Entrevistas

Woody Allen declara paixão a Paris mas descarta nostalgia do passado

Publicado em 17/06/11 às 17h30

 
por Neusa Barbosa
 
Woody Allen chega para uma de suas poucas e disputadas entrevistas com um pequeno grupo de jornalistas de todo o mundo, durante do Festival de Cannes – que ele abriu com seu filme Meia-Noite em Paris. Faz calor e ele usa uma camisa cinza-claro, calça cinza escuro, cinto marrom. A primeira coisa que faz é olhar em volta, contar quantos somos e fazer cara de admiração. Impossível não rir. O velho comediante continua em forma.
 
Em seguida, alguns dos melhores momentos desta conversa, ocorrida numa
sala do Hotel Martinez:
 
Quando foi sua primeira viagem a Paris?
 
Foi em 1964. Eu era um comediante de cabaré e fui contratado pra escrever o roteiro de O que é que há, gatinha? A produção queria que eu ficasse por perto, no caso de precisarem de mais piadas e eu fui a Paris. E me apaixonei pela cidade, apesar da terrível experiência com o filme. Odiei o filme e odiei trabalhar nele e jurei que nunca mais mexeria com cinema a não ser que eu pudesse ser o diretor. Esta foi minha primeira experiência. E algumas pessoas daquele filme decidiram que iam ficar em Paris – elas vinham de Nova York também. Eu também pensei nisso. Mas não tive a coragem, era muito covarde. Olhando isso em retrospecto, acho que devia ter ficado, teria sido muito bom. Eu poderia ter me tornado um parisiense em todos estes anos.
 
Então o personagem do Gil é autobiográfico?
 
Há um aspecto no personagem que é, sim, verdadeiro, autobiográfico. Eu quis ficar em Paris e não tive a coragem de fazê-lo. Porque na época eu fiquei muito impressionado com a cidade. Como boa parte dos americanos, eu só conhecia a cidade nos filmes. Tinha aquela visão romântica, das pessoas se beijando ali, bebendo vinho. Quando vim para Paris foi muito bom, não me decepcionei. A cidade correspondeu em grande parte à imagem que eu tinha.
 
O sr. vê os anos 20 como uma era de ouro?
 
Sim, é uma delas. A Belle Époque é um daqueles períodos muito, muito glamourosos, que os americanos cresceram idealizando nos filmes. A gente assistia a muitos filmes ambientados nos anos 20. Parecia fabuloso para nós ver aquelas garotas com saias curtas dançando o charleston, os gângsters com metralhadoras, um período muito colorido. Filmes como Gigi pareciam o paraíso. Mas se você examinar detalhadamente aquela época, também era muito difícil. Seria legal poder voltar ao passado por um dia, quando quisesse, como você faz uma viagem ao campo. Seria bom poder visitar os anos 20 e depois voltar para casa. Mas eu não gostaria de viver lá.
 
Por que não?
 
Você sabe, pessoas morriam de tuberculose, sífilis, todo tipo de problemas. Não acho que vivemos no melhor dos tempos. Acho que todas as épocas são terríveis. Esta é uma época terrível, assim como durante a I Guerra Mundial, a Guerra Fria. Mas há coisas agora que damos de barato, mas de que sentiríamos falta se tivéssemos que viver nos anos 20. Como as crianças não terem mais poliomielite, você poder chamar uma ambulância se alguém está passando mal, o ar-condicionado. Você não poderia ter isto naquela época. Você sentiria falta do progresso, mesmo que aquelas eras fossem visualmente muito bonitas.
 
Há no filme um desejo de escapar da vida presente, não? Um certo tom sombrio.
 
Sim. Acho mesmo que o filme é basicamente triste. Todo mundo quer escapar do aspecto terrível da vida e, de todo modo, sempre seria insatisfatório porque a vida é, basicamente, insatisfatória. Não importa onde e quando se viva. Você não seria feliz em época alguma. É uma proposição falida de cara. Não há nada que se possa fazer, exceto se distrair suficientemente.
 
Por que Carla Bruni está no filme?
 
Isso foi minha ideia. Acho-a tão bonita, tão carismática, que a convidei. Acabei convencendo-a, dizendo que seria bem rápido e porque ela se sentiu tentada a atuar num filme para ‘mostrar aos netos’. Foi muito fácil trabalhar com ela, ela foi muito divertida no set.
 
O sr. filmou em Paris, Barcelona, Londres, Roma. Onde vai filmar agora?
 
Estamos considerando várias cidades, como Estocolmo. Estive lá várias vezes. É uma cidade muito bonita, muito fácil de lidar, onde eu poderia viver alguns meses. Mas antes de ir a uma cidade, eu tenho que ter algum convite para ir lá e que alguém financie o meu filme. Então penso num filme que poderia ser feito ali. Também há outras possibilidades. Tivemos ofertas sérias, como de Munique e do Rio.
 
O sr. já cogitou aderir ao 3D?
 
Nunca tive o menor interesse por isso. Isso não significa que nunca vou usar. Se aparecer um artista com quem eu possa fazer alguma coisa maravilhosa em 3D, será ótimo. Com um propósito artístico, seria ótimo. Mas eu mesmo não tenho nenhum interesse.

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