Entrevistas

Coutinho usa Tchecov para falar do homem comum em “Moscou”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 05/08/09 às 18h09

“Sua obra fala de pessoas simples sem complacência.” A frase poderia muito bem ser usada para definir o trabalho do documentarista Eduardo Coutinho, autor de filmes como Jogo de Cena (2007), O Fim e o Princípio (2005), Peões (2004) e Edifício Master (2002). Mas, na verdade, ela foi dita pelo próprio cineasta carioca para caracterizar o texto do contista e dramaturgo Anton Tchecov (1860 - 1904).

Mais cedo ou mais tarde, era natural que o caminho de Coutinho se cruzasse com o do escritor russo. Afinal, eles compartilham a mesma preocupação por narrar a vida de pessoas comuns. O encontro aconteceu no mais recente filme de Coutinho, Moscou, que estreia no Rio e em São Paulo, na sexta-feira (7/8), no qual o documentarista prossegue com a temática explorada em seu filme anterior, Jogo de Cena (2007), onde realidade e ficção – ou até mesmo a representação – são separadas por uma linha muito tênue.

“Nos meus filmes notei que o que interessa ao público são as histórias de vida que as pessoas desconhecidas têm para contar. Para quem assiste aos documentários, não importa se o que veem é verdade ou mentira. O que se quer obter são experiências de vida, que falam de sentimentos que não podem ser checados”, explicou o diretor em entrevista em São Paulo, onde esteve para a divulgação do filme.

Moscou é uma experiência radical – especialmente para o público. Coutinho reuniu o grupo mineiro de teatro Galpão e convidou seus atores para ensaiar uma peça, de escolha do cineasta, durante três semanas. Seria uma montagem que jamais chegaria ao público, mas, como ficou acertado, todo o processo de criação seria documentado. A peça escolhida foi As Três Irmãs, de Tchecov, e sua direção foi entregue ao ator e diretor Enrique Diaz – que não pertence ao Galpão.

Coutinho conta ter optado por esse texto não apenas por ser um de seus preferidos, mas por se tratar de uma peça sobre o cotidiano. “Tchecov fala muito da infância, do futuro. O conflito dos personagens é completamente interno. Parece que não está acontecendo nada, mas está tudo ali”. Além disso, o cineasta aponta intersecções entre a obra do russo e a história de seu país e a do Brasil. “Lá houve a servidão, que nada mais é do que uma forma de escravidão, como aqui. Isso resultou num paradoxo: ninguém quer trabalhar. Aqueles que foram escravos estão cansados e os patrões nunca trabalharam. São os resquícios da aristocracia”.

Já a escolha do Grupo Galpão, por sua vez, ocorreu porque o cineasta queria trabalhar fora do eixo Rio-São Paulo. “O espaço que eles têm é ótimo, pudemos tirar as poltronas e o teatro todo nos serviu”. O trabalho, no entanto, foi bem diferente do que o grupo estava acostumado. “O Galpão faz teatro de rua, no qual se deve ser mais expansivo. Tchecov, porém, é mais contido, mais intimista”.

Ao longo das três semanas de filmagens, no entanto, Coutinho foi percebendo o quanto este filme era diferente de suas obras anteriores. “Eu não entrevistava ninguém, interferia o menos possível e, com isso, fui perdendo o controle do filme de uma forma interessante.” Ao final do processo, o documentarista tinha cerca de 70 horas de material bruto, que renderam um primeiro corte de 4h40. “Como tirar disso um filme? Eu fiquei sem saber. Não queria fazer teatro filmado e também não queria discussões técnicas sobre teatro.” A resposta veio do também cineasta e produtor de Moscou, João Moreira Salles. “As sugestões dele foram muito valiosas, inclusive o título. Percebemos que deveria ser um filme curto e fragmentado, que não seguiria a ordem cronológica da peça. O menos importante era o público acompanhar a história de As Três Irmãs, e sim mergulhar na ficção e na realidade com as quais os atores estavam trabalhando”.

Ainda assim, Coutinho revela que muito do material extraído da montagem final de Moscou, que chega aos cinemas com duração de 77 minutos, alimentará os extras de seu DVD. “Os exercícios do Enrique com os atores, a construção dos personagens, tudo isso é muito interessante. Quero que o público veja. Mas não será um making of do filme, longe disso”.

Para conseguir essa concisão, Coutinho e Moreira Salles não hesitaram em eliminar personagens secundários da peça e dar mais espaço às irmãs, ao irmão e à cunhada, os elementos principais da história. “Enrique tentou aproximar os atores de seus personagens usando fotos, imagens e memórias que eles tinham de suas próprias vidas. Isso resultou em momentos muito interessantes”. O documentarista destaca uma cena que culmina numa atriz/personagem cantando uma canção sobre a cidade mineira de Divinópolis que, obviamente, não estava na peça. “Os melhores momentos acontecem quando os atores se misturam aos personagens. O acaso é um grande mestre do documentário.”

Mas o radicalismo de Moscou pode ter um preço. Coutinho está ciente de que poderá enfrentar algumas cobranças. “Muita gente vai reclamar que não mostro o processo de montagem da peça. Mas não é esse o meu foco. ‘Moscou’ é sobre a arte de narrar. Sei que é um filme mais difícil. Em Jogo de Cena, as pessoas se identificam mais facilmente com as histórias, como uma mãe contando que perdeu o filho. Mas muita gente não conhece Tchecov”.

“‘Moscou’ é uma viagem e há grandes possibilidades de que muita gente vá desembarcar no meio. Outras irão até o fim. É uma questão de sensibilidade. O filme pronto deixa de ser nosso. Nós é que agora pertencemos a ele”. Por isso mesmo, o cineasta diz que espera que o público veja a obra e julgue por si próprio. “Gostem ou não, as pessoas têm o direito de vê-lo”.

Nem por isso, acredita o cineasta, Moscou é um documentário elitista. Ao contrário, o próprio Coutinho confessa se interessar muito por cultura de massa. “Na minha obra quero costurar a arte, o erudito com o popular. Com o tempo, as coisas deixam de ser populares e se tornam folclóricas. Como as músicas de Roberto Carlos. Depois de décadas, elas fazem parte do folclore do Brasil”. Curiosamente, numa das cenas alguém canta uma canção do desenho Mogli, que o documentarista nem conhecia. “Achava que era algo mineiro, mas me explicaram depois do que se tratava. Parece que a Disney me persegue”, brinca, referindo-se a uma entrevistada que em Jogo de Cena insistentemente menciona o desenho Procurando Nemo.

Ao contrário de Jogo de Cena, no qual o público tinha pistas para desvendar a maioria das histórias contadas pelas atrizes, em Moscou pouco importa saber se aquilo que os atores contam é verdade ou não. Numa das primeiras cenas, um dos participantes mostra uma foto e diz que morou por muito tempo em Moscou. Quando voltou para lá, anos mais tarde, ficou muito triste ao ver o cinema da cidade sendo destruído. “Não sei se aquilo é Moscou mesmo”, confessa o cineasta, “preciso perguntar para o ator. Pode ser a Rússia, mas também pode muito bem ser uma cidadezinha mineira. Isso não importa”. O fragmento, logo no início, serve também num plano metafórico sobre a desconstrução pela qual passa o cinema. “As novas culturas, a internet, estão engolindo o cinema. No filme eu queria que o Enrique desconstruísse a peça, mas também deixasse algo para eu construir em cima”.

Além de trabalhar no lançamento de Moscou, o documentarista já prepara o seu próximo trabalho que, segundo ele, deve ser ainda mais radical. “É muito caro e complicado tecnicamente. Segue nessa mesma linha de investigação entre a realidade e a ficção, mas é mais complexo, envolve citações”. Ele diz, no entanto, que o projeto ainda não está fechado. “Até setembro preciso definir com meus produtores se o filme acontecerá. Não sei ainda. Tudo depende de vários fatores”.
















Alysson Oliveira

Outras notícias