Entrevistas

“Fazer galã é muito chato”, diz Tarcísio, que volta ao cinema com Hugo Carvana

Publicado em 03/08/11 às 19h15

por Alysson Oliveira

Não que Tarcísio Meira esteja desprezando sua fama de galã. Mas o ator, com mais de 50 anos de carreira, já não se interessa em viver o papel do romântico, do herói da trama. “Fazer galã é uma das coisas mais difíceis que existem, porque é chato. Eles são inodoros e insípidos. Precisam ficar dizendo ‘eu te amo’ o tempo todo e convencer o público de que estão apaixonados”, disse o ator em entrevista ao Cineweb, em São Paulo, onde divulgou o filme Não se preocupe, nada vai dar certo, que entra em cartaz nesta sexta-feira.

No longa de Hugo Carvana, Tarcísio passa longe da imagem de bom moço que cultivou
especialmente em novelas como “2-5499 Ocupado” (primeira diária brasileira), “Irmãos coragem” e, mais recentemente, em “Insensato coração”. No filme, ele interpreta Ramon Velasco, um ator trambiqueiro que viaja pelas cidades do Brasil numa Kombi com seu filho, Lalau (Gregório Duvivier), também ator e trambiqueiro. “No fundo, é uma grande homenagem ao trabalho do ator, que anda por caminhos especiais”.
 
Tarcísio estava longe do cinema nacional há 20 anos, quando fez Boca de Ouro. Em 1994, participou de uma refilmagem deste longa nos EUA, e comenta que, filmando lá, pode perceber o quanto era difícil fazer cinema no Brasil. “Éramos muito pobres para fazer cinema como os americanos. No Brasil, o ator trabalhava numa tensão nervosa, porque o filme não podia ficar caro. Por isso me afastei do cinema. Só alguns anos atrás, notei como melhoramos e estamos praticamente em pé de igualdade com o cinema de Hollywood”.
 
O convite para fazer Não se preocupe... veio do amigo Carvana, que pensou em Tarcísio desde o início para o papel do protagonista. “Eu precisava de um ator que passasse a imagem de bom moço, que conquistasse o público mesmo sendo embusteiro. O que eu jamais poderia fazer porque todo mundo já me associa com o malandro”, confessa o diretor.
 
No cinema, Tarcísio já interpretou os papeis de D. Pedro I , em Independência ou Morte (1972), um Cristo militar em A idade da Terra (1980) – passando pelo interditado Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri – , fora as inúmeras novelas e séries de seu currículo televisivo, que inclui “Grande Sertão: Veredas” (1985) e “O tempo e o vento” (1985). Quando olha sua carreira, o ator avalia que foi “uma pessoa de sorte”. E completa: “A minha geração teve muita sorte porque nos desenvolvemos junto com um veículo [a televisão]. Foi mais fácil para nós cativarmos o público, fazermos uma aliança com ele”.
 
Por outro lado, Gregório Duvivier, que faz Lalau, é um jovem ator que está descobrindo seus caminhos. “Quando fiz Apenas o fim (2009), o set era formado por gente que estava aprendendo; então, fazíamos de tudo. Agora [no filme do Carvana] há um profissional para todas as funções. Isso é muito novo para mim. Imagina que eu vou lá dar palpite no trabalho do diretor de fotografia. Ele me bate se eu fizer isso”, diverte-se.
 
Mas ele vê algo em comum com os dois filmes: “São artesanais, no sentido do cuidado, do carinho com que o diretor faz o seu trabalho”. Ele conta que trabalhar com Carvana foi uma honra e que achou que era um trote quando o diretor ligou para convidá-lo para o papel de Lalau. “Eu não tinha feito teste, a gente nem se conhecia pessoalmente. Ele me contou depois que o Daniel Filho foi quem mostrou umas cenas minhas e ele [Carvana] gostou do meu trabalho”. Na hora de contracenar com Tarcísio, porém, Duvivier conta que “bateu o maior medo”. “Mas, no set, eles foram muito afetivos e me deixaram muito à vontade”.
 
Para Duvivier, que é bem conhecido também por seu trabalho como humorista, o filme serve para mostrar o universo do comediante, que não é tão alegre e feliz como todo mundo pensa. “Acho bonito trazer para a tela a tristeza do humorista. Na vida ele sofre e canaliza para o humor. As pessoas querem que a gente seja engraçado o tempo todo. Não tem como ser assim”.
 
Em breve, Duvivier poderá ser visto em Não faço a menor ideia do que estou fazendo da minha vida, um filme que, segundo o ator, foi feito especialmente para participar do Festival do Rio, em setembro, e no qual ele repete a parceria de Apenas o fim, com o diretor Matheus Souza. “Esse é um drama mais sério, sobre uma garota que começa a conhecer a família do pai. Eu faço um tio que está com câncer”, antecipa. Além disso, ele também tem um roteiro que deve ser produzido em breve chamado Concurso Público.

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