Letras e fotogramas

“Uma Viagem à Índia”: Navegar sempre será preciso

Por Alysson Oliveira em 04/01/2011
 
Numa época em que o verbo ‘navegar’ adquire outra conotação diferente daquela das Grandes Descobertas dos séculos XV e XVI; e em que as pessoas se contentam em expressar suas opiniões, sentimentos e pensamentos em apenas 140 toques o português, de origem angolana, Gonçalo M. Tavares ousa escrever um livro de mais de 400 páginas em verso – aos moldes de “Os Lusíadas” – mas sem negar a modernidade. “Uma Viagem à Índia” (480 pg; Editora LeYa; R$44,90), lançado no Brasil no final do ano passado, é uma espécie de cruzamento entre Camões e James Joyce, o encontro do clássico com o século XX.
 
Escritor ambicioso, na literatura de língua portuguesa contemporânea, Tavares ocupa um lugar especial. Suas séries de livros são densas e estimulantes, e os títulos, enganadores. “Jerusalém”, seu livro mais conhecido e premiado, não é sobre a cidade, nem sobre um lugar, mas sobre um estado de espírito. O título vem de um salmo bíblico: “Se eu te esquecer, Jerusalém, que paralise a minha destra. Colada fique a minha língua ao céu da boca se eu não te recordar, e se eu não erguer Jerusalém acima de minha alegria”. Em “Uma viagem À Índia”, ele não faz por menos.
 
O livro é divido em dez cantos e tem a disposição de um longo poema, sem nunca ser um poema. Não há qualquer elemento formal, como rimas, estrofes e versos, e a escrita não é bem poética – é crua, direta. Esse esquema formal quer indicar o aspecto épico do livro, mas, no fundo é uma releitura – uma espécie de paródia, não num sentido negativo – de Camões. Essa é a grande ironia do livro:
 
“Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo de seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso”
 
O protagonista, Bloom (o mesmo nome do protagonista de “Ulysses”) foge. Foge não apenas de uma cidade, Lisboa, seus amigos e conhecidos, mas foge da chama que o consome: um duplo homicídio. Uma pessoa próxima a ele foi assassinada, e ele a vingou. A trajetória do personagem, passando por diversas cidades e conhecendo pessoas, abre seus olhos para uma espécie de verdade universal: todo mundo é igual, não importa onde.
 
“Uma Viagem à Índia” é uma espécie de romance conceitual, que, ao final, inclusive traz gráficos. É uma leitura desafiadora, quase do tamanho da ambição de Tavares. Se ele nem sempre sucede em suas aspirações – o formato de poema, por exemplo, nem sempre se justifica -, mas, ainda assim, o autor é capaz de mapear alguns dos males do homem contemporâneo com maestria, e mostra que, enquanto existir a humanidade, navegar será o nosso destino.

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