France, pela primeira vez uma atriz conhecida, para este filme?
Luc – Escolhemos Cécile porque nos dissemos que não se explica porque Samantha faz o que faz. E Cécile tem uma capacidade de estar ali imediatamente, de estar presente de maneira evidente, luminosa. Então nos dissemos que ela se enraíza no espectador, então ele não precisa se perguntar porque ela faz o que faz. Tudo o que ele tem que fazer é segui-la. Porque ela tem essa evidência toda própria, em seu corpo, sua beleza. É simples assim.
 
Cineweb - E para encontrar Thomas Doret, vocês tiveram que testar muitos jovens atores?
J.Pierre – Organizamos um processo de casting e por acaso ele era o quinto menino. Quando vimos como fazia tudo que lhe pedíamos e como interpretou uma versão simplificada da primeira cena do filme, que realmente nos impressionou, nos dissemos: “Só pode ser ele”. Até vimos os outros, mas essa impressão de que tinha que ser ele permaneceu.
 
Cineweb - Ele tinha alguma experiência anterior?
J. Pierre – Não, nenhuma. E podemos dizer que como Samantha é a fada boa de Cyril no filme, Thomas Doret foi a nossa fada boa.
 
Cineweb - Também é o primeiro filme em que usam música. Qual foi sua intenção?
Luc – Pensamos que a música aqui podia funcionar como uma carícia para Cyril no filme, é o que lhe falta, o que ele procura e ainda nem sabe. Nós colocamos essa música ao fundo, não como se ela viesse do filme, mas como se já estivesse ao fundo e a fomos abaixando. E finalmente é Samantha quem vai realizar isso, porque a música e o amor de Samantha são a mesma coisa, transmitem a mesma doçura, a mesma carícia. E no final deixamos a música no filme porque Cyril vai à casa de Samantha. Não é uma música para dramatizar.
 
Cineweb - O final é aberto, mas pode-se dizer que sugere felicidade. Por que quiseram isto?
J. Pierre – Porque tivemos vontade. Queríamos que o amor de Samantha vencesse a violência que Cyril tem dentro dele. Que ela conseguisse dar-lhe a parte de infância que ele nunca teve – porque foi obrigado a aceitar que o pai não o queria mais e que o abandonou.  Quisemos que fosse o amor de Samantha o vencedor, não o desespero. Porque o desespero é tantas vezes o vencedor na vida de hoje, que se tornou também uma atitude um pouco convencional. Desesperamos de tudo, é uma espécie de atitude geral. Quisemos que nosso filme dissesse que há mais do que essa possibilidade, há mais do que o desespero, do que o ódio, pode também existir o amor.
 
Cineweb - Como vocês trabalham juntos, concordam sempre ou às vezes discutem?
Luc – Mas trabalhamos assim há tanto tempo! (risos). Encontramos nosso método naturalmente, trabalhando. Fazemos tudo juntos no set, o casting, os ensaios. De tempos em tempos, nos dividimos, um fica mais com os atores, o outro atrás da câmera. Mas muito frequentemente ficamos juntos atrás das câmeras, por conta dos tipos de cenários que utilizamos. Assim que damos as nossas instruções, vamos nos esconder. Nossa câmera frequentemente faz ângulos de 300-600 graus nos planos-sequência, então é preciso nos escondermos em alguma parte. Se formos nos movimentar todo o tempo, podemos fazer barulho.
 
Cineweb - Quando é que vocês decidem que uma idéia está madura para desenvolver outro roteiro?
Luc – Como estamos sempre juntos, é mais fácil perceber que uma delas está tomando forma. E aí começamos a trabalhar mais seriamente.
 
Cineweb - Já existe um outro roteiro pronto?
J. Pierre – Não. Mas há uma história com um pai e um filho. E uma bicicleta.
 
Leia entrevista de Cécile de France

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