Entrevistas

Delphine Gleize filma drama à flor da pele em “A criança da meia-noite”

Publicado em 13/10/11 às 19h00

Para a diretora francesa Delphine Gleize, relacionar o processo de fazer um filme ao de ter um filho tem sido mais do que uma metáfora. Ela teve o primeiro filho logo depois de realizar o primeiro longa, Estranhas Ligações, que venceu o prêmio de melhor filme na seção Un Certain Regard em Cannes, em 2002. Estava grávida quando visitou o Brasil para lançá-lo, em 2003.
 
Quando filmou o segundo longa, A criança da meia-noite, descobriu-se grávida ainda no set, em 2010. Nem por isso, a criança do título ou o drama do adolescente acometido por uma rara doença genética desta história, Romain (o estreante Quentin Challal), têm qualquer conotação autobiográfica.
 
Em sua passagem por São Paulo, neste início de outubro de 2011, a bela cineasta de 38 anos conta que descobriu a doença por reportagens, mas nunca quis fazer dela o foco de sua história. Duas coisas a interessavam. A primeira, este personagem do garoto “que não tem a idade que devia ter, que queria ser adulto antes de ser adolescente porque tinha uma urgência de viver, como os velhos”. Sua pressa, no caso, vinha do fato de que a doença, o xeroderma pigmentoso, que implica numa total falta de resistência aos raios ultravioleta, geralmente vem ligada a uma curta expectativa de vida.
 
Se há uma característica autobiográfica nesta narrativa, aponta a diretora, é a atração pela amizade entre pessoas com grande diferença de idade – no filme, entre Romain e seu médico, David (Vincent Lindon), de 50 anos. “Não sei porque, mas sou sempre muito atraída por pessoas muito mais velhas, como minha avó e o ator Jean Rochefort. Eu me sinto muito inspirada por este tipo de amizade. Somos os melhores amigos do mundo”, revela.
Com Rochefort, de 81 anos, o ator de cults franceses como O Marido da Cabeleireira (90), de Patrice Leconte, a diretora, no entanto, nunca fez um filme de ficção. No ano passado, os dois dirigiram juntos um documentário, Cavaliers seuls, sobre um campeão de equitação que perdera suas pernas.
 
Era importante para A criança de meia-noite também que o médico fosse “uma figura que não cura, mas que acompanha”. Delphine diz que “não queria um médico heroico, porque não há cura para esta doença, como eu rapidamente deixo claro no filme. Eu procurei, aliás, que a doença fosse o cimento, a amálgama da história, não o seu centro”.
 
Emmanuele Devos
Os dois atores mais conhecidos do elenco, Vincent Lindon (de Benvindo e Mademoiselle Chambon) e Emmanuele Devos (de Um Conto de Natal) realizam aqui seu terceiro trabalho juntos. A diretora descreve sua parceria neste filme: “Eles se conhecem tanto que é formidável vê-los juntos. Vincent é muito físico, nada psicológico. Ele ocupa o espaço, faz gestos antes de falar, esta é sua maneira de encarnar o personagem. Já Emmanuele coloca primeiro sua voz – e ela tem uma voz muito particular – e depois segue essa voz. São totalmente opostos. Assim, esta espécie de confrontação pedida no filme aconteceu naturalmente, porque eles queriam surpreender um ao outro”.
Emmanuele interpreta Carlotta, a médica que deverá substituir David no consultório, depois que ele recebe uma promoção, que o deixa, porém, bem abalado – pois ele teme deixar seus pacientes e também se ressente do estilo direto de sua sucessora. Para Delphine, sendo um homem e uma mulher, “há uma espécie de sedução e também uma nova relação a construir. Assim como Romain e a menina que ele encontra. Os dois homens vivem a mesma coisa em situações diferentes, o que também me interessava”.
 
Falando da corporalidade que impregna tanto Estranhas ligações quanto A criança da meia-noite, a diretora comenta: “Eu me sinto muito inquieta pela ideia da morte. Este filme trata da conservação da vida, de filmar a pele com as cicatrizes que se fecham sempre. Para mim, essa pele não é triste. É a vida, é a promessa de que a vida continua. Mas, antes disso, é preciso que seja aberta”.
 
NEUSA BARBOSA

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