Letras e fotogramas

Tupinilândia: Um longo Vaga-lume para adultos

Por Alysson Oliveira em 27/11/2018

Talvez nem seja uma referência explícita para o escritor gaúcho Samir Machado de Machado, em seu Tupinilândia, a série de romances infantojuvenis Vaga-lume, mas dada a nostalgia carinhosa com a qual ele tanto evoca os anos de 1980, é pouco provável que isso não tenha sido uma inspiração.
 
Tupinilândia é o nome de um parque fictício construído na época do fim da Ditadura no interior do Pará. Seu dono era o empreiteiro João Amadeus Flynguer, ricaço de bom coração obcecado por Walt Disney e tudo o que seu nome (e marca) significa. A primeira parte do romance tem ao centro essa figura, um homem fascinante em seu espírito de aventura e o tino para negócios. Tudo é visto pelos olhos de Tiago, jornalista e ex-namorado de seu filho, contratado para redigir sua autobiografia.
 
O parque é a obsessão que também guia a narrativa do livro. Esse é um romance de aventura que evoca o espírito da série Vaga-lume – que fez sucesso com títulos como O mistério do cinco estrelas e A ilha perdida – para o bem e para o mal. No lado positivo, a aventura é bem orquestrada e constante; no negativo, os romances infantojuvenis eram curtos, e as quase 500 páginas, o livro de Machado tem problemas em se sustentar contando apenas com o ritmo de correria.
 
Machado é um escritor de ideias boas, e inventivo, capaz de conectar o passado com o presente se forçar, e criar um Indiana Jones brasileiro sem parecer cópia, mas em Tupinilândia falta o pulso forte de um editor para lapidar o material e deixar o resultado final mais sofisticado. A primeira parte em especial sofre de um mal que alguns julgam o maior pecado na ficção: mais descrição de atos e acontecimentos do que narração.
 
Talvez pela falta de confiança no leitor, tudo precisar ser excessivamente exposto – especialmente o contexto histórico brasileiro do começo e do final da ditadura. Por exemplo, há uma longa explicação em forma de diálogo sobre o Atentado do Riocentro, em 1981. Um amigo descreve a Tiago o que aconteceu – o que é um tanto estranho já que, por mais que o jornalista se confesse um alienado, era impossível que ele não soubesse o que houve. Isso na verdade, é um estratagema não muito refinado para contar para o leitor – especialmente os mais jovens – que pode não saber o que aconteceu.
 
A segunda parte, situada no presente, às vésperas do Impeachment de 2016, é mais bem resolvida. Um arqueólogo ganha uma bolsa de estudos e com sua equipe vai às ruínas do parque Tupinilândia, e chegando lá é surpreendido, e o romance, novamente, se torna uma aventura.
 
Machado claramente tem nos filmes protagonizados por Indiana Jones seu modelo, e até encontra uma espécie de “nazistas” nacionais  para serem seus vilões. A segunda parte tem uma leitura mais fluida, menos preocupada em se explicar o tempo todo – até por ser o passado recente, o escritor deve levar em conta que seu leitor contemporâneo tem em mente do que ele está falando. Tupinilândia é divertido, mas poderia ser mais enxuto – o excesso nem sempre funciona a seu favor. E os personagens não são muito complexos, mas isso é praticamente uma característica desse tipo de literatura, então, não é propriamente um problema.

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