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Tim Burton, o presidente paz e amor do júri de Cannes

Por Neusa Barbosa em 12/05/2010

Pelo menos em termos da presidência do júri, o contraste é total entre o festival de Cannes 2010 e o de 2009. Ao contrário da mão de ferro da presidenta 2009, a gélida atriz Isabelle Huppert, o diretor norte-americano Tim Burton foi só relax em relação aos seus comandados.
 
Enquanto La Huppert convocava os jurados para sessões às 8 horas da manhã, e reuniões de trabalho, Burton é só paz e amor. Ontem à noite, ele só foi jantar com seus colegas de júri e garantiu que, à mesa, que não deu nenhuma instrução. “Não estamos procurando algo específico. Minha ideia é termos uma atitude o mais aberta e sem preconceitos possível”, foi o que ele disse na coletiva do júri hoje.
 
Não era bem isso o que Burton vinha dizendo à imprensa nos últimos dias. Ele falava de seu gosto por filmes capazes de chacoalhar, até dotados de alguma crueldade – o que, de cara, parecia favorecer algumas cinematografias de antemão. A coreana, talvez. E há dois concorrentes coreanos no páreo da Palma de Ouro.
 
Seja porque levou algum discreto puxão de orelhas do comando do festival ou não, o fato é que Burton foi bem doce e deu a entender que espera o mesmo de seus colegas – em que se incluem os atores Benicio del Toro, Kate Beckinsale e Giovanna Mezzogiorno e o cineasta espanhol Victor Erice.
 
Enfim, a coletiva seguiu o protocolo educado de sempre. O assunto mais polêmico foi o fato de haver cineastas presos no mundo – citados especificamente o iraniano Jafar Panahi e o polonês Roman Polanski (que até já presidiu o júri de Cannes, em 1991, como lembrou alguém).
 
A menção aos dois provocou de Burton uma apaixonada defesa da liberdade de expressão – por mais que a prisão de Polanski, a bem da verdade, não tenha nada a ver com isso e sim com uma velha pendência por estupro contra uma menor de idade, 30 anos atrás.
 
Enfim, Burton e os jurados não estavam a fim de incendiar o festival logo de cara. Como diz o presidente do júri, todos eles estarão de olhos abertos para as surpresas que esperam haver na seleção deste ano – em que o primeiro competidor passa hoje à noite (Tournée, interpretado e dirigido por Mathieu Amalric, o ator que aprendemos a amar em O Escafandro e a Borboleta, A Questão Humana e Conto de Natal). Vamos ver como ele se sai atrás dos bastidores, que foi onde ele começou, embora no Brasil essa obra dele como diretor não tenha circulado).
 
Surpresa mesmo foi ouvir o que Burton pensa do 3D – que ele usou em Alice, seu filme em cartaz no momento. Para ele, não é a salvação da lavoura, nem nada demais. Só uma outra ferramenta, como a cor ou o som. Acho que Burton está coberto de razão. Por mais que a embalagem mude de tempos em tempos – e é preciso -, do que o cinema precisa mesmo é de boas histórias.
 

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