Entrevistas

A ‘solidão povoada’ de Eryk Rocha

Publicado em 16/08/11 às 19h37

 
 
Quando vai falar de seu novo filme, Transeunte, o cineasta Eryk Rocha cita Godard. “É um filme sobre a ‘solidão povoada’”, como dizia o cineasta francês. Mas não se engane, a citação não quer dizer influencia. Aos 33 anos, o jovem diretor faz seu primeiro longa de ficção, e, segundo ele, ‘surgiu naturalmente, da necessidade de experimentar outras possibilidades do cinema’.
 
Com curtas e documentários e seu currículo, Eryk confessa que sempre estranhou a cobrança de quando faria uma ficção. “As pessoas ficavam perguntando ‘quando eu faria o meu primeiro filme’. Como assim? Eu já tenho vários filmes, são documentários, mas são filmes. Há um certo menosprezo com quem só faz documentário”. Não que ele se importasse com isso, pois esta muito feliz com os rumos que sua carreira tomou, mas sua experiência na direção do DVD do espetáculo de José Celso Martinez Correa Os Sertoes – na qual usou mais de dez câmeras para captar diversos ângulos da peça – despertou uma certa curiosidade em trilhar o caminho da ficção.
 
Transeunte, que lhe rendeu prêmio de direção no Festival de Brasília do ano passado, não é um filme sobre um homem solitário, explica o diretor que coassina o roteiro com Manuela Dias. “É um filme com um homem solitário. Assim como é com o Rio de Janeiro, não sobre, nem na cidade. “ Ao centro está Expedito, sexagenário que acaba de se aposentar e perder a mãe,e , por isso, procura novos rumos para sua vida. Para planejar o filme, ele, a corroteirista e o diretor de fotografia, Miguel Vassy, passaram um ano andando pelo Rio, fazendo o trajeto do personagem, pesquisando lugares, pessoas e fatos que pudessem ser incorporados ao longa. “O acaso se torna tão importante quanto aquilo que está ao centro da história”. O centro do Rio, segundo ele, é um lugar onde diversos tempos coexistem. “É passado, presente. Tudo está na arquitetura, nas pessoas”.
 
Desde o início, ele e Vassy pensaram num filme em preto e branco. “As luzes dos trópicos são duras. A cidade contrasta com a dureza da vida”, explica o diretor de fotografia que conheceu Eryk quando estudavam em Cuba, e juntos fizeram filmes como Rocha que voa. Eryk explica que Transeunte nasceu em 2004, quando ele estava no Festival de Cannes com o curta Quimera.
 
Para Eryk, porém, tão importante quanto a imagem no filme é o som. “O som é o aspecto mais físico da linguagem do cinema, é aquele que toca o público. Do roteiro, surgiu a potencia de abusar da sonoridade do filme. O personagem está sempre ouvindo rádio, há a seresta num bar perto da casa dele”.
 
Segundo Ava Gaitán Rocha, irmã de Eryk e montadora do filme, “a imagem e o som são inseparáveis. Montar Transeunte foi um trabalho de reinvenção. Tínhamos mais de 30 horas de filmagens, e foi um processo de eterna descoberta das possibilidades que estavam ali para essa história”. Além disso, ela, que também é música, assina uma das canções do filme, além de a cantar.
 
Durante sua pesquisa pela cidade do Rio de Janeiro, Eryk encontrou, por indicação de um amigo, um grupo de seresteiros que se reúnem todas as quintas-feiras, e os incorporou ao filme. “No início, imaginamos o protagonista indo a um karaokê, mas, depois, percebemos como seria melhor termos os seresteiros. Até porque, encontramos muitos Expeditos naquele grupo”, confessa o diretor.
 
Para encontrar o ator que daria vida a Expedito, Eryk teve de fazer diversos testes até que chegou a Fernando Bezerra, por sugestão de Walter Salles, produtor do longa, que havia o dirigido em Linha de Passe. “Eu mesmo fazia os testes, e quando o vi pela câmera percebi que ele tinha aquela luz que eu procurava para o personagem. Não tinha como ser outro ator”.
 
Bezerra conta também que para criar seu personagem, com a ajuda de Eryk e Manuela, criou uma vida pregressa para Expedito, coisas que não estão na tela, mas que o ajudaram a entender quem é esse homem. “Foi importante saber quem é ele, o que ele viveu até aqui para entender por que a vida dele e ele são como são”.
 
Para Bezerra trabalhar com Eryk foi a concretização de um sonho. “Eu queria muito trabalhar com o pai dele [Glauber Rocha], mas nunca pude. Um dia, por acaso, ele comentou sobre o pai, e eu nem sabia de quem o Eryk era filho. Foi uma surpresa quando ele me falou que é filho do Glauber. “
 
Aliás, quando o assunto é Glauber, Eryk confessa que não vê semelhanças diretas entre o cinema dos dois, mas é sua irmã que aponta a maior delas: “a maior herança que ele tem é o rigor e a coragem. O Eryk está armado dessa força. O Glauber fazia e o Eryk faz cinema de mestre artesão”. 

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