Letras e fotogramas

"Léxico Familiar", de Natalia Ginzburg, um romance sobre o fascismo

Por Alysson Oliveira em 27/01/2020

O que acontece na esfera doméstica enquanto regimes fascistas sobem ao poder? Nada de mais, a vida segue, por um tempo, praticamente na normalidade apenas com pequenos distúrbios eventuais. É assim que acompanhamos em Léxico Familiar, o cotidiano de um clã judeu de classe média de Palermo entre os anos de 1920 e 1950. Mas chega um momento que esse véu aparente da normalidade cai, e o que é exposto é a face mais assustadora da intolerância e violência – mas o mundo dentro de casa sobrevive, mesmo quando a casa é destruída por algum bombardeio.
 
A escritora italiana Natalia Ginzburg afirma que o livro deve “ser lido como um romance: ou seja, sem exigir dele nada a mais, ou a menos, do que um romance pode oferecer.” E no caso dela tem muito a oferecer, pois essa combinação de memória com alguma invenção é um retrato que ressoa muito em nosso presente. Mediada por fio da memória, a narrativa se constrói quase como um sonho real, mas fantasioso. “Escrevi apenas daquilo de que me lembrava. [...] Há [no livro] também muitas coisas que eu lembrava e deixei de escrever”, diz ela na abertura. Algumas coisas, como ela diz (especialmente coisas sobre ela mesma) preferiu deixar de fora
 
Ela constrói uma crônica familiar com carinho, observa seus personagens com generosidade: o pai, um professor universitário antifascista sempre mau humorado (para ele, todo mundo é burro, tudo é parvoíce), a mãe sempre alegre (na maior parte das vezes uma alegria gratuita), os irmãos cada um vivendo sua vida. O fascismo de Mussolini sempre espreitando pelas frestas da porta – uma menção aqui e ali, uma tentativa quase perene de fingir que nada de muito grave está acontecendo, até que é impossível não se preocupar com o destino de uma família judia.
 
Não é que sejam alienados, mas é que no mundo doméstico, no cotidiano do trabalho, das contas, das preocupações com a comida e a escola das crianças, a política é um detalhe que raramente está em primeiro plano. E é nesse sentido que Ginzburg faz um retrato tão certeiro (e, em certa medida, para nós, assustador) da ascensão de um regime totalitário: a grande parcela da população que está tentando apenas sobreviver, sem se dar conta que corre o risco de ser aniquilada num futuro não muito distante.
 
O pai, o anatomista Giuseppe “Beppino” Levi, emerge como a figura mais forte aqui, exerce sobre a narradora e, consequentemente o leitor, uma espécie de fascínio em sua figura gigantesca. Mas é também com os pequenos personagens que o livro se torna um grande painel de um mundo prestes a ruir. Seja nas amigas da mãe (que não gostava de mulheres da idade dela), na costureira que tem medo do pai, ou os amigos dele que são perseguidos por suas posições políticas, e precisam se esconder na casa da família.
 
Lendo Léxico Familiar hoje, é impossível não pensar em Elena Ferrante, que, com sua Tetralogia Napolitana, é uma espécie de herdeira de Ginzburg. Não que exista uma cópia ou emulação – nada disso, mas ambas estão interessadas nas crônicas das relações familiares e interpessoais tendo ao fundo, e como força motora, a narrativa da História.  

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