Entrevistas

Ozon ataca machismo em nova comédia

Publicado em 23/06/11 às 12h30

Aclamado por público e crítica com sua nova comédia, PoticheEsposa Troféu, o diretor francês François Ozon não escondeu, durante o Festival de Veneza de 2010, onde seu filme concorreu ao Leão de Ouro, a alegria pela acolhida. Ele contou, em entrevista ao Cineweb, que estava feliz em “voltar à comédia e aos anos 1970 (época de sua história)”. Por quê? “Aquele foi o tempo da minha infância. Por isso, não tive de fazer tanta pesquisa”, admite. Mas a principal razão para voltar ao período está na atualidade do tema: “Vejo muitas semelhanças com a França de hoje”.
 
Estas semelhanças, no entanto, não são tão positivas. Para Ozon, sobrevive na França atual “um grande chauvinismo, uma enorme diferença entre homens e mulheres”, tal como existia há 40 anos atrás. Ele percebeu isso, curiosamente, na última campanha eleitoral francesa, em 2007, quando concorria uma candidata mulher, Segolène Royal. Apesar de ela pertencer ao Partido Socialista, o cineasta acha que vieram da esquerda “as colocações agressivas contra ela”. No seu entender, o atual presidente, Nicolas Sarkozy, “não é misógino”. Ele gosta de mulher”, diz, rindo.
 
Este sentimento feminista levou Ozon a reler a peça Potiche, de Barillet & Grédy, que lhe serviu de base para escrever o roteiro da comédia que levou à tela, estrelada por Catherine Deneuve, Gérard Depardieu e Fabrice Luchini. No enredo, Catherine interpreta uma rica dona de casa que sai de sua passividade ao assumir a direção da empresa de sua família – uma fábrica de guarda-chuvas – e, a partir daí, descobrir talentos insuspeitos e tentar a carreira política.
 
A política entra no filme também pela figura de Babin (Depardieu), um ex-sindicalista que se tornou prefeito. Para Ozon, foi justamente no retrato da esquerda que ele teve que trabalhar mais para uma atualização relativa da história. “O Partido Comunista na França, pelo menos, mudou muito. Naquela época (anos 1970), ele era muito importante. A sociedade então era muito dividida entre esquerda e direita”, assinala.
 
O diretor conta ter “muita ternura” pelo personagem de Babin e seus conflitos. Por isso, o seu retrato do personagem está longe de ser negativo, e sim nostálgico: “Você sente que é um adeus a um certo tipo de visão de mundo”.
 
Esses elementos reais, para ele, ajudam o ritmo do humor: “Para que uma comédia funcione, você precisa de um contexto muito bom, muito realista, em que se possa acreditar. E também funciona tão bem porque estão na tela Catherine e Gérard”.
 
Os dois atores, aliás, fazem de tudo, inclusive dançar juntos um número à la John Travolta em “Os Embalos de Sábado à Noite” e cantar (o que Catherine faz no final). Ozon admite que poderia ter feito um musical – como em 8 Mulheres (2002, onde atuava também La Deneuve). Mas desistiu, segundo ele, porque Depardieu “é um péssimo dançarino”.
 
Ozon também não acredita em fazer filmes para o público de todo o mundo. Admite que tenta fazer os seus “os mais franceses possível” e que não acha que isso seja um problema para sua aceitação em outros lugares. “Mesmo assim, as pessoas podem se identificar com eles”, acredita.
 
O cinema de autor, para ele, continua precisando de apoio, inclusive dos festivais. Senão, diz, “só veremos nas telas blockbusters americanos”.

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