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Não há tanto glamour na vida de um jornalista em Cannes

Por Neusa Barbosa em 17/05/2010

Cannes - Muita gente pensa que a vida de jornalista que vem cobrir o festival de Cannes é só moleza e glamour. Para quem está de fora, os repórteres credenciados aqui são uns felizardos que vivem no bem-bom, diante de uma maravilhosa praia da Riviera Francesa, assistindo ao desfile de astros e estrelas incríveis e sendo os primeiros a conferir filmes impecáveis de diretores talentosos e famosos.

 
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Vir para cá é ótimo, claro, senão a gente desistia depois da primeira vez – e eu estou vindo este ano pela décima. É muito legal mesmo assistir a tantos filmes esperados em primeiríssima mão, ainda mais com a qualidade de projeção que se tem nestas salas do Palais des Festivals, difícil de encontrar depois daqui.
 
Quando o tempo ajuda – a primavera é caprichosa... -, o mar da Riviera é mesmo lindo de ver. Mas quem disse que a gente tem tanto tempo assim de olhar para ele? A paisagem da janela de uma das salas de imprensa aqui do festival, com vista para o mar, é até um problema – com a luminosidade que bate aqui, cria problemas para você enxergar a tela do seu computador. E trabalhar de óculos escuros também não dá.
 
Falando nas salas de imprensa aqui, estão todas bem abaixo da medida. Atualmente, pelo menos 4.000 jornalistas do mundo todo vem para cá – e as salas não cresceram na mesma proporção neste prédio construído nos anos 50. Naqueles dias em que todo mundo resolve comparecer a uma coletiva concorrida – como é o caso das dos astros locais ou de Hollywood -, é um Deus nos acuda. Dá empurra-empurra, cotovelada, pisão no pé – é, isso acontece aqui no primeiro mundo também. Até mais. Respeito a filas, nestas situações ? Esquece ! Salve sua pele, se puder.
 
Nas salas wi-fi (que um patrocinador oferece gratuitamente para todos os jornalistas credenciados no período do festival), a luta pelas mesas e cadeiras é constante. Na falta delas, os repórteres, pressionados pelos horários para entregar suas matérias, abrem seus notebooks onde dá – no chão, no tapete, nos corredores. Isso enquanto dura a bateria. A luta por uma tomada é das mais acirradas por aqui.
 
Tempo para refeições ? Esquece! Quem olhar a programação, vê como é, um filme atrás do outro, fora as coletivas, as entrevistas (que, para serem marcadas, dependem de você correr atrás de diversos escritórios de assessorias de imprensa espalhados ao longo de Cannes). Como se anda a pé por aqui!
 
Enfim, quando o festival acaba, está todo mundo com sono e fome atrasados, as costas um trapo de ficar o dia inteiro sentado nos cinemas ou em má postura para escrever suas matérias – o que se faz todo dia. Não é mole sobreviver a Cannes. O espírito agradece mas o corpo sofre muito.

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Comentários:
  • 17/05/2010 - 21h05 - Por Maurício Oi Neusa, que tal você postar, por curiosidade minha e suponho que de outros tantos, um comentário sobre os preços que se cobram em Cannes na época do festival? O preço de uma refeição num restaurante minimamente razoável, a diária de um hotel simples, etc... Um abraço e boa temporada por aí!
  • 26/05/2010 - 05h14 - Por Neusa Barbosa oi Mauricio:
    Realmente, vc observou uma coisa importante - os preços em Cannes, que é um balneário chique, sobem nessas épocas de festivais.
    Vc não pode esperar encontrar uma diária de um hotel modesto (duas estrelas) por menos de 150 euros; e tem que negociar se isto inclui café da manhã ou não (senão, quando vc chegar, vão te enrolar e cobrar uns 8 euros por isto, o quee um absurdo. Na rua, em qualquer café, vc toma um café razoável por menos que a metade disso, incluindo um croissant, um café com leite e eventualmente até um copinho pequeno de suco).

    Quanto à refeição, todo ano se tem que mudar de restaurante - em alguns casos, alguns ficam caros, outros perdem a qualidade (mudam de dono, como em qualquer lugar). O almoço custa menos do que o jantar, como sempre - por uns 25 euros vc come tipo um crepe salgado e uma bebida. No jantar, essa conta fica por 40 euros, em média. Se vc fizer alguma extravagância, sobre para 60, 70 euros...

    enfim, é por aí.

    um abraço,

    Neusa
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