Celulóide Digital

Meu heroi pessoal, Ken Loach

Por Neusa Barbosa em 21/05/2010

Cannes – Ken Loach é um dos meus herois pessoais. O fato de que há tanto tempo ele continue a fazer os filmes que faz, cheios de humanismo e de uma visão de política que supera de longe qualquer partidarismo, sintonizando sempre algumas das mais candentes questões contemporâneas, costuma reativar minha fé na humanidade. Loach me dá, com seu trabalho, um justo argumento contra o cinismo geral que toma conta não só da política, como da arte, do jornalismo (este, até por vício profissional), como do mundo todo.
 
Lúcido quanto aos limites da humanidade, em que ele acredita com uma fé moderada por naturais nuances de cautela realista, Loach não se tornou ainda um cético ou niilista. É sempre uma inspiração ouvi-lo falar, como hoje à tarde, na coletiva do Festival de Cannes, ao lado de seus inseparáveis mosqueteiros, o roteirista Paul Laverty e a produtora Rebecca O’Brien – que sabe Deus como arranja dinheiro de todos os países possíveis para que ele continue assinando filmes contundentes como Route Irish, talvez o mais indignado concorrente à Palma de Ouro deste ano. O filme radiografa a incrível sanha de alguns empreendedores privados para tirar lucro da guerra do Iraque, explorando trabalhadores estrangeiros (inclusive vários latinoamericanos) e mantendo-se a salvo de dar satisfações a qualquer lei ou país, cometendo toda a espécie de crimes e nem mesmo pagando impostos. Impiedosos caubóis modernos.
 
Se há uma característica que admiro em Loach e Laverty é a combinação de sensibilidade e inteligência, sem nenhuma pieguice, que sempre encontram para personalizar as questões sociais mais complexas, sintetizando-as em personagens que dependem do próprio trabalho para viver. Loach não é um romântico. É um sadio pessimista. Sabe muito bem que a simples derrota do Partido Trabalhista britânico de Tony Blair, que apoiou a guerra do Iraque, não quer, em si, dizer muita coisa. A mudança da política, para ele, é muito mais do que, como ele diz, “mudar de um partido de direita para outro”. Ele não acredita nos mocinhos bonitos, como Gregg Braden, a nova estrela em ascensão do Partido Conservador britânico.
 
Rebelde incansável, inclusive contra a falta de espaço do cinema independente nos multiplexes (claro que isso acontece tanto na Inglaterra, como no Brasil e no resto do mundo), Loach está descobrindo uma brecha para ampliar o público de seus filmes na internet. Sua produtora, Rebecca O’Brien, abriu um canal para os filmes dele no Youtube e está lutando para convencer os detentores dos direitos de alguns títulos a abrir mão deles para colocar todos de graça na rede. A nova trincheira destes incansáveis três mosqueteiros do cinema é a web. Boa sorte para eles aí também.

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Comentários:
  • 28/06/2010 - 16h40 - Por Rafael Vi o filme A Procura de Eric e gostei muito. Seu post me motivou a ver outros. Vou procurar.
    Um abraço,
    Rafael
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