Entrevistas

Yahima Torres, a cubana que encarnou a Vênus Negra

Publicado em 15/06/11 às 17h25

 
Neusa Barbosa
Quem assiste ao filme Vênus Negra pela primeira vez nem consegue imaginar que sua atriz, Yahima Torres, seja uma estreante. Muito menos, que ela tenha sido descoberta para interpretar este forte papel dramático, da sul-africana Saartje Baartman (1789-1815), por acaso, num dia em que andava na rua, em Paris.
 
Cubana que trocara Havana por Paris há poucos meses, em 2004, para lecionar espanhol, Yahima foi vista nas ruas do bairro de Belleville pelo diretor Abdellatif Kechiche. Ao vê-la, ele parou o carro e mandou sua assistente falar com a moça.
 
Visitando São Paulo para o lançamento do filme, Yahima conta, em entrevista exclusiva: “Ele me disse que, assim que me viu pela primeira vez, eu o fiz pensar na Vênus Negra. Ele parou seu carro e sua assistente veio falar comigo. Era mais fácil, porque ela era uma mulher. Na rua, se um homem te para, você pode pensar outra coisa. Depois ele veio e se apresentou. Mais tarde, fui conferir tudo pela internet”.
 
Segundo a atriz, o diretor acalentava o projeto deste filme há muito tempo, antes mesmo de realizar O segredo do grão, que lhe deu um Prêmio do Júri no Festival de Veneza, em 2007. Mas só conseguiu produzir Vênus Negra bem depois.
 
Quatro anos após aquele primeiro encontro em Belleville, Kechiche e Yahima voltaram a falar, já visando a filmagem. “Então começou esta grande aventura”, descreve a atriz.
 
Aos 30 anos, Yahima nunca tinha atuado. Nem mesmo pensado em ser atriz algum dia. “Em Cuba, na escola, fazemos muita dança e teatro. As crianças em Cuba são muito culturais. Me dava muito prazer pensar que eu poderia atuar. Quando li o roteiro, me dei conta de que era um papel muito difícil, que exigia muito, ainda mais sendo meu primeiro. Mas não tinha medo de levar esta experiência com Abdel (como ela chama o diretor), sobretudo pelo que conta o filme, pela importância de participar de uma coisa assim. Isso como ser humano, como atriz, como tudo”.
 
Vênus Negra acabou ocupando um ano da vida da atriz. “Estive preparando-me durante oito meses antes de começar a rodar. Tinha que aprender a língua dela, o africâner, e muitos tipos de dança, a dança do filme, que não é uma dança de coreografia. É como se ela falasse com o corpo”.
 
A atriz também teve aulas de música, para aprender a tocar alguns instrumentos, e de teatro, para preparar-se para as cenas, especialmente as mais difíceis.
 
Qual foi para ela a cena mais difícil? Ela tem dificuldade em apontar somente uma: “Havia muitas. As cenas de nudez, porque há muita exposição do corpo. A cena ao final em que todo mundo quer tocá-la numa festa – para uma mulher, para um ser humano, isso é horrível. E a cena dos cientistas também, porque não abusam de seu corpo, não há violência física, mas há violência no olhar deles. Ela se sente humilhada. Eles querem ver como ela come, observá-la. Essa é também uma outra maneira de violentá-la”.
 
Um conselho do diretor que ajudou a enfrentar o sofrimento de Saartje foi o de separar muito sua pessoa da personagem. “Isto me ajudou muitíssimo. Quando ele dizia, ‘corta’, já ríamos, conversávamos, só voltávamos àquilo ali no dia seguinte. Era muito  desgastante pensar que ela estava encerrada naquela situação, podia fazer mal pensar nisso”.
 
Depois do período de filmagens, que durou quatro meses, Yahima sentiu necessidade de voltar a a Cuba. “Fui ver minha família para relaxar, depois de carregar a personagem todo aquele tempo. Ao mesmo tempo, estava contente porque via a cada dia o resultado nas imagens. Foi numa experiência muito bela”.
 
Sobre o silêncio de Saartje e sua dificuldade de reagir, Yahima também não tirou uma conclusão definitiva: “Ela é uma personagem muito misteriosa. Ninguém sabe porque não se rebelou no julgamento (de seu patrão). Ela era uma pessoa muito reservada, que não falava. Não se sabe muito sobre ela. Sua única conexão com o mundo era o patrão, eles tinham uma ligação de muitos anos, era a única que tinha. Talvez de certa maneira, acho que se sentia protegida por ele, por isso não quis denunciá-lo. Agora vivemos numa sociedade diferente. Naquele momento, a quem ela poderia recorrer?”.
 
Para a atriz, “ela viveu, desgraçadamente, numa época em que a mulher não tinha seu lugar.Ela tinha um corpo que os ocidentais não estavam acostumados a ver e então foi tratada como uma coisa exótica, com um olhar sempre de superioridade. Abdel sempre disse que ela era ‘prisioneira do olhar’. Sempre sentiu que a olhavam de maneira diferente, por isso era tão calada, tão reservada”.
 
Vênus Negra, que estreou em outubro na França, “teve muito boas críticas, mesmo que não tenha feito um grande público”, segundo a atriz. Ela sabe que algumas pessoas Podem “não tolerar” o filme, mas acredita que ele seja importante: “O filme ajuda a refletir sobre o racismo, sobre a imigração, sobre o machismo também. Vamos ser mais abertos porque somos uma humanidade, apesar das diferentes línguas, cores, povos, sem por uma barreira de superioridade. Ainda existem mulheres maltratadas, existe ainda o racismo, não temos ainda uma igualdade. Isso não devia existir”.
 
Nesta sua primeira visita ao Brasil, Yahima só trazia um desejo: “Visitar o Cristo Redentor. Sonho com isso desde menina! Em Cuba passam muitas novelas brasileiras, sempre via o Cristo e o Pão de Açúcar, e pensava que queria ir lá. Quando me disseram que vinha...”.

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