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Pela segunda vez no Brasil, Brillante Mendoza lança filme "Lola"

Publicado em 17/07/11 às 12h12

Neusa Barbosa, de São Luís

Foto: André Lucap

São Luís - Filme de abertura do I Festival Internacional Lume de Cinema, em São Luís do Maranhão, Lola – que estreia no próximo dia 22 – trouxe ao Brasil pela segunda o premiado diretor filipino Brillante Mendoza. Será o primeiro filme do diretor a ter distribuição comercial no País. 

Convidado de honra do festival, Mendoza manteve ontem à tarde uma longa e animada conversa com a imprensa e o público no Teatro Alcione Nazaré, no centro histórico de São Luís. Nela, comentou detalhes da produção de Lola, um filme que ele planejava fazer antes de Serbis (2008) e Kinatay – que narra uma história de corrupção policial e violência e lhe rendeu o prêmio de direção no Festival de Cannes 2009.
 
Apesar de Lola contar uma história mais intimista do que os dois filmes citados, em torno de duas avós, Mendoza só conseguiu filmá-lo justamente aproveitando a visibilidade do prêmio recebido em Cannes. “Para muitos, um roteiro envolvendo duas velhinhas não parecia atraente comercialmente”, comentou o diretor.
 
Premiado na França, Mendoza sabia que era o momento certo de tirar o projeto da gaveta, ainda mais que corria o risco de perder para sempre a oportunidade. A roteirista, Linda Casimiro, já pensava até em procurar outro diretor. Mas Mendoza obteve de seu produtor uma quantia que lhe permitiu dar a largada na filmagem.
 
Outros desafios aguardavam o diretor. Era o mês de junho, estação de chuvas nas Filipinas, o que gerou alguns problemas logísticos – embora o filme aproveite esse cenário de inundação permanente, de dificuldade de locomoção, ainda mais de duas personagens idosas, em proveito da própria dramaticidade da situação. Essa constante enchente é, aliás, um dado real. “As pessoas têm que morar ali nessas condições há anos e o governo não faz nada”, critica Mendoza.
 
Filmando Isabelle Huppert
 
Outro desafio foi lidar com duas atrizes de idade avançada: Anita Linda, nascida em 1924, e Rustica Carpio, em 1930. “Tive que cuidar delas. Não era nada fácil para as duas andar, ainda mais debaixo de chuva”. Ambas são veteranas e têm excelente formação. Anita Linda (que se chama na verdade Alice Lake) começou a atuar desde os anos 1950, ainda sob a ocupação norte-americana, e tem mais de 200 filmes no currículo. A outra, Rustica Carpio, é pós-graduada em Literatura em Nova York e é, igualmente, uma atriz muito experiente.
 
O fato de que as duas atuaram predominantemente em produções mainstream causou algum estranhamento delas com Mendoza, um diretor que não trabalha com um roteiro fixo na mão, preferindo contar aos atores detalhes da história e deixá-los mais à vontade para interpretar naturalmente seus papeis, num clima semidocumental.
 
No final, as duas se adaptaram, segundo o diretor: “Elas nunca reclamaram. Até me agradeceram pela oportunidade de atuarem dessa forma. Pela primeira vez, elas disseram que se sentiram livres para expressar seus sentimentos. Tudo era espontâneo, havia liberdade de composição”.
 
Já com a atriz francesa Isabelle Huppert – que, aliás, ele conheceu em São Paulo, em sua primeira visita ao Brasil há dois anos -, com quem ele acaba de filmar sua nova produção, Prey, o estranhamento com o método foi um pouco maior. Sobre isso, o diretor confidenciou: “No começo, não foi tão fácil. Isabelle é uma atriz intuitiva, mas acostumada a ter um roteiro estruturado nas mãos, no qual ela vai fazendo suas anotações. Claro que também lhe dei um script, mas a preveni de que não seria seguido ao pé da letra e que devia estar preparada para as coisas que aconteceriam no próprio set”.
 
De acordo com o diretor, depois de uns dois ou três dias, Isabelle se acostumou. Ao partir das Filipinas, igualmente elogiou Mendoza para os jornalistas. Baseado em fatos reais, Prey conta a história de uma missionária norte-americana sequestrada por terroristas em 2001.
 
A receita básica de Mendoza
 
Outra marca registrada do estilo Mendoza é a rapidez nas filmagens. Lola foi produzido em apenas 10 dias. Kinatay, em 11. Serbis, em 12. Seu primeiro filme, O Massagista (The Masseur, 2005), em oito dias.
 
Para o diretor, a pesquisa e o roteiro são 50% de um filme. Outros 25% são a filmagem, restando os outros 25% para a montagem.
 
A veia documental é outra característica marcante de seu estilo. “Todos os meus filmes são baseados em pessoas reais. O ponto de partida de Lola foi uma notícia de jornal. Por isso, sua estética é semelhante a um documentário. Preocupo-me em mostrar na tela o que existe de fato. Ser um cineasta responsável significa que você não nega a verdade, você a apresenta. Não se faz filmes para si mesmo”.
 
Quanto ao material que Mendoza e seus amigos estão filmando na capital maranhense, ele garantiu que é “apenas pessoal” e que não pensa em colocá-lo num filme.
 
O I Festival Lume de Cinema, que se iniciou no dia 14, prossegue até 23 de julho. Com uma programação internacional de filmes de arte, que inclui também Três, de Tom Tykwer, Caminho para o Nada, de Monte Hellman – ambos exibidos no Festival de Veneza 2010, assim como Lola – e uma esplêndida retrospectiva do diretor Werner Herzog, incluindo Fata Morgana e diversos documentários, entre inúmeras outras atrações, na maioria inéditas, o festival promete delimitar um novo território para a produção independente. Além disso, marca o lançamento, na distribuição de cinema, da Lume Filmes, de Frederico Machado – há anos uma notável distribuidora de títulos excelentes em DVD.
 
Leia: A recepção de "Lola" no Festival de Veneza/2009

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